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    Eleições na Argentina: saiba como o resultado pode impactar o Brasil

    Reflexos serão diferentes dependendo vitória do candidato de extrema-direita, Javier Milei, ou do governista Sergio Massa

    Segundo turno das eleições argentinas estão previstas para o dia 19 de novembro de 2023
    Segundo turno das eleições argentinas estão previstas para o dia 19 de novembro de 2023 Joédson Alves/Agência Brasil

    Diego Mendesda CNN

    São Paulo

    O resultado da eleição do novo presidente da Argentina pode ter reflexo direto aqui no Brasil. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta segunda-feira (23) que acompanha as eleições na Argentina “com interesse”.

    Economistas consultados pela CNN afirmam que os impactos no Brasil serão diferentes dependendo vitória do candidato de extrema-direita, Javier Milei, ou do governista Sérgio Massa. 

    O segundo turno das eleições gerais é realizado 30 dias após o primeiro turno, portanto, neste ano, está previsto para o dia 19 de novembro.

    Segundo o professor e pesquisador da Strong Business School, Pedro Mello, a declaração de Haddad de que a vitória de Milei geraria uma preocupação ao governo brasileiro, significa que a Argentina se alinharia com um bloco contrário a essa onda populista de alguns governos da América do Sul e América Latina.

    Para Mello, se o candidato Milei vencer, existe um grau de incerteza de como seria efetivar as políticas baseadas em uma doutrina anarco liberal, defendidas por ele na campanha.

    Agora, se Massa vencer, as relações econômicas e diplomáticas devem seguir aspectos mais estruturais e fundamentais, ou seja, questões mais de Estado, e não tanto de governo, avalia o professor.

    “Em termos de governo, evidentemente se Massa vencer, vai ser mais um apoio a esses países que seguem políticas populistas. Esse cenário pode impactar, positivamente, o governo brasileiro. Mas, seria ruim, numa visão de longo prazo ao Estado do Brasil.”

    Já se Milei vencer, o pesquisador pontua que se deve observar as decisões do candidato. Para ele, alguns pontos polêmicos, como abolir o Banco Central, talvez seja um uma visão radical.

    Para o Brasil, é muito importante manter relações econômicas com a Argentina, diz Espirito Santo. “São laços históricos, não é um parceiro qualquer. Além disso, tem toda a questão geográfica importante. Nesse sentindo, o Brasil não vai ser desprezado por qualquer um dos dois candidatos.”

    Na visão do economista-chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo, há uma tendência de o governo brasileiro preferir a vitória do Sergio Massa.

    “O que acontece é que o Milei, nessa campanha, foi muito explícito e contrário a algumas ideias. Uma delas foi a declaração de que tiraria a Argentina do Mercosul e, a outra, é de suspender os negócios com países que se consideram comunistas, como o Brasil e a China.”

    Dolarização

    Com relação ao dólar, Mello diz que é natural a Argentina, depois de tantos anos de decepção com a moeda e com a inflação explodindo, querer adotar soluções radicais. “Mas, tem que tomar muito cuidado”.

    Um ponto de atenção seria como a dolarização da economia argentina poderia afetar o Brasil.

    “Mexer com taxa de câmbio, moedas estrangeira, não são situações fáceis. O impacto pode ser negativo e refletir na parceria comercial entre o Brasil e Argentina, pois existe o fato de encontrar uma certa rigidez política, inclusive internacional, do governo argentino”, diz Mello.

    Entretanto, Espirito Santo aponta que a Argentina já está bastante dolarizada. Ele lembra que as grandes operações que acontecem no país são feitas em dólar.

    De acordo com o economista, historicamente, países que vão para a hiper-inflação, usam o dólar como moeda de referência.

    “Isso é natural. A sociedade expulsa moeda ruim para buscar uma moeda alternativa”.

    O que pode acontecer, na análise de Espírito Santo, é que, em vez de dolarizar a economia, o governo argentino poderia criar uma cesta de moeda ponderada e use isso como referência para transações de comércio.

    “Poderia, inclusive, usar o real como uma das moedas que participaria da cesta de referência. O melhor que pode acontecer na Argentina é um programa mais ortodoxo, mais centrado em corte de gastos. Nesse sentido, Milei é o candidato com esse projeto de tornar o estado argentino mais enxuto.”

    Economia interna

    Mello contextualizou que Milei já declarou ser contra o Mercosul — um cenário onde muito argentino concorda e critica muito o papel deste grupo.

    “Há muitas dúvidas deste mercado comum, porque não há características para isso. Foi uma coisa imposta de cima para baixo sem que as pessoas participassem”, observa o pesquisador.

    Porém, Espírito Santo diz que não adianta dizer que a Argentina não vai fazer mais parte no Mercosul, porque isso depende do Congresso Argentino. “Até o momento, não parece que vão abrir mão do grupo”, avalia.

    “Essas declarações de Milei parece ser algo mais retórico e, agora, nos próximos dias, a gente vai começar a notar se efetivamente ele vai pisar no freio ou se vai continuar no extremo.”

    Mello acredita que se for pelo extremo, vai ser muito difícil Milei vencer. Agora, se começar a ser menos radical, mais ponderado e mostrar que algumas ideias serão reconsideradas, ele tem chance de assumir a presidência.

    Em um cenário onde Massa é eleito, o pesquisador pondera que seria uma grande decepção e “balde de água fria” ao povo argentino, afirma Mello.

    “Analisando esse cenário, independente dos vencedores, serão tempos turbulentos para a Argentina.”

    Relação Brasil X Argentina

    Com uma corrente de comércio bilateral de US$ 28,4 bilhões, a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, segundo os dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

    As exportações brasileiras, em 2022, foram da ordem de US$ 15,3 bilhões, o que fez do país o segundo maior fornecedor do mercado argentino.

    A pauta exportadora brasileira é diversificada, sendo seus principais itens partes e acessórios dos veículos automotivos (11%) e veículos de passageiro (9,9%) e demais produtos da indústria de transformação (4,5%).

    O mercado argentino adquire ainda maior importância por ser o principal destino de manufaturas brasileiras de alta intensidade tecnológica.

    Quanto às importações, a Argentina foi, em 2022, a terceira principal origem de importações brasileiras.

    Sua composição é bastante diversificada, com participação significativa de grupos de produtos de maior valor agregado, como veículos automóveis para transporte de mercadorias, veículos automóveis de passageiros e motores de pistão e suas partes, além de produtos petroquímicos e do agronegócio.

    Os últimos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que, apesar das exportações para a Argentina no mês de agosto de 2023 terem caído 8,4%, no acumulado de janeiro a agosto de 2023, em relação à igual período de 2022, as vendas para o país cresceram 19,6% e atingiram US$ 12,46 bilhões.

    As importações oriundas da Argentina caíram 5,0% e chegaram US$ 8,07 bilhões.

    Veja também: Eleição na Argentina — Segunda virada traz problemas, mas governo segue preocupado