Andando de novo pelas ruas de Pequim
Recuperação clínica extraordinária e emocionante de uma jovem chinesa e outros paraplégicos completos foi resultado de um estudo sino-brasileiro desenvolvido nos últimos anos

À primeira vista, a cena que se desenrolava, de forma silenciosa e discreta, na vastidão da ampla praça que circunda o icônico estádio do Ninho do Passarinho não chamou a atenção de nenhum dos pedestres que passeavam pelas imediações, desafiando mais uma tarde fria e chuvosa em Pequim. Sentada totalmente imóvel na sua cadeira de rodas, na qual ela fora confinada mais de dois anos atrás, a jovem chinesa em questão parecia estar conformada com o destino que até recentemente seria considerado líquido e certo. Sofrendo de uma paralisia completa dos membros inferiores, desde o incidente que lesionara sua medula espinhal de forma irreversível, a expectativa que lhe fora dada era que ela jamais voltaria a andar pelos seus próprios meios. Para ela, assim como para outras dezenas de milhões de pacientes vítimas de lesões medulares ao redor do mundo, a perda da autonomia e o confinamento numa cadeira de rodas pareciam sentenças definitivas e sem nenhum recurso possível.
Mas sem que nenhum dos transeuntes que passeavam ao seu redor desconfiassem de nada, muito menos que, em alguns segundos, todos se transformariam em testemunhas oculares de um feito monumental, uma cascata irreversível de eventos começou a fluir sem volta naquela pacata tarde pequinesa, em frente de um outro estádio esportivo que passaria a entrar para a história da neurociência moderna.
Depois de alguns minutos de introspecção silenciosa, passados em contemplação atenta daquele céu vespertino de azul intenso que recobria quase como um manto toda a magnificente estrutura metálica, a jovem se ajeitou na sua cadeira e delicadamente pediu à equipe clínica, que a acompanhara naquele passeio, que estes posicionassem à sua frente o único objeto que ela usaria em alguns momentos para desafiar o futuro sombrio que lhe havia sido imposto contra sua vontade.
De posse de um mero andador metálico, postado logo à sua frente, a jovem, ainda sentada na sua cadeira de rodas, inicialmente testou a estabilidade da estrutura, apoiando ambas as mãos nas suas alças superiores. Certificando-se que este auxiliar metálico seria capaz de cumprir sua função, a jovem respirou profundamente uma última vez, preparando-se para desafiar aquilo que muitos até hoje ainda consideravam impossível, ou no mínimo apenas realizável através de algum milagre ou graça divina. O que se seguiu roubou todo o ar daquela praça e dos seus visitantes aleatórios. Apoiando-se no andador, a jovem, sem hesitar, simplesmente se ergueu da sua prisão de duas rodas, usando seus próprios meios e se apresentou, novamente plena e ereta, para o mundo que a observava simplesmente atônito. Possivelmente, até os verdadeiros pássaros que passeavam ao redor daquele gigantesco ninho metálico não foram capazes de esconder sua estupefação ao ver aquela jovem levantando voo novamente.
Depois de certificar-se, com ambos os pés apoiados firmemente naquele chão de pedra polida, de que as portas de um novo futuro acabavam de se escancarar, tanto para ela como para milhões de seus pares, a nossa jovem não se conteve em apenas romper os grilhões da sua masmorra, mas nos segundos seguintes decidiu que já era mais do que hora de voltar a andar livremente pelo mundo, usando apenas o seu livre arbítrio e os caminhos sonhados pela sua própria mente. E assim, lentamente, ela arriscou os seus primeiros passos pelas praças, pelas calçadas, e pelas ruas de Pequim. Passos tímidos que logo viraram caminhadas ditadas apenas pelo seu desejo motor voluntário.
Dias depois, a mesma cena foi repetida na praça em frente ao Templo do Céu de Pequim. A mesma paciente, já completamente habituada ao seu auxiliar metálico, voltou a assombrar os pedestres ao seu redor ao se levantar de sua cadeira de rodas e sair caminhando pelos jardins e espaços do templo, sem a necessidade de nenhum outro meio artificial de locomoção.
