José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Vozinha e a cidadania da língua

Goleiro de Cabo Verde fez história em campo, mas mãe do jogador não conseguiu entrar nos EUA por problemas financeiros com o visto americano

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Parou a Espanha, levou Cabo Verde ao primeiro ponto da sua história numa Copa e ganhou milhões de seguidores. A mãe, porém, no outro lado da vida, não conseguiu reunir a tempo o dinheiro necessário para o visto que lhe permitiria assistir ao jogo.

A Espanha teve 75% da posse de bola, fez 27 finalizações e terminou sem marcar. Cabo Verde apresentou um goleiro de 40 anos, sete defesas incríveis e uma disciplina coletiva capaz de transformar a estreia num Mundial em empate com a campeã europeia.

Quando o jogo acabou, o jogador Josimar Dias, conhecido como "Vozinha", foi eleito o melhor em campo, ergueu a bandeira do país e chorou.

Durante a partida, uma mobilização iniciada pela CazéTV levou o perfil do jogador de cerca de 50 mil seguidores para milhões. Em poucas horas, Vozinha tinha uma audiência digital várias vezes superior à população do seu país.

O Brasil reconheceu naquele homem um tipo de herói que conhece bem: o trabalhador veterano, invisível durante décadas, descoberto pelo mundo justamente quando já deveria ter desistido.

Depois veio a informação que mudou o sentido da história. A mãe do goleiro não estava no estádio porque a família não conseguiu resolver a tempo o custo e o processo do visto para os Estados Unidos.

O filho atravessou a defesa espanhola, as televisões, os algoritmos e as fronteiras simbólicas do futebol. A mulher que o criou ficou impedida de atravessar uma fronteira real.

Este é o retrato exato da globalização contemporânea. O talento circula quando produz espetáculo. A imagem viaja quando gera audiência. O corpo estrangeiro, porém, continua submetido ao preço dos documentos, à suspeita migratória e à burocracia dos países que organizam a festa.

Para a transmissão, Vozinha entrou em todas as casas, mas para o sistema consular, a sua mãe continuou do lado de fora.

O episódio também revela uma desigualdade que o futebol costuma disfarçar com hinos, bandeiras e discursos de união. O Mundial vende a ideia de um planeta reunido, embora a mobilidade permaneça distribuída de acordo com renda, passaporte e origem.

As seleções chegam; as famílias ficam. Os jogadores do Sul global são convidados a representar seus países, desde que aqueles países caibam no campo e reivindiquem pouco espaço fora dele.

Há algo profundamente atlântico nesta história. Cabo Verde nasceu das rotas que ligaram África, Europa e América, carregando uma diáspora, muitas vezes escravizada, sempre maior do que a geografia das ilhas, e foi uma audiência brasileira que empurrou Vozinha para o centro da conversa mundial.

Durante algumas horas, a língua portuguesa criou uma comunidade instantânea de reconhecimento entre pessoas que nunca se encontraram. Esse afeto tem valor. Também tem prazo curto. A internet transforma desconhecidos em celebridades com a mesma facilidade com que os devolve ao silêncio. Uma cidadania completa.

Vozinha trabalhou uma vida inteira para chegar àquele gramado. Os milhões chegaram em minutos. A sua verdadeira vitória, contudo, permanece nas sete defesas, no ponto conquistado e na bandeira estendida sobre os ombros. Seguidores podem desaparecer no próximo jogo. A imagem da mãe ausente ficará.

No fim do jogo, as dez ilhas de Cabo Verde entraram inteiras no estádio do mundo pelas luvas do seu goleiro. Faltou apenas entrar a mulher que primeiro o segurou em suas mãos.