Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

William Waack

Flávio Bolsonaro é mais anti-Lula do que candidato?

Senador emerge em contexto de alta rejeição ao presidente, mas está apto a criar uma "frente ampla anti-PT"?

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A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg [1/2] divulgada em 25/2 traz um dado que merece atenção: a rejeição de Lula atingiu 48,2% — quase metade do eleitorado afirma que não votaria "de jeito nenhum" no presidente. Flávio Bolsonaro, em contraste, registra 46,4% de rejeição e aparece tecnicamente empatado com Lula em simulação de segundo turno (46,3% contra 46,2%).

Esses números, por si só, não explicam muita coisa. Mas quando observamos os padrões das últimas duas eleições presidenciais, eles começam a sugerir uma dinâmica que pode estar se repetindo.

Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito em um contexto onde a rejeição ao Partido dos Trabalhadores era profunda. Essa rejeição não era apenas ideológica; era resultado de um desgaste institucional significativo. A Operação Lava Jato, que investigou corrupção envolvendo políticos de diversos partidos, concentrou sua narrativa pública na condenação de Lula.

A prisão e condenação de Lula em 2018 — posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal — marcou profundamente o eleitorado. A rejeição ao PT, naquele contexto, era inseparável da rejeição a Lula como figura política, preso antes da campanha efetivamente começar. E Bolsonaro, em sua campanha, surfou nessa onda de rejeição.

Em 2022, o padrão pareceu se inverter, mas manteve sua estrutura essencial. Lula retorna à presidência em um contexto de rejeição ao projeto de Bolsonaro. Não era apenas uma eleição sobre propostas; era uma reação ao desgaste de quatro anos de governo e uma pandemia. A "frente ampla pela democracia" mobilizou-se fundamentalmente em torno da rejeição ao próprio Jair Bolsonaro e ao que ele representava.

Agora, em 2026, os dados das redes sociais, que frequentemente ajudam a antecipar dinâmicas eleitorais, parecem indicar que um fenômeno semelhante pode estar em curso.

Flávio Bolsonaro está emergindo em um contexto de alta rejeição a Lula. A questão é: essa rejeição está sendo canalizada para construir um projeto em torno de Flávio, ou está sendo canalizada para construir um projeto em torno da negação de Lula/PT? Estaria Flávio, que já é Flávio e não só Bolsonaro, apto a criar em sua volta a "frente ampla anti-Lula"?

Para responder a essa pergunta, realizei uma análise em larga escala das redes sociais — o espaço onde essas narrativas políticas costumam dar boas pistas antes de se tornarem realidade eleitoral. Coletei 231.410 menções diretas a Flávio Bolsonaro em contexto eleitoral. Essas menções geraram 2.836.294.791 interações (curtidas, comentários, compartilhamentos, visualizações).

As plataformas revelam dinâmicas distintas e potencialmente reveladoras:

Twitter/X (35,3% das menções, 9,7% do engajamento): É o espaço de debate político instantâneo, onde jornalistas, políticos e ativistas discutem em tempo real. No Twitter, a conversa sobre Flávio Bolsonaro é majoritariamente política e argumentativa. Aqui, vemos críticas ao governo Lula, discussões sobre viabilidade eleitoral e posicionamentos ideológicos. É o espaço da elite política e da imprensa. Mas há um detalhe significativo: apesar de concentrar 35,3% das menções, o Twitter gera apenas 9,7% do engajamento. Isso sugere que a conversa política no Twitter é rasa em termos de mobilização emocional — é debate, não mobilização. Aqui temos Flávio Bolsonaro.

TikTok (25,4% das menções, 51,9% do engajamento): É aqui que se concentra a maior parte do engajamento. O TikTok é a plataforma da mobilização viral, onde conteúdo emocional — não racional — gera alcance massivo. Nos vídeos curtos do TikTok, as narrativas são simplificadas e emocionais, com vídeos de recortes, músicas de fundo e mensagens inspiracionais. O TikTok concentra mais da metade de todo o engajamento com Flávio Bolsonaro, o que pode sugerir que a mobilização em torno de sua candidatura é fundamentalmente emocional e viral, em vez de baseada em argumentação complexa. Aqui temos mais Flávio e menos Bolsonaro.

Instagram (21,8% das menções, 18,2% do engajamento): É a plataforma da consolidação de nichos. No Instagram, as narrativas são compartilhadas em comunidades específicas — principalmente os grupos de conservadores, empresários e evangélicos. O engajamento no Instagram é consistente, não explosivo como no TikTok, mas pode indicar uma base mais consolidada de apoio. Aqui, as rejeições e preferências políticas parecem se transformar em mais identidade em torno do lado Bolsonaro de Flávio.

YouTube (17,5% das menções, 20,2% do engajamento): É a plataforma da narrativa mais elaborada. Canais de política e opinião usam o YouTube para construir argumentos sobre candidatos e projetos. O engajamento aqui é significativo, sugerindo que há espaço para narrativas mais complexas.

O que essas plataformas revelam, em conjunto, é que a mobilização em torno de Flávio Bolsonaro ocorre em múltiplos registros: emocional (TikTok), identitário (Instagram), político (Twitter), argumentativo (YouTube). Mas em qual desses registros a narrativa central é construída?

