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    Há um tensionamento no diálogo entre o agro e o presidente Lula, diz Blairo Maggi à CNN

    Em entrevista ao programa Caminhos com Abilio Diniz, ex-ministro associou dificuldade na comunicação a fatores como a fiscalização no campo e a questões ambientais

    Amanda Sampaioda CNN

    São Paulo

    Em entrevista ao programa Caminhos com Abílio Diniz, da CNN, o ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi afirmou que existe um “tensionamento” no diálogo entre o agronegócio e o presidente Lula.

    “Há um tensionamento nessa relação, embora as duas partes estejam tentando criar um espaço para diálogo através do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que é um ex-assentado e um agricultor que tem procurado fazer esse encontro”, disse.

    Maggi associou as dificuldades no diálogo entre o setor e o Executivo a fatores como a fiscalização no campo e a questões ambientais.

    “O pessoal [do agro] se ressente bastante da fiscalização no campo, porque ela é dura, às vezes até maldosa. Nessas questões do meio ambiente os agricultores também sofrem muito. Há uma pressão muito forte e isso estraga um pouco essa relação”, afirmou.

    Para o ex-ministro, o posicionamento de Lula com relação ao armamento também gera ruídos na comunicação.

    “Para a agricultura é muito cara a propriedade, é um sentimento muito forte, e a gente sabe que o partido do presidente defende outra coisa. Ele defende a reforma agrária, ele defende a invasão — é claro que todo mundo fala muito isso abertamente — e isso machuca muito a agricultura”, destacou.

    “Outra coisa que machuca muito a agricultura e que opõe contra a política é a questão do armamento. Eu sou contra o armamento, mas não há a possibilidade de você viver numa fazenda, de você estar distante das áreas de segurança e não ter a possibilidade de manter uma arma, manter alguma coisa para se defender”.

    “Esses valores são o que fazem uma diferença hoje na política com o presidente Lula, porque ele defende uma coisa e os agricultores defendem outra”, acrescentou.

    Por outro lado, o ex-ministro afirmou não ver “grandes problemas” em relação à conduta do presidente em questões mais amplas que envolvem a agricultura, como produção, reconhecimento e recursos dos planos Safra. “Isso tem caminhado”, disse.

    Falta de segurança jurídica

    Para Maggi, a falta de segurança jurídica é um dos fatores que impedem o Brasil de se desenvolver mais.

    “O que o Brasil é carente, para mim, e afasta um pouco os investimentos, é a segurança jurídica. A gente brinca que no Brasil até o passado é incerto. São muitas mudanças. E aí não é só a questão da política, mas a própria Justiça também”, disse.

    Na visão da Maggi, o país precisa de planejamento e objetivos claros, “e que a legislação acompanhe tudo isso, dê segurança para fazer as coisas”.

    “Quando a gente toma o financiamento de um banco estrangeiro, por exemplo, ele quer garantias, obviamente, e as garantias que a gente tem para dar são nossas terras, nossos ativos. Quando ele recebe uma terra de garantia, se eu não pagar a conta, ele tem dificuldade de executar, porque ele não tem essa propriedade. Então essas coisas que a gente precisa regular”, completou.

    Novo PAC

    O ex-ministro também falou sobre o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Para ele, o programa é importante para o Brasil, mas não irá cumprir todos os projetos previstos.

    “Eu acho o PAC importante, porque ele coloca um projeto na vitrine, mas não acredito que o governo vá pegar dinheiro e fazer uma obra que nem a Ferrogrão, que foi para o PAC”, afirmou.

    O novo PAC prevê investimento de quase R$ 350 bilhões em seu eixo voltado a “Transporte Eficiente e Sustentável”. Entre os projetos contemplados estão as construções de novas ferrovias, com investimento público de R$ 5,7 bilhões.

    Para Maggi, a iniciativa privada tem recursos para tocar o projeto, mas é necessário segurança jurídica para proteger o investidor.

    “Dinheiro não falta no mundo para nenhum tipo de projeto, o que precisa é o investidor ter a segurança de que ele vai colocar seu recurso ali, ele vai cobrar os juros necessários para sobreviver na operação, e que daqui a 30, 40, 50 anos depois esteja amortizado e pago. É assim que funciona a coisa”, acrescentou.

    Fome no Brasil

    Maggi disse ver “com tristeza” a questão da fome no Brasil, que é um dos maiores produtores de grãos do mundo.

    “Eu vejo com tristeza. Lá em Cuiabá, a algum tempo atrás, foi até manchete a ‘fila do ossinho’, onde o maior produtor de pecuária do Brasil, que tem 10 bovinos para cada habitante, tinha pessoas numa fila para comprar um ‘ossinho’ para poder se alimentar”, disse.

    “Eu acho que isso só vai mudar com o país crescendo cada vez mais, gerando mais emprego. O imposto é grande, então que seja bem distribuído”, completou.

    “Eu acho feio esse tipo de coisa, é feio um país como o nosso, acho que o segundo maior exportador de alimentos do mundo, ver pessoas ao nosso lado passar fome. Então é política, realmente é fazer uma política de distribuição de renda e geração de emprego, não tem jeito”, concluiu.