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    Apesar do resultado de 2021, PIB de 2022 deve ter estagnação, dizem especialistas

    Combinação de juros e inflação altos, guerra na Ucrânia e eleições ameaçam economia

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    O crescimento de 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2021 surpreendeu o mercado, e recuperou a economia das perdas com a pandemia, mas o ano de 2022 deve ser marcado pela estagnação, com expectativa de próxima a 0%.

    Ao CNN Brasil Business, especialistas afirmaram que o resultado positivo no ano passado poderia ter sido ainda melhor, mas foi afetado por fatores que devem se manter neste ano, em especial a inflação elevada e os efeitos da política sobre a economia, em especial no câmbio.

    Somado a isso estão os juros altos, acima dos 10%, os efeitos da guerra entre Ucrânia e Rússia e as eleições presidenciais no Brasil.

    Na ponta positiva, a crise hídrica aliviou, o país continua a gerar empregos, o agronegócio deve ter uma safra recorde e o dólar entrou em uma tendência de queda, mas as pressões negativas devem acabar pesando mais.

    Resultado em 2021

    Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o resultado no ano passado foi “um pouco melhor do que o imaginado”, e está ligado a um mês de dezembro que superou as expectativas, principalmente em serviços e comércio, além da recuperação da agropecuária, que cresceu mais de 5% após cair 8% no terceiro trimestre.

    Em relatório, economistas da Genial afirmam que resultado positivo no último trimestre, tirando o Brasil da chamada recessão técnica, e no ano, está mais ligado à recuperação dos serviços, que só começou em 2021 com a reabertura da economia.

    Responsável por cerca de 70% do PIB, o setor ainda se recupera, em um processo mais tardio que a agropecuária, pouco afetada pela pandemia, e a indústria, que iniciou a retomada no segundo semestre de 2020.

    Silvia Matos, coordenadora do Boletim de Macroeconomia do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que o resultado geral veio dentro do esperado, com variações nos resultados de cada setor dentro da margem de erro.

    O boletim de fevereiro da instituição projetava, por exemplo, um crescimento maior da agropecuária no último trimestre, com o setor encerrando o ano com leve alta. No fim, o resultado foi um recuo de 0,2%, com um ano adverso devido a condições climáticas ruins e custos de produção maiores.

    O setor de serviços, com crescimento de mais de 4% no ano, também veio levemente abaixo das estimativas, mas a indústria superou o projetado. Combinando tudo, o PIB anual seguiu a estimativa do boletim.

    Margarida Gutierrez, professora da UFRJ, considera que o resultado “surpreendeu positivamente”, em especial devido à recuperação da agropecuária e também de investimentos em construção civil e compra de maquinário, indicando uma expectativa otimista para a economia.

    “A recuperação da economia ocorreu, e foi importante”, diz. No caso da indústria, ela associa o bom desempenho a um bom 1º trimestre, com perda de fôlego no resto ano.

    Já o setor de serviços teve forte recuperação, apoiado em especial por áreas de tecnologia mais avançada e de logística de transporte, segmentos que, segundo a professora, “se desenvolveram muito durante a pandemia”.

    Fatores como a desvalorização cambial, a falta global de suprimentos, efeitos de incertezas quanto à política fiscal do governo e a crise hídrica acabaram afetando a economia, e impedindo um crescimento ainda maior do PIB.

    Mesmo superando a perda na pandemia, o PIB nominal ainda não chegou no de 2019, segundo levantamento da Austin Rating, o que mostra que ainda havia espaço para recuperação.

    Expectativas para 2022

    A Genial projeta o PIB em 2022 em 0,6%, com uma “herança estatística” de 0,3% de 2021 e com o resultado puxado pela agropecuária, normalização de segmentos de serviços e mais investimentos públicos. O cenário, porém, deve ser “extremamente contracionista”, prejudicando o consumo.

    Em relatório, a XP destaca que medidas de estímulo ao consumo pelo governo podem ajudar a sustentar o crescimento do PIB, mas questões como a guerra na Ucrânia pressionarão os custos de produção. Por isso, a projeção é que resultado seja de estabilidade.

    Vale, da MB Associados, mantém a projeção de 0% para o PIB em 2022, citando os efeitos da variante Ômicron, que deve impactar o PIB do 1º trimestre devido ao grande número de afastamentos no mercado de trabalho, além da combinação de inflação e juros altos.

    “Os impactos da guerra na Ucrânia vão repercutir em termos de inflação e juros, e os juros devem impactar a economia no segundo semestre. O ano de 2022 vai ser bem mais complicado que 2021, com dificuldades crescentes para esse ano, incluindo a questão eleitoral”, diz.

    Como elemento positivo, o economista aponta a expectativa de crescimento na agropecuária, com safras recordes, com os efeitos de uma provável alta nos fertilizantes devido à crise na Ucrânia afetando mais a safra de 2023.

    “O que pode afetar em 2022 é a questão climática, ainda pode levar o setor a resultados mais prejudicados. Nós projetamos um crescimento de 3,5%, mas com riscos”.

    O movimento de valorização do real em relação ao dólar, com a moeda rondando os R$ 5 com um fluxo de investimento favorável, pode ajudar a reduzir as altas de preços, mas “não é garantia que vai continuar acontecendo, e o cenário eleitoral pode afetar essa tendência”, diz.

    O cenário traçado por Vale é da chamada estagflação, quando um país enfrenta uma inflação elevada com uma economia estagnada, com baixo ou nenhum crescimento.

    Também considerando esse contexto, Matos manteve a projeção do último Boletim Macro, com o PIB de 2022 crescendo 0,6%, puxando principalmente pela agropecuária (2,8%), junto com serviços (1,3%), mas com expectativa de queda da indústria, de 1,1%.

    Gutierrez afirma que, antes da guerra na Ucrânia, não imaginava um cenário de estagflação em 2022 devido à recuperação do emprego ao longo de 2021, indicando otimismo no mercado e possibilitando um aumento no consumo, ajudando o setor de serviços.

    A guerra, porém, “traz um cenário nebuloso”. “A primeira questão é a alta da inflação, a nível mundial, com commodities disparando, e ninguém sabe quanto tempo vão ficar assim. As condições financeiras também apertaram bastante, com fuga para o dólar”, diz.

    A combinação de inflação mais alta que o previsto, assim como os juros para combatê-la, impactariam no poder de compra da população, com a economia desacelerando. O grau do impacto, segundo ela, dependerá do tempo de duração da guerra e a dimensão que ela terá.

    A “tempestade perfeita” para o Brasil, afirma Gutierrez, seria uma extensão da guerra no segundo semestre misturada com uma eleição presidencial mais polarizada, que afetaria negativamente elementos como o câmbio. E ainda não há como descartar novas variantes do coronavírus que retomem períodos mais graves da pandemia.

    Mesmo desconsiderando esses fatores, a professora avalia que o crescimento do PIB brasileiro nos últimos 40 anos é menor que a média dos países emergentes, o que mostra a necessidade de “lidar com problemas estruturais, o que demanda reformas, estávamos fazendo mas a pandemia veio e mudou o cenário”.

    Entre as necessidades, ela cita a redução do chamado custo Brasil, a reforma tributária, atração de investimentos, investimento em educação e aumento da capacidade produtiva. “Enquanto não tiver isso, o Brasil vai ficar sempre nessa tendência de crescer menos”.