Nas redes, em 2026, há indicações de que uma dinâmica semelhante pode estar em formação em torno de Flávio Bolsonaro. Mas não necessariamente porque Flávio é um Bolsonaro, de fato, o sobrenome pode ser um peso em certos segmentos. Seria porque Flávio pode ser a negação mais viável do PT no contexto atual. Ele seria o "anti-Lula" mais puro disponível que poderia vencer um segundo turno.

Se essa hipótese se confirmar, uma "frente única anti-PT" pode se reorganizar em torno de Flávio, assim como se reorganizou em torno de Bolsonaro em 2018. Mas essa frente não seria baseada em quem é Flávio Bolsonaro — sua trajetória, suas propostas, sua visão de futuro. Seria baseada na negação da antítese do PT. O sobrenome Bolsonaro seria menos relevante que a capacidade de mobilizar a rejeição ao governo Lula.

A análise temática das 231.410 menções revela uma distribuição que parece suportar essa hipótese:

O tema "anti-Lula" representa 37,24% das menções, mas concentra 57,73% de todo o engajamento. Uma publicação com viés anti-Lula gera, em média, 19.322 interações, enquanto a média geral é de apenas 12.256 — um engajamento aproximadamente 55% superior ao padrão.

Comparemos isso com o tema "direita/conservadorismo", que poderia representar um projeto próprio de Flávio Bolsonaro ou uma visão ideológica clara. Esse tema representa 21,21% das menções, mas gera apenas 9,96% do engajamento. O engajamento médio por menção é de apenas 5.756, menos de 30% do engajamento gerado por menções anti-Lula.

Essa assimetria pode sugerir que a mobilização em torno de Flávio Bolsonaro não é baseada em confiança em um projeto conservador ou em propostas específicas. Parece estar baseada em rejeição ao governo Lula. Os dados indicam que falar sobre "direita" gera pouco engajamento; falar sobre "anti-Lula" gera engajamento significativamente maior.

Há ainda um detalhe importante: 516.205.652 interações (18,2% do total) foram geradas por bots e contas automatizadas. Uma em cada cinco interações é artificial. Mas essa amplificação artificial não parece ser aleatória, parece estar também concentrada na narrativa anti-Lula. A infraestrutura de amplificação digital pode estar organizada em torno da rejeição ao PT, em vez de em torno de um projeto próprio.

É possível reconhecer um padrão?

Os dados parecem indicar que estamos seguindo esse caminho mais uma vez. Em 2018, o PT foi o grande rejeitado. Em 2022, Bolsonaro foi o rejeitado. Em 2026, os números sugerem que Lula pode ser rejeitado — e Flávio Bolsonaro pode ser eleito não por quem é, mas por quem nega, se conseguir mobilizar o eleitorado na visão de que é o representante da rejeição.

Se seguirmos este caminho, esvaziaremos mais uma vez em absoluto os debates que importam, os debates em torno de um projeto político de país. Não estamos discutindo que Brasil queremos construir. Estamos discutindo que Brasil queremos destruir.

E mais uma vez, a negação passa a ser a tônica central dessa disputa. Não é um elemento da campanha; é a campanha em si. Não é um fator entre outros; é o fator determinante. A mobilização digital nos deixa as pistas: a narrativa anti-Lula gera 55% mais engajamento que qualquer outra. As redes sociais não estão discutindo o que Flávio fará; estão discutindo o que Lula não fará mais.

O mais grave é que essa dinâmica, se se cristalizar, não é apenas um problema de uma eleição. É a cristalização de um padrão. É a consolidação de uma forma de fazer política onde a negação é o método, não a exceção. Onde o eleitor não escolhe um futuro; rejeita um passado.

E aqui reside o paradoxo que deveria nos preocupar profundamente: tudo está em debate. Economia, segurança, educação, saúde, meio ambiente. Tudo. Mas a única coisa que não está em debate no final é o Brasil. Não estamos discutindo que Brasil queremos. Estamos apenas rejeitando que Brasil não queremos mais.

Metodologia

Período de Coleta: 1º de agosto de 2025 a 25 de fevereiro de 2026.

Amostra: 231.410 menções diretas a Flávio Bolsonaro:

  • Twitter/X: 81.688 menções (35,3%)
  • Instagram: 50.447 menções (21,8%)
  • TikTok: 58.778 menções (25,4%)
  • YouTube: 40.497 menções (17,5%)

Engajamento Total: 2.836.294.791 interações (curtidas, comentários, compartilhamentos, visualizações).

Categorização Temática: Menções foram categorizadas em cinco temas principais, com análise de sentimento e padrões de engajamento.

Análise de Bots: 516.205.652 interações (18,2% do total) foram geradas por contas automatizadas, representando 12,0% das menções (27.769 posts).

Referências

[1]: # "AtlasIntel/Bloomberg. "Pesquisa Presidencial 2026". Levantamento com 4.986 eleitores, 19-24 de fevereiro de 2026. Registro TSE: BR-07600/2026. Divulgada em 25/02/2026."

[2]: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/lula-e-flavio-tem-mais-rejeicao-entre-pre-candidatos-diz-pesquisa/ "Poder360. "Lula e Flávio têm mais rejeição entre pré-candidatos, diz pesquisa"."