Pedidos de falência e recuperação judicial aumentam em cenário de juro alto e crédito escasso

Pedidos de falência subiram 44% e de recuperação judicial 37% no primeiro trimestre de 2023, ante mesmo período de 2022, diz Serasa Experian

Danilo Moliterno, da CNN, São Paulo
Mulher sentada olha tela de computador
Cerca de um terço dos pequenos negócios têm dívidas em atraso, segundo a última pesquisa do Sebrae sobre o tema  • Jonathan Borba/Unsplash
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O número de solicitações de falência subiu 44% no Brasil no primeiro trimestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022. Os dados são da Serasa Experian, que calculam 255 pedidos apenas neste ano.

Ainda de acordo com a Serasa Experian, as solicitações de recuperação judicial (RJ) cresceram 37,6% no primeiro trimestre — totalizando 289 pedidos.

Economista da Serasa Experian, Luiz Rabi aponta que as altas taxas de juros e a desaceleração da economia estão entre as causas do aumento em RJs e falências.

“A alta das solicitações é uma consequência do crescimento da inadimplência que estamos vendo desde setembro de 2021. Cedo ou tarde, a inadimplência acumulada bate à porta da insolvência. E essa tendência de inadimplência é a combinação de juros altos e da estagnação econômica que advém do aperto monetário”, indica.

Cristina Helena de Mello, professora de economia da ESPM, explica que a conjuntura econômica atual cria um ambiente no qual as empresas têm “dificuldade de construir estratégias de financiamento sustentável no longo prazo” — o que leva aos pedidos de recuperação judicial ou falência.

“Além da taxa de juro, é a ausência de instrumentos financeiros ofertados por bancos ou fintechs que permitam que essas empresas tenham caminhos para construir estratégias, como a troca de dívidas, ou se financiar com o uso de garantias diversas”, explica.

Economista-chefe da Ryo Asset, Gabriel Barros reitera o impacto da taxa Selic — atualmente em 13,75% ao ano — sobre os pedidos de falências e recuperações. Mas indica que deve-se considerar fatores que vão além das condições macroeconômicas para a análise de tais dados.

“São vários os fatores que afetam esse cenário, também microeconômicos, de qualidade da gestão da empresa e ambiente competitivo. Empresas pouco sólidas, com balanço pouco saudável, terão dificuldade para rolar suas dívidas ou, no cenário em que conseguem rolar, o farão a juros mais elevados.”

O professor de finanças da ESPM Adriano Gomes avalia, contudo, que a taxa de juros é apenas “um dos elementos na construção do preço final do dinheiro às empresas”.

“Ainda temos tributos incidentes sobre operação financeira, o custo administrativo da instituição, o risco da operação e do cliente e o spread. Por esse motivo, há uma distância muito grande entre a taxa básica de juros e a taxa de juros final praticada ou oferecida para empresas e pessoas físicas”, aponta.

Grandes empresas puxam pedidos

Em termos proporcionais, os pedidos de recuperação judicial avançaram especialmente entre as grandes empresas, com aumento de 94,4% — ainda segundo a Serasa Experian. Entre as médias, o aumento foi de 8,9%; entre MPEs, 44%.

“O cenário [macroeconômico] leva as empresas grandes, que monitoram mais de perto indicadores, a reavaliar suas expectativas e escolherem essas estratégias. Estamos no começo de uma cauda que deve ser longa, então essas empresas são mais rápidas no pedido. Mas vem aí uma cauda longa, e empresas menores devem seguir este caminho”, analisa sobre a tendência Cristina Helena de Mello

Economista e professor de MBAs da FGV, Robson Gonçalves destaca a escassez de crédito como fator que contribui para o cenário e indica o “Caso Americanas” como aspecto potencializador.

“Há o fato de estar havendo uma grande escassez de crédito depois do caso Americanas. A percepção de risco do sistema financeiro se alterou para pior, e as negociações de dívidas e obtenção de novos créditos, principalmente para pessoa jurídica, está muito mais difícil”.

Adriano Gomes, além de reiterar os efeitos causados por “casos midiáticos” sobre o crédito, e indica que os números em RJ e falência estão próximos aos registrados na última durante a última grande recessão vivida pelo país.

“Em geral, torna-se notícia para o grande público casos midiáticos, como o da Americanas, Petrópolis, Amaro, Oi, Raiola e Nexpe, e colocam mais pressão no cenário e ‘truncam’ as análises. Estamos muito próximos dos números observados há cerca de 5 anos, quando o país atravessou uma grave crise econômica”, aponta.

Com juro alto, pequenos negócios acumulam dívidas

Com relação às falências, a maior alta ficou por conta das médias empresas (64%). Para MPEs, a alta foi de 42%; para grandes empresas, 30%.

Cerca de um terço dos pequenos negócios têm dívidas em atraso, segundo a última pesquisa do Sebrae sobre o tema, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Leonardo Tegg, consultor de Negócios do Sebrae-SP, aponta que este cenário de endividamento das MPEs é consequência especialmente da elevada taxa de juros, combinada à alta da inflação e, da queda da renda média da população brasileira.

“Com a alta da Selic, muitas empresas têm de arcar com parcelas bem altas [de empréstimos anteriores]. E a conjuntura atual, diminuição da renda média, processo inflacionário, faz com que essas empresas não consigam faturamento suficiente para pagar esses empréstimos”, explica.

Considerando Microempreendedor Individual (MEI) e Micro e Pequena Empresa (MPE), 61% dos negócios têm dívidas no país. Dentro do percentual, 27% apresentam dívidas com pagamento em atraso; 34% têm dívidas, mas estão em dia.

Ainda segundo o levantamento do Sebrae Pulso dos Pequenos Negócios, 63% dos empresários de MEI têm 30% ou mais dos seus custos mensais comprometidos pelo pagamento de dívidas; para aqueles de MPE, o índice ficou em 46%.

Quando somados os dois grupos, a média fica em 55% — quatro pontos percentuais acima daquele registrado na última edição da pesquisa, realizada em agosto de 2022.

Leonardo Tegg pontua ainda que as micro e pequenas empresas tendem a sentir mais as conjunturas econômicas atuais, como a alta taxa de juros e inflação, do que aquelas de maior porte.

Segundo o consultor, essas empresas sofrem por sua menor capacidade de geração de caixa, mas também por um “efeito cascata” que tem origem nas grandes empresas.

“E a alta da Selic também inibe novos investimentos para as grandes empresas. Consequentemente, as grandes empresas compram menos das micro e pequenas empresas. Além disso, geram menos empregos, e as famílias têm menos renda para consumir de micro e pequenas”, completa sobre os efeitos causados a MEI e MPE.

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