A recuperação clínica extraordinária e emocionante desta paciente e outros paraplégicos completos chineses foi resultado de um estudo sino-brasileiro, desenvolvido nos últimos anos através de uma colaboração única entre a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), criadora do Projeto Andar de Novo em 2012, o Instituto Nicolelis de Estudos Avançados do Cérebro e o Hospital Xuanwu da Capital Medical University em Pequim, na China. Sob a orientação da equipe da AASDAP, o Hospital Xuanwu construiu um novo Laboratório de Neurorreabilitação em Pequim e passou a aplicar o Protocolo de Neurorreabilitação Andar de Novo, desenvolvido originalmente pela AASDAP para a demonstração da abertura da Copa do Mundo de Futebol do Brasil, onde um paraplégico brasileiro, Juliano Pinto, usou o primeiro exoesqueleto robótico de membros inferiores, totalmente controlado por uma interface cérebro-máquina não invasiva, para desferir o chute inaugural daquele evento, no dia 12 de junho de 2014.
Depois de um treinamento intensivo no Brasil, a equipe clínica do Hospital Xuanwu examinou mais de 600 paraplégicos completos (classificados como ASIA A) em Pequim para selecionar um grupo final de 19 pacientes que participaram do primeiro estudo clínico randomizado, controlado, realizado em todo o país, envolvendo o uso de interfaces cérebro-máquina para restaurar locomoção em pacientes paraplégicos completos. Inicialmente, dez pacientes foram inseridos no grupo experimental e expostos a nove meses de treinamento com o Protocolo de Neurorreabilitação Andar de Novo, que envolveu a combinação do uso de uma interface cérebro-máquina não invasiva, baseada no uso da técnica de eletroencefalografia, que exclui o uso de implantes cerebrais invasivos, mais realidade virtual imersiva e treinamento com locomoção robótica. Em paralelo, os outros nove pacientes foram alocados ao grupo controle do estudo clínico que recebeu apenas um tratamento tradicional. Depois de nove meses, cinco dos pacientes que pertenciam ao grupo controle foram transferidos para o grupo experimental, de tal sorte que um total de 14 pacientes foi exposto ao treinamento clínico com o Protocolo Andar de Novo.
Ao término dos nove meses de treinamento, verificou-se que enquanto nenhuma mudança clínica pode ser notada nos pacientes do grupo controle, 50% dos 14 pacientes que foram submetidos ao treinamento Andar de Novo evoluíram do seu quadro original de paraplegia completa, ou ASIA A, para um estágio de paraplegia parcial, ou ASIA C, com recuperação parcial da capacidade de controlar voluntariamente contrações de músculos dos membros inferiores e recuperar um grande grau de autonomia locomotora, através do uso de órteses e andadores metálicos.
Estes resultados reproduziram de forma quase idêntica os achados obtidos anteriormente com os pacientes brasileiros, que foram os pioneiros no uso do Protocolo Andar de Novo, durante o primeiro ano de treinamento destes. No caso dos pacientes brasileiros, todavia, o período de treinamento se estendeu por até 28 meses, e neste período, 100% dos pacientes que permaneceram no protocolo foram capazes de fazer a transição de ASIA A para ASIA C. Entre os pacientes chineses que fizeram esta transição, além da jovem que voltou a caminhar pelas ruas de Pequim, houve um outro caso extremamente emblemático: uma paciente mais idosa que mesmo tendo passado 20 anos confinada ao leito devido a uma lesão medular também conseguiu, depois de apenas 9 meses de treinamento com o nosso protocolo, voltar a caminhar autonomamente apenas auxiliada por uma órtese e um andador metálico.
