O que a anestesia geral revela sobre nosso cérebro?

Pesquisas recentes mostram que anestésicos não apenas anulam a consciência, mas alteram a conectividade neural e ajudam a explicar como o cérebro gera a percepção humana

Da CNN Brasil

Embora a anestesia geral seja empregada diariamente em procedimentos cirúrgicos para suprimir a dor e a consciência, estudos neurocientíficos recentes indicam que o cérebro sob efeito desses compostos não permanece simplesmente inativo.

As investigações revelam que os anestésicos alteram padrões de conectividade entre redes neurais e expõem mecanismos fundamentais sobre como a estrutura física do cérebro produz a experiência consciente.

Perda da "impressão digital" neurológica

Em estado de vigília, cada indivíduo apresenta um arranjo único de conectividade funcional entre os neurônios, que atua como uma impressão digital neurológica. No entanto, um estudo publicado na revista científica Nature Human Behaviour monitorou pacientes sob efeito de substâncias como propofol e sevoflurano por meio de ressonância magnética funcional (fMRI).

Os pesquisadores observaram que, sob anestesia geral profunda, os cérebros perdem essa identidade individual e passam a exibir um padrão de conectividade altamente padronizado e semelhante entre si.

Essa redução na diferenciação ocorre principalmente em redes de nível superior, a exemplo da rede de modo padrão e da rede frontoparietal, associadas ao processamento de pensamentos subjetivos.

Nem sono profundo, nem coma: um estado cerebral distinto

Embora seja comum o uso da metáfora do "sono" para tranquilizar pacientes antes de uma cirurgia, a neurociência demonstra que os estados biológicos são diferentes. Uma pesquisa da Escola de Medicina de Yale, divulgada na revista PNAS, utilizou eletroencefalogramas de alta densidade (EEG) para mapear as ondas cerebrais sob anestesia.

O levantamento confirmou que a anestesia geral induz um estado neurológico singular, que reúne características observadas no sono e no coma.

Enquanto o sono natural é composto por ciclos dinâmicos, os agentes anestésicos forçam o cérebro a oscilar em ondas lentas estabilizadas (como as ondas delta e alfa), o que interrompe a troca de informações complexas entre as áreas corticais.

Processamento de estímulos sem percepção consciente

Mesmo durante a inconsciência induzida, o cérebro mantém a capacidade de captar estímulos externos em circuitos profundos. Cientistas do Baylor College of Medicine utilizaram sondas de alta precisão (Neuropixels) para registrar a atividade elétrica de neurônios individuais em pacientes cirúrgicos anestesiados.

Os testes mostraram que o hipocampo, estrutura ligada à consolidação da memória, permanece ativo e responde a estímulos auditivos e frases faladas no ambiente. O cérebro sob anestesia chega a acionar mecanismos de codificação preditiva na tentativa de antecipar palavras.

Contudo, como as vias de comunicação cortical global estão bloqueadas, tais dados não atingem a percepção consciente e não são convertidos em memórias após a recuperação do paciente.

Avanços na segurança cirúrgica e no estudo da consciência

O mapeamento detalhado da ação dos anestésicos contribui diretamente para o aprimoramento da prática médica. Além de permitir o aperfeiçoamento da segurança dos procedimentos cirúrgicos, a compreensão desses processos auxilia os pesquisadores na investigação de uma das perguntas centrais da neurociência: como o cérebro físico constrói a experiência subjetiva da consciência.

*Publicado por Beto Souza da CNN Brasil

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