Pais não veem palmada como violência, aponta estudo do Unicef

Pesquisa revela como crenças sobre disciplina e dificuldades no cuidado ajudam a explicar por que o castigo corporal persiste no Brasil

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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“Foi só uma palmada inofensiva” tem sido uma frase frequente para justificar o uso do castigo físico leve na educação de crianças. A fala aparece quando uma punição física é tratada como algo diferente de violência, a partir da ideia de que uma agressão “leve” pode ser uma forma aceitável de corrigir ou impor limites.

Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado nesta quinta-feira (24), mostra que essa separação que muita gente faz, às vezes sem perceber, ajuda a explicar por que o castigo corporal não só persiste no Brasil, mas continua sendo uma prática presente na criação de crianças.

Mesmo depois de anos de campanhas e de uma legislação que proíbe seu uso, a maioria das mães e dos pais entrevistados enxergam a palmada como a melhor forma de corrigir um comportamento inadequado. Nas conversas, a dúvida raramente era se bater ou não, mas sim até onde poderiam ir. A palmada entrava na conta do "leve", diferente do que os participantes consideravam violência de verdade.

Na lei, a diferença entre palmada e violência não existe. Desde 2014, a Lei Menino Bernardo (Lei 13.010/2014) garante a crianças e adolescentes o direito de serem educados sem castigo físico. O próprio estudo define castigo corporal como qualquer punição que use a força para causar dor ou desconforto, por mais "leve" que pareça.

A prática é bem mais comum do que se imagina. Uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) com a Quaest, divulgada em 2026, mostra o tamanho do descompasso: 91% dos cuidadores dizem que o diálogo é a melhor forma de corrigir um comportamento infantil, mas 49% admitem já ter dado tapas, 62% já ter gritado e 27% já ter batido com algum objeto.

Segundo o estudo, o que leva pais e mães a bater nos filhos?

Por ser uma pesquisa qualitativa — realizada entre 2024 e 2026, com 214 pessoas do Rio de Janeiro, Manaus e Recife —, o estudo não permite estimar quantos pais ou cuidadores brasileiros recorrem ao castigo corporal. Contudo, ele ajuda a entender as crenças, normas sociais e dificuldades que podem contribuir para a persistência da prática.

O ponto de partida é justamente uma crença na "correção", mas não é o único fator. Como a maioria dos locais estudados é afetada pela violência armada, a rigidez com os filhos nessas comunidades é vista como uma forma de proteção. A ideia é evitar que as crianças virem vítimas ou se envolvam com o crime organizado.

Cansaço e sobrecarga de tarefas também pesam quando se trata de lidar com comportamentos desafiadores das crianças. Como a maior parte dessas responsabilidades recai sobre as mães, situações de exaustão podem tornar mais difícil evitar respostas como tapas, beliscões e gritos.

Não por acaso, afirmam os participantes, a agressão costuma surgir em momentos de cansaço, estresse e perda momentânea do controle. Há ainda a crença de que filho é assunto de família: vizinhos, amigos e até parentes evitam intervir, uns por medo de retaliação, outros por acreditarem que "cada família cria seus filhos do seu jeito" — e o cuidador acaba sozinho justamente quando mais precisaria de alguém por perto.

Para Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, “nosso estudo mostrou que o castigo corporal persiste em nossa cultura não apenas pela escolha de um pai, mãe ou cuidador, mas porque muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir", disse em comunicado oficial.

Por que é tão difícil criar sem bater?

Criar sem bater não é só parar de usar a palmada. Para muitos participantes, a dificuldade está em saber como agir quando a criança faz birra, desobedece ou testa limites — justamente situações em que os adultos costumam recorrer às formas de disciplina que aprenderam ao longo da vida. A boa notícia é que o próprio estudo encontrou sinais de que essa lógica começa a ser questionada.

Muitos participantes, sobretudo as mães mais jovens, se declararam arrependidas depois de bater e manifestaram o desejo de construir uma relação baseada no diálogo. Mas colocar em prática essa mudança é complicado: quando o cansaço, o estresse ou um comportamento desafiador aparecem, nem todos sabem o que fazer.

Os problemas relatados não são situações extraordinárias nem de famílias “problemáticas”. Os cuidadores falam de situações comuns da infância — birra, desobediência, resistência a limites — que podem ser difíceis de administrar. E, se a campanha oficial diz apenas “não bata”, ela não ensina, por exemplo, o que fazer quando seu filho se joga no chão chorando no meio da rua.

Por isso, o desafio do Unicef não é convencer as famílias de que bater faz mal — isso muitas já sabem ou desconfiam. A questão é tornar possível educar sem violência no dia a dia. Entre as recomendações estão campanhas que ensinem o "como" e uma participação maior dos homens no cuidado.

A outra ponta do problema é o poder público. Profissionais da rede de proteção relataram falta de preparo para orientar as famílias, enquanto os serviços costumam chegar depois da agressão, e não antes. Em ano de eleição, o Unicef defende que a “parentalidade protetiva” seja incluída nas agendas políticas de primeira infância e assistência às famílias.

No fim, o que o estudo descreve é um jogo de empurra: a família cobra apoio que não chega, os serviços culpam a cultura, o poder público não prioriza o tema — e, enquanto cada lado espera o outro dar o primeiro passo, a palmada continua.