Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

O Brasil não é tão polarizado quanto parece

Nem sempre o barulho dos grupos em redes sociais se reflete em relevância ou na opinião real dos brasileiros

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O Brasil tem 212,7 milhões de habitantes. Desses, 167 milhões (78,5%) estão conectados à internet. Mas apenas 27 milhões (16,2% dos conectados) falam sobre política nas redes. E desses, apenas 8,7 milhões possuem relevância real — seguidores suficientes, engajamento consistente e capacidade de influenciar o debate.

Falar sobre política é diferente de ter relevância política. Isso gera uma enorme confusão pois nos coloca frente a um cenário onde parecemos radicais e ativos o tempo todo. A maioria da população não fala, não engaja e não se interessa por política, aliás, como sempre foi, mesmo antes do advento das redes sociais.

Porém, como metodologicamente, é difícil distinguir barulho de relevância, temos a impressão, até pelas redes sociais serem atualmente, nosso maior “instituto de pesquisa individual”, de que a população brasileira passa seus dias teclando sobre Lula, Bolsonaro e variações do debate eleitoral.

Isto significa dizer que não existe polarização? Bem, na realidade, a melhor maneira de falar sobre o assunto é: o ambiente informacional é altamente polarizado, mesmo que a população não seja. Vamos aos dados:

A distribuição não é simétrica. As menções foram classificadas por IA em sete categorias do espectro político.

O eixo direita concentra 57,5% dos usuários relevantes (Centro-Direita + Direita + Extrema Direita), o eixo esquerda 24,1% e o centro 18,4%. O paradoxo central: os extremos (12,1% do total) geram 55–65% de todas as menções políticas — ver nota técnica no gráfico. Extremos postam mais e são mais amplificados, logo, dominam o volume.

Os extremos somam apenas 1,05 milhão de pessoas (12,1%) dos usuários com relevância — mas geram 55% a 65% de todas as menções políticas. Um ativista extremista posta 23,7× mais que um usuário ocasional.

Um ativista extremista posta em média 28,4 vezes por semana (4 posts/dia). Um moderado, 16,7 vezes. Um usuário ocasional, 1,2 vezes — o extremista posta 23,7× mais. Além disso, um post extremista no Twitter/X é amplificado 28,7× via retweets, trending topics e bots, contra apenas 8,2× de um post moderado. Resultado: potencialmente até 194× mais impressões para o ativista extremista, dependendo do cenário.

Polarização à moda da plataforma

O Twitter/X, com apenas 23% dos usuários políticos ativos, concentra 36% das menções extremistas — com extremismo de direita (17%) superando o de esquerda (9%). O TikTok tem o maior engajamento (16,9%) e distribuição mais equilibrada. O Instagram é o menos polarizado. O Facebook, com público mais velho, tem a menor taxa de extremismo total (9%). As barras de extremismo mostram a divisão entre Extrema Esquerda (EE, vermelho) e Extrema Direita (ED, azul).

O barulho permanecerá, é preciso distingui-lo

De 212,7 milhões de brasileiros, apenas 1,05 milhão são extremistas com relevância digital (0,49% da população). Mas esses 1,05 milhão ocupam entre 55–65% do espaço discursivo político online, especialmente no Twitter/X.

A sensação de polarização política brasileira é, em grande medida, produzida a partir de três mecanismos combinados:

  1. Altíssima frequência de postagem dos extremistas;
  2. Amplificação algorítmica desproporcional do conteúdo controverso, turbinada por contas coordenadas ou robôs;
  3. Invisibilidade estrutural da maioria silenciosa, que representa 84% da população conectada.

Essa distorção tem consequências plausíveis e observáveis. Políticos que monitoram redes sociais sem distinção metodológica tendem a interpretar tendências minoritárias como preferências majoritárias — o que deforma o desenho de políticas públicas.

Jornalistas, ao cobrir o que está em evidência nos feeds, amplificam ainda mais o ciclo. Cidadãos comuns, vendo extremismo aparentemente onipresente, autocensuram-se: um percentual expressivo evita discussões políticas por perceber o ambiente como hostil, quando os dados mostram que a hostilidade é de uma minoria hiperativa, não de uma maioria.

A solução não é silenciar ninguém, mas sim desenvolver letramento algorítmico: a capacidade de distinguir o que está sendo amplificado do que é genuinamente representativo.

Plataformas, veículos de comunicação e instituições democráticas precisam incorporar essa distinção em suas metodologias de monitoramento. O barulho permanecerá. Mas distinguir barulho de relevância é o primeiro passo para restaurar a sanidade ao debate político brasileiro.