Americanos estão pagando mais caro por carros nos Estados Unidos
Falta de opções acessíveis pode tornar a compra de um carro inacessível para muitas pessoas no país, mais um exemplo da crise de acessibilidade que tem afetado os norte-americanos

Em 2024, os compradores dos Estados Unidos tinham três opções de carros com preço abaixo de US$ 20.000. Agora, não há nenhuma.
Dados sobre os custos de compra de carros, divulgados na segunda-feira (12), mostram o quanto a perda de modelos mais baratos pode prejudicar os consumidores americanos: os compradores de carros novos pagaram, em média, US$ 50.326 em dezembro, um recorde histórico, de acordo com estimativas da Kelley Blue Book, uma marca da Cox Automotive. O site de compra de carros Edmunds também registrou um preço médio recorde (embora ligeiramente menor) de US$ 49.466.
Ambas as estimativas indicam que muitos compradores estão pagando bem mais de US$ 50.000 e este cenário continuará no futuro.
O alto preço médio não se deve apenas aos altos preços de tabela das montadoras ou à demanda dos compradores por modelos maiores e mais caros. Ele é parcialmente impulsionado pela diminuição das opções mais baratas para os compradores de carros novos.
O Nissan Versa, que foi lançado há quase 20 anos com um preço inicial de cerca de US$ 12.550, teve a produção encerrada em dezembro.
A falta de opções acessíveis pode tornar a compra de um carro inacessível para muitas pessoas nos EUA, mais um exemplo da crise de acessibilidade que tem afetado os norte-americanos. E o contraste com o crescimento das vendas de carros de luxo ressalta a economia em formato de K.
"Com a escassez desses veículos de entrada, podemos dizer que praticamente todo carro novo em circulação, com placa de concessionária, é uma 'compra de luxo'", analisou Ivan Drury, diretor de insights da Edmunds.com.
As preocupações com a acessibilidade dos carros têm permeado o mercado desde a pandemia, quando os preços subiram devido a restrições na cadeia de suprimentos.
“A pandemia reestruturou fundamentalmente a dinâmica de preços”, apontou Erin Keating, analista executiva da Cox Automotive, durante um webinar de fim de ano sobre o mercado automobilístico em 17 de dezembro. Os valores mais altos “agora são a nova base”, acrescentou.
Poucas opções no mercado de carros novos
O Nissan Versa 2025, que custava cerca de US$ 18.000 em outubro, foi o último modelo a ficar abaixo de US$ 20.000, de acordo com Ivan Drury, diretor de insights da Edmunds.com.
O Mitsubishi Mirage, que saiu de linha em agosto de 2024, custava cerca de US$ 18.000; o Kia Forte, que a Kia substituiu pelo K4, mais caro, saiu de linha após o anúncio do K4 em março de 2024.
Esses carros eram produzidos em grande parte no exterior, onde os salários dos operários da indústria automobilística são mais baixos. As tarifas de 25% impostas pelo presidente Donald Trump sobre carros e autopeças importados aumentaram os custos para as montadoras, embora muitas empresas tenham absorvido a maior parte dos bilhões em custos adicionais devido à preocupação de que os consumidores rejeitassem os aumentos de preços e adiassem as compras, analisou Drury. Os custos das tarifas influenciaram nos modelos mais baratos, que já tinham margens de lucro pequenas.
O carro novo mais barato hoje, nos Estados Unidos, é o Hyundai Venue 2026, que tem um preço sugerido pelo fabricante de US$ 20.550, de acordo com a Edmunds.
Carros acessíveis como o Versa, que podem não atingir volumes de vendas lucrativos, têm maior probabilidade de serem retirados das linhas de produção das montadoras, enquanto outros modelos acessíveis permanecem no mercado, afirmou Drury. Montadoras concorrentes, como a Toyota, podem ganhar clientes que priorizarão um veículo de entrada mais barato ao invés da fidelidade à marca, continuou.
Economia em formato de K afeta concessionárias de automóveis
As concessionárias estão cada vez mais preocupadas com a exclusão de consumidores de baixa renda do mercado, enquanto um grupo de compradores mais ricos sustenta as vendas de carros, alertou Keating.
Compradores que não podem comprar carros novos estão optando por comprar veículos usados ou manter os carros atuais por mais tempo, disse Keating.
De acordo com uma análise da Cox Automotive com base em dados da S&P Global Mobility, as famílias com renda anual inferior a US$ 75.000 representaram 26% das vendas no ano passado, em comparação com 37% em 2019.
Enquanto isso, compradores mais ricos, que podem comprar veículos novos, estão optando por SUVs maiores e de luxo, comentou Keating. Pessoas com renda superior a US$ 150.000 agora representam mais de 40% das vendas de carros novos, em comparação com cerca de 29% em 2019, segundo Cox. Esses níveis de renda de 2019 não foram ajustados pela inflação ou por mudanças na renda média.
É mais um exemplo da economia dos EUA cada vez mais em formato de K, onde os americanos ricos continuam gastando enquanto uma parcela maior de famílias de renda média e baixa reduz os gastos devido à pressão econômica.
Os americanos mais ricos viram os patrimônios líquidos aumentarem por conta do forte mercado de ações, dos aumentos salariais e da valorização dos imóveis. Mas os americanos de baixa renda viram o poder de compra diminuir com a desaceleração do mercado de trabalho, o alto endividamento e anos de inflação acumulada.
Os compradores se preocupam principalmente com o valor das parcelas mensais, analisou Tyson Jominy, vice-presidente sênior de dados e análises da J.D. Power. Uma parcela mensal de US$ 500 antes da pandemia poderia ter sido suficiente para comprar um Toyota Highlander, mas agora permite a compra de um carro compacto como um Toyota Corolla, afirmou.
De modo geral, espera-se que os preços dos carros caiam cerca de US$ 500 em média em 2026 nos EUA, destacou ele, sinalizando um cenário de preços mais favoráveis para os consumidores.
E, à medida que as montadoras disputam uma fatia menor do mercado, elas oferecerão mais incentivos para carros novos, a fim de competir com veículos de um ou dois anos de uso, observou Drury.
“Quando vemos incentivos se acumulando para esses carros novos, isso acaba se espalhando para todos os outros. Então, esperamos que o mercado de carros usados possa oferecer aos consumidores uma alternativa caso estejam completamente desanimados”, argumentou Drury.
*Chris Isidore, da CNN, contribuiu com esta matéria



