Ela é um inseto com mais poder que um zumbi porque consegue andar mesmo se arrancarem sua cabeça

Um dos animais mais resilientes do mundo, a barata sem cabeça consegue manter importantes funções corporais por semanas até, finalmente, morrer de sede ou inanição

Da CNN Brasil*

Para se livrar de uma barata, até a decapitação pode não ser suficiente. Este inseto, símbolo da resiliência e descrito como "o animal mais preparado para sobreviver a uma guerra nuclear", consegue respirar, mover-se e sobreviver por semanas mesmo depois de perder a cabeça.

Pode parecer impossível, mas tudo se deve à anatomia complexa dos animais da ordem dos Blatódeos – que também inclui os cupins.

Por dentro da barata

Enquanto os vertebrados dependem da cabeça como centro de comando de suas funções básicas, muitos insetos dividem o controle de seus sistemas entre centros neurais semi-independentes, dispersos por todo o corpo. Esta dispersão é o que lhes permite sobreviver mesmo depois de decapitados.

Não é que a cabeça é inútil: nela existem órgãos essenciais para a percepção do espaço, como as antenas e os olhos, e as peças bucais, que ingerem, mordem e trituram os alimentos. Mas muitas das atividades biológicas que, para nós, dependem de um sistema nervoso central, independem da funcionalidade ou até da existência da cabeça nas baratas e nos cupins.

O biólogo Joseph Kunkel da Universidade de Massachusetts-Amherst explicou à revista Scientific American que estes insetos respiram por pequenos orifícios, chamados "espiráculos", que existem em cada segmento corporal. A entrada do ar é independente do cérebro, e a circulação sanguínea não depende de oxigênio. O ar que entra pelos orifícios vai diretamente para os tecidos via pequenas traqueias.

As funções neurais, como os reflexos, o equilíbrio e movimentos simples, também não dependem do cérebro. Elas são comandadas pelos gânglios, aglomerados de tecido nervoso que também estão em cada segmento corporal. Sem a cabeça, as baratas ainda reagem ao contato físico, ficam de pé e movem as patas.

O mais inusitado é que a cabeça também preserva estas funções quando separada do corpo. Uma cabeça de barata pode continuar movendo as antenas por horas até esgotar toda a energia.

As baratas também não sangram da mesma forma que os humanos. Seu sistema circulatório é aberto, sem vasos ou capilares, e são insetos de "sangue frio", que não precisam de alimentos para controlar a temperatura corporal e, por isso, consomem muito menos energia. "Uma só refeição pode manter um inseto vivo por semanas", disse Kunkel. "Contanto que não sejam comidos por um predador, eles vão ficar quietos, descansando. A não ser que sejam infectados por fungos, bactérias ou vírus."

E, caso você se pergunte como sabemos disso: muitos estudos já deceparam diferentes partes do corpo de baratas para descobrir seu nível de autonomia e detalhes do funcionamento do sistema nervoso. Christopher Tipping, entomólogo do Delaware Valley College, disse à SciAm que já decapitou os insetos "com muito cuidado, usando microscópios, selando a ferida com cera para não perder umidade." "Duas delas duraram várias semanas em um pote", contou.

O que mata a barata?

A decapitação elimina a única via de entrada de água e alimentos da barata. Embora seu sangue frio lhe permita viver por semanas com os nutrientes e a energia de sua última refeição, eventualmente a falta de nutrição levará à morte do inseto. O prejuízo à sua percepção de espaço e locomoção também a tornará uma presa mais fácil, podendo antecipar o fim.