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    Ativos brasileiros sofrem baque com preocupação do mercado sobre perfil do BC pós-Campos Neto

    Copom decidiu puxar o freio e cortar Selic em 0,25 p.p.; votação foi acirrada

    O atual presidente do BC, Roberto Campos Neto
    O atual presidente do BC, Roberto Campos Neto 08/08/2019 - REUTERS/Amanda Perobelli

    Reuters

    Os ativos brasileiros tinham forte queda nesta quinta-feira (9), após a decisão dividida do Banco Central sobre o ritmo de corte dos juros levantar temores no mercado sobre mudanças no perfil da instituição em 2025.

    No final deste ano, o mandato do atual presidente do banco, Roberto Campos Neto, se encerra e com o giro de cadeiras o Comitê de Política Monetária (Copom) terá uma diretoria quase integralmente indicada pelo governo Lula.

    O Banco Central anunciou no início da noite de quarta-feira (8) um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, para 10,50% ao ano, interrompendo sequência de seis reduções seguidas de 0,50 ponto percentual e abandonando sua indicação sobre o futuro dos juros básicos.