Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

13 de maio, um marco do quê?

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O 13 de maio de 1888 foi marco legal, sim. Pôs fim, no papel, ao regime mais violento e vergonhoso da história da humanidade: a escravidão. Mas marco legal não é marco real. Abolição sem terra, sem escola, sem reparação é só expulsão da senzala, com endereço certo na favela ou qualquer outra forma correlata de exclusão.

Trinta e oito anos depois do samba da Mangueira, de 1988, o verso segue profético: “Pergunte ao criador / Quem pintou essa aquarela / Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da favela”. Os dados dos dois últimos anos, 2024 e 2025, não escondem. Só confirmam. O 13 de maio virou data, não virada.

A política brasileira continua branca por projeto. Nas eleições municipais de 2024, apenas 33,5% das prefeituras foram conquistadas por pessoas negras, mesmo sendo quase 60% da população. Para cada prefeito preto eleito, foram 28 prefeitos brancos. Mulheres negras chefiaram só 4,3% dos municípios e não se encontram nem nas capitais nem nas grandes cidades brasileiras, uma vergonha para nossa democracia.

A Câmara e o Senado seguem espelho da Casa Grande. Temos secretarias, ministérios, assessorias de diversidade. Temos. Mas poder real, orçamento e caneta ainda passam longe do corpo negro. A senzala virou ante-sala. A porta da sala de decisão segue trancada.

Na saúde, a cor da pele define quantos anos você vive. Mulheres negras vivem, em média, 76 anos. Brancas, 80. Homens negros morrem aos 68,6. Brancos, aos 74,5. Seis anos a menos arrancados pela pobreza, pela falta de saneamento e, sobretudo, pela violência.

Na habitação, o déficit nacional é de 6,2 milhões de moradias, e as mais atingidas são famílias de baixa renda chefiadas por mulheres negras. A casa prometida em 1888 virou aluguel atrasado em 2026. O quilombo virou ocupação com ordem de despejo.

A violência é o açoite atualizado. Em 2022, apenas naquele ano, 46.409 pessoas foram assassinadas no Brasil. 76,5% eram pretas e pardas. E você acha que isso mudou? Jovens negros entre 15 e 34 anos são o principal alvo. A bala não pergunta se a Lei Áurea foi assinada. Pergunta o endereço da periferia, do morro ou da zona de risco para onde o negro foi empurrado em 13 de maio de 1888. Enquanto isso, a mortalidade precoce de homens negros aumentou neste século. Abolimos a chibata, mas não abolimos o alvo nas costas. Todos dados destes últimos 26 anos, o século da tecnologia.

Então, 13 de maio é marco do quê? Do início da dívida. Da liberdade vigiada. Da cidadania pela metade. Comemorar sem reparar é cinismo histórico. Enquanto representação política, teto, vida e direito de envelhecer forem privilégio branco, o 13 de maio será só feriado para livro didático.

A Mangueira cantou em 1988 e continua certa em 2026: saímos do açoite da senzala, sim. Mas seguimos presos na miséria da favela. E preso não comemora. Não tem o que comemorar.