Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Análise: O cavalo de Troia de Flávio Bolsonaro

Alguns poderiam imaginar que Dark Horse seria o “cavalo de Troia” de Flávio Bolsonaro; a maior armadilha da campanha, porém, veio de outra icônica cidade: Aparecida

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Em quatro dias, a controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida alcançou 1.900.427 menções. A sexta-feira (25) concentrou sozinha 1.086.512, quando a informação de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora o título de Padroeira do Brasil tomou as redes.

Naquele primeiro momento, 64% das menções relacionadas a Flávio eram críticas, aproximadamente 695 mil publicações; a defesa direta representava apenas 8%. Antes que o desmentido pudesse percorrer o mesmo caminho, a história já havia encontrado uma forma simples de circular.

A frase que melhor resumiu aquela sexta-feira foi “Ninguém toca na padroeira”. Cerca de 32% da conversa estava associada à ideia de que Nossa Senhora precisava ser defendida. Vieram “Mãe do Brasil”, “Rainha e Padroeira do Brasil”, imagens da santa, orações e manifestações de fé.

A informação era falsa, mas a reação produzida por ela era real. E foi aí que o assunto deixou de depender de autoria, datas ou de um projeto arquivado havia quase vinte anos. Passou a tocar em identidade, memória e pertencimento.

No sábado (26), o sentimento começou a mudar. Flávio entrou diretamente na conversa, negou a história, acionou a Justiça e seus apoiadores organizaram uma contranarrativa em torno de “fake news”, “mentira”, retratação e responsabilidade da imprensa.

Em outro recorte de monitoramento realizado entre os dias 24 e 26, as críticas à disseminação da fake news já representavam 25,9% da conversa, acima dos 19,8% de indignação com a suposta ameaça à padroeira. Não significa que a primeira impressão tivesse desaparecido. Significa que a conversa já estava mais dividida: a indignação religiosa perdia exclusividade para a contestação factual.

Essa mudança de sentimento é importante.

A sexta foi dominada por indignação, proteção e receio. O sábado introduziu desconfiança, contestação e reação à imprensa. A partir de domingo (27), o afeto original começou a ceder lugar a outro tipo de incômodo.

A pergunta já não era apenas se alguém estava ameaçando Nossa Senhora, mas quem havia criado a informação, quem deveria corrigi-la e quem tinha autoridade para retirá-la das redes. Entre sábado e segunda-feira (28), outras 813.915 menções se somaram à primeira onda, mas já não tratavam exatamente do mesmo assunto.

A judicialização completou a mudança de eixo. André Mendonça mandou retirar publicações; Flávio Dino restabeleceu parte delas, invocando liberdade de expressão e religiosa; Luiz Fux voltou a suspender os conteúdos.

Em poucos dias, a controvérsia deixou de ser apenas sobre a padroeira e passou a envolver desinformação, plataformas e os limites da intervenção judicial. O caso chegou ao centro das tensões do próprio Supremo.

Há uma razão para essa história ter sobrevivido às correções. Nossa Senhora Aparecida ultrapassa o espaço institucional da Igreja Católica: está nas romarias, nas casas, nas estradas, no feriado nacional e numa memória cultural que alcança até quem tem pouca relação com a prática religiosa.

É, nesse sentido, um patrimônio simbólico brasileiro.

Foi essa dimensão que ampliou a repercussão e levou uma informação falsa a se transformar em crise de imagem, debate sobre imprensa e, depois, discussão no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e no Supremo sobre liberdade de expressão e liberdade religiosa.

Há, por fim, uma pequena ironia literária.

O Cavalo de Troia não aparece propriamente na Ilíada. Ele entra na história depois, quando a guerra já parece caminhar para o desfecho. Talvez seja essa a melhor imagem para o episódio.

Veio o boato; Flávio passou dias tentando demonstrar que não o havia construído, mas, quando a explicação chegou, o cavalo já estava dentro dos muros de Troia.

De dentro dele saíram religião, imprensa, Justiça e liberdade de expressão. O dano mais imediato ficou com a campanha, mas a imagem mais incômoda é outra: a de um país, assim como os troianos assistindo, do lado de dentro das muralhas, às próprias instituições começarem a arder.