Um túnel que cumpre uma profecia
Portugal, aliado à China, derrotou a Espanha para erguer o túnel Santos–Guarujá, cumprindo um desejo centenário do Brasil e revelando a força simbólica das novas rotas globais
O leilão do túnel Santos–Guarujá consagrou um desfecho que vai além da engenharia. A empresa portuguesa Mota-Engil, empoderada com o capital chinês da CCCC, venceu os espanhóis da Acciona para assumir a construção de uma obra sonhada há mais de um século. O gesto, em si, contém uma simbologia rara: Portugal reaparece como ator relevante no Brasil, mas não sozinho — de mãos dadas com a China, parceiro global que hoje projeta sua influência pelo mundo.
A dimensão econômica é clara. O consórcio luso-chinês comprometeu-se a investir bilhões, numa concessão de 30 anos, para erguer um túnel submerso que promete encurtar travessias seculares de balsas a minutos. Ao vencer concorrentes europeus, sobretudo os espanhóis, o consórcio demonstrou que a competição internacional já não se decide apenas pela tradição ou pela escala nacional, mas pela capacidade de articular capital, know-how e confiança regulatória. Portugal, ao aliar-se a Pequim, mostrou que sua vocação marítima se converteu em vocação global: de plataforma atlântica a mediador entre continentes.
O impacto simbólico talvez seja ainda mais eloquente. Se no passado as caravelas cruzavam o Atlântico em busca do Oriente, hoje o eixo se inverte: é uma aliança luso-chinesa que cruza o mar para atender a um desejo brasileiro. A Espanha, rival histórica na partilha oceânica, sai derrotada num certame cujo objetivo é precisamente unir margens separadas pela água. A história não se repete, mas rima: antigos competidores atlânticos disputam, em 2025, um túnel de concreto e aço.
Há, contudo, uma cautela necessária. O fato de não haver empresas brasileiras à frente da disputa suscita preocupações: até que ponto o país depende de capital externo para realizar obras estratégicas? Além disso, o arranjo de governança — repartido entre União e Estado de São Paulo, com forte aporte público — exigirá disciplina institucional para que não se transforme em campo de atritos. O simbolismo de uma vitória portuguesa não elimina o desafio de executar a obra com transparência e eficiência.
Ainda assim, não é exagero enxergar uma espécie de profecia no desfecho. Uma empresa portuguesa, respaldada por capital chinês, vence os espanhóis para concretizar uma promessa centenária do Brasil. O Atlântico, que um dia foi rota de conquista, reaparece como espaço de colaboração, pragmatismo e memória. Ao fundo do mar, entre Santos e Guarujá, não se cava apenas um túnel: escava-se também a possibilidade de um futuro em que história, geopolítica e desejo coletivo se entrelaçam.



