Ibovespa fecha em queda de 2,55% com questão fiscal; dólar sobe a R$ 5,41
Bolsa acelerou perdas depois que ex-ministro Haddad falou em evento com banqueiros em nome do presidente eleito Lula, sem citar a questão fiscal no próximo governo
O Ibovespa fechou em queda de 2,55% nesta sexta-feira (25), aos 108.976,7 pontos, com agentes financeiros reagindo a incertezas sobre o rumo fiscal do país, principalmente após Fernando Haddad (PT), apontado como favorito ao Ministério da Fazenda, não abordar ajuste fiscal em discurso nesta sexta-feira durante evento da Febraban, a Federação Brasileira de Bancos.
O volume financeiro somava R$ 18,6 bilhões, afetado pelo fechamento antecipado de Wall Street, ainda em razão do feriado do Dia de Ação de Graças, que voltou a reduzir a liquidez na bolsa paulista.
No acumulado da semana, o principal índice da bolsa brasileira registra ganhos de 0,2%, impulsionado particularmente pela alta de 2,7% na quinta-feira (24), com sessão marcada por giro financeiro enxuto com o feriado nos Estados Unidos e estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Já o dólar encerrou em alta de 1,84% nesta sexta-feira, cotado a R$ 5,407, após comentários do ex-ministro Fernando Haddad em evento da Febraban, em meio à percepção de que ele é o favorito ao cargo de ministro da Fazenda do novo governo.
Essa foi a maior valorização percentual diária da moeda norte-americana desde o último dia 10 (+4,10%) e o patamar de encerramento mais alto desde 22 de julho passado (R$ 5,497). Na semana, o dólar registra alta acumulada de 0,61%, a terceira seguida de ganhos.
Discurso
Haddad disse que a determinação clara de Luiz Inácio Lula da Silva é dar prioridade total à reforma tributária logo no início do governo, e ressaltou que estava no evento para falar em nome do presidente eleito.
O comentário entre investidores é de que Haddad não deu muitos detalhes sobre como será a postura fiscal do governo Lula, nem sanou dúvidas sobre como será o desenho final da PEC da Transição.
Além disso, a participação do ex-prefeito de São Paulo no evento foi entendida como mais uma evidência de que Haddad será nomeado ao cargo de ministro da Fazenda, embora ele tenha driblado perguntas diretas sobre essa possibilidade e afirmado que não foi convidado para o cargo até o momento.
"Haddad é cotado como ministro mas não deu nenhuma sinalização mais concreta, e Lula também não deu. Isso gerou certa instabilidade no mercado; a gente pode ver o câmbio se desvalorizando, mas muito mais pelas faltas de certezas, acho que é o grande ponto", disse Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Aos olhos de investidores, Haddad não tem um perfil muito técnico e provavelmente será inclinado a flexibilizações das regras fiscais do país caso assuma a pasta econômica do governo eleito.
Anilson Moretti, chefe de câmbio da HCI Invest e planejador financeiro pela Planejar, também citou preocupações com a PEC da Transição, notando amplo esforço da ala petista dentro do governo eleito para aprovar tetos extra-teto por tempo estendido. A proposta inicial da PEC embute gastos de quase R$ 200 bilhões fora das regras fiscais do Brasil, e por período indeterminado.
Além disso, a dificuldades de articulação do governo eleito com o atual Congresso levaram alguns parlamentares a ressuscitarem a ideia de deixar de lado a PEC e optar por uma medida provisória para liberar créditos extraordinários, no caso de não se conseguir negociar o extra-teto para o programa Bolsa Família para mais de um ano, o que Moretti citou como mais uma incerteza.
"Se acontecer algo de muito ruim para teto fiscal, o dólar vai lá para cima", alertou o especialista, acrescentando que, se a moeda norte-americana romper de forma sustentada as barreiras técnicas de R$ 5,40 a R$ 5,45, pode chegar a transitar em níveis ainda mais altos ao longo dos próximos meses, acima de R$ 5,70.
Enquanto isso, no exterior, o dólar tinha alta bem tímida contra uma cesta de seis pares fortes nesta sexta-feira, em sessão de liquidez reduzida devido ao feriado do Dia de Ação de Graças da véspera.
Moretti disse que a semana que vem promete ser de "fortes emoções", já que trará dados de emprego norte-americanos e volatilidade adicional aos negócios devido ao fim do mês.


