Acidente radioativo com Césio 137 em Goiânia completa 39 anos; relembre caso
Contaminação de locais e habitantes da capital de Goiás foi causada pelo descarte indevido de um aparelho de radiologia

Em 13 de setembro de 1987, dois catadores de materiais recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas de uma clínica desativada na capital de Goiás.
A descoberta deu início ao que se tornaria o maior acidente radiológico da história do país.
Pó azul brilhante
Roberto dos Santos e Wagner Mota recolheram o aparelho e o levaram para um ferro-velho para desmonte. Dentro do dispositivo, estava uma cápsula cilíndrica contendo um pó azul de brilho impressionante.
Eles abriram a cápsula, manusearam o pó e decidiram levar parte dele para mostrar aos familiares. A distribuição do césio-137 pela cidade foi rápida, e os efeitos da contaminação foram devastadores.
Doença misteriosa
Nos dias seguintes, diversas pessoas começaram a apresentar náusea, vômito, queimaduras na pele e fraqueza intensa. Os sinais foram confundidos com outras doenças, o que atrapalhou o processo de identificação e atrasou a resposta das autoridades.
Quando o contato com o pó brilhante e a cápsula foi apontado como elo em comum entre os doentes, uma atitude por pouco não transformou o acidente em tragédia ainda maior.
O físico nuclear Walter Mendes Ferreira conta que o Corpo de Bombeiros foi chamado para fazer o descarte do material, que quase foi atirado no rio. Foi neste momento que a radiação emitida pelo pó foi medida, comprovando a gravidade da situação.
Força-tarefa
A operação de emergência exigiu o isolamento de residências, a destruição de pertences pessoais e a descontaminação de bairros inteiros.
Ao todo, mais de 100 mil pessoas foram avaliadas por exposição, resultando em quatro mortes diretas e afetando milhares de pessoas.
Além da saúde fragilizada, a perda de entes queridos e partes do próprio corpo, os sobreviventes também lidaram com anos de preconceito e isolamento causados por ideias incorretas sobre os efeitos da radiação.

Anos depois
Como a meia-vida física do césio-137 é de cerca de 33 anos, os locais de manipulação e estocagem permaneceram contaminados por anos. Cerca de 6 mil toneladas de objetos continuam guardadas em depósitos subterrâneos em Abadia de Goiás; estima-se que os rastros da radiação desapareçam totalmente 200 anos depois.
Três décadas após o desastre, cerca de 1.141 sobreviventes — incluindo vítimas diretas, trabalhadores que atuaram na crise (policiais, bombeiros, garis e profissionais de saúde) e seus descendentes — continuam sob acompanhamento físico e psicológico do Cara (Centro de Assistência aos Radioacidentados), vinculado à Secretaria de Saúde de Goiás.
O acidente de Goiânia consolidou-se como uma referência internacional, transformando radicalmente as leis, as normas de radioproteção e os protocolos globais de gestão e resposta a emergências com materiais nucleares.