Além dos resultados clínicos, o estudo realizado na China também nos permitiu estudar, pela primeira vez, os efeitos estruturais e funcionais produzidos no cérebro dos pacientes pelo uso contínuo do nosso protocolo de neurorreabilitação. Para tanto, foram usados os métodos mais modernos de imagem cerebral, como a ressonância magnética funcional, antes, durante e ao término do período de treinamento com o protocolo. Inicialmente, a análise destes dados revelou que uma lesão medular, uma vez instalada, leva a um processo de atrofia cortical progressiva, que não se restringe às áreas motoras do córtex, mas se espalha por outros lobos, como o temporal, frontal e até mesmo áreas visuais dos lobos parietal e occipital. Isso nos fez levantar a hipótese que uma lesão medular, na realidade, parece acelerar o processo natural de envelhecimento cerebral, levando ao aumento da velocidade com a qual o córtex regride em volume, através deste processo de atrofia. Para nossa total surpresa, quando a mesma análise de imagens cerebrais foi realizada depois dos nove meses de treinamento com o nosso protocolo, foi possível observar uma reversão significativa deste processo de atrofia cortical. De fato, em particular no caso dos pacientes em que a melhora clínica ocorreu (passando de ASIA A para ASIA C), esta reversão da atrofia cortical ficou muito clara. Embora outros estudos com um número maior de pacientes tenham que ser realizado no futuro, estes dados iniciais sugerem que o treinamento por nove meses com a combinação de uma interface cérebro-máquina, realidade virtual, e locomoção robótica, pode ter causado uma “desaceleração” do processo de atrofia cortical desencadeado pela lesão medular original e que é responsável pelo surgimento de déficits cognitivos ao longo do tempo em um grande número destes pacientes.
Estes achados sugerem que o mesmo protocolo, além de induzir uma melhora clínica motora e reduzir as chances de déficits cognitivos em pacientes com lesões medulares, também poderia ser usado no tratamento de outras doenças neurológicas que causam atrofia cortical, ou mesmo, no limite, para desacelerar o processo natural de envelhecimento do cérebro humano, algo que ninguém vislumbrou ser possível desde que meu grande parceiro, John Chapin, e eu introduzimos o conceito e a primeira demonstração experimental de uma interface cérebro-máquina em 1999. Todos os resultados deste nosso estudo clínico recente na China podem ser encontrados no artigo de preprint que foi postado no site MEDRXiv.org e pode ser baixado a partir deste link (https://doi.org/10.64898/2025.11.28.25340891).
Em paralelo ao nosso estudo na China, o Projeto Andar de Novo e o Instituto Nicolelis de Estudos Avançados do Cérebro acabam de inaugurar um novo Centro de Neurorreabilitação no maior hospital privado da Itália, o Hospital San Raffaele, na cidade de Milão. Neste novo centro de pesquisa, novas ideias para o tratamento de pacientes sofrendo com a doença de Parkinson começaram a ser testadas.
E o Brasil? Infelizmente, depois do Projeto da Copa do Mundo, nenhum parceiro público ou privado se interessou em disseminar nossos protocolos e novas terapias baseadas em interfaces cérebro-máquina pelo território nacional. Apenas no Campus do Cérebro do Instituto Santos Dumont, em Macaíba, no Rio Grande do Norte, a chama do Projeto Andar de Novo permanece viva, à espera de algum gestor público com um mínimo de visão que entenda que o Brasil já poderia ser líder mundial na área de neurotecnologia e do tratamento baseado nesta invenção, caso houvesse um mínimo de discernimento estratégico sobre a importância de se construir a “Indústria do Cérebro” brasileira. Outros países já se deram conta do impacto desta nova indústria, uma vez que dados recentes (2021) indicam que pelo menos 3.4 bilhões de seres humanos, ou 43% da humanidade, sofrem com uma das 37 doenças neurológicas mais prevalentes. Estes números alarmantes fizeram com que eu criasse o projeto “Treat 1 Billion” (Tratar 1 bilhão), uma vez que, na minha avaliação, este é o número de pacientes a nível global que, no limite, poderiam se beneficiar do uso das interfaces cérebro-máquinas nas próximas décadas.
Para terminar esta última coluna de 2025, eu gostaria de pedir permissão aos meus leitores para colocar em perspectiva o que a publicação deste nosso estudo representa para mim pessoalmente. No dia 20 de fevereiro de 1989, quase 37 anos atrás, eu desembarquei nos Estados Unidos para começar a minha grande aventura de perseguir uma carreira como neurocientista profissional. Convidado por aquele que se transformaria no meu irmão mais velho e inseparável parceiro científico, o mesmo John Chapin mencionado acima, eu cheguei na Filadélfia com a ambição de desenvolver uma nova tecnologia para registar a atividade elétrica simultânea de centenas ou milhares de neurônios corticais em animais despertos e livres para realizar seus comportamentos mais naturais.
À época, toda a neurociência se baseava no registro da atividade elétrica de neurônios únicos isolados, principalmente em animais anestesiados. Quando anunciamos nossas intenções, a vasta maioria dos nossos colegas americanos nos chamou de doidos varridos, pois segundo eles a tarefa a que nos propunham seria simplesmente impossível para dois neurocientistas sem treinamento formal em engenharia.
Pois bem, em 1993 o nosso primeiro artigo demonstrando exatamente o que tínhamos prometido fazer apareceu nas páginas da revista Nature, chocando toda a comunidade neurocientífica. Mas esta foi apenas a primeira das nossas travessuras. Em 1999, novamente nas páginas de uma das revistas da Nature, John e eu publicamos a primeira prova categórica de que cérebros poderiam ser conectados diretamente às máquinas, outra proposta que foi considerada como mais um delírio que jamais se transformaria em realidade pelos nossos queridos colegas. Usando ratinhos que aprenderam a controlar uma simples alavanca robótica apenas com o pensamento, através do emprego do método que havíamos inventado e publicado em 2003, mais uma vez criamos uma confusão sem tamanho no meio neurocientífico. Em 2000, eu cunhei o nome Interface Cérebro-Máquina para esta invenção. Em 2002, John e eu propusemos que a nossa invenção poderia ser usada para restabelecer a mobilidade em pacientes com lesões medulares. Dois anos depois, em 2004, o meu laboratório publicou a primeira demonstração da eficácia clínica do nosso método e abordagem em 11 pacientes parkinsonianos. Em 2014, depois da demonstração do primeiro exoesqueleto controlado diretamente pelo cérebro humano durante a abertura da Copa do Mundo, feito testemunhado por um público estimado em 1.2 bilhão de pessoas, ficou claro para todo o mundo que não havia mais volta: as interfaces cérebro-máquinas, ou ICMs, tinham saído do laboratório para virar uma realidade concreta em todo mundo.
Ainda assim, muitos no Brasil trataram a nossa singela demonstração científica com grande desprezo, apesar dos resultados clínicos sem precedentes, mostrando que nossos pacientes tinham apresentado uma recuperação neurológica parcial, que quando publicados em outra revista do grupo Nature em 2016, foram destaque nas maiores publicações da mídia mundial e, no processo, levaram ao surgimento de um sem-número de startups focadas em diferentes aplicações das ICMs em todo o planeta.
Ao longo de todas estas décadas, meu amigo John Chapin sempre me dizia para manter a calma e ter paciência, porque, segundo ele, “poderia demorar algum tempo, talvez décadas, mas um dia todos iriam se dar conta do impacto do nosso ‘delírio’!” Grande John, sempre teve razão.
Ao testemunhar a coragem e audácia daquela esguia jovem paciente chinesa que decidiu, naquela tarde fria e nublada, desafiar o destino que ela não escolheu para si, e se levantar por seus próprios meios para, mais uma vez, Andar de Novo, livremente, pelas ruas de Pequim, eu só posso dizer uma coisa:
Valeu a pena esperar!
Feliz Natal e um grande Ano Novo para todos vocês e seus familiares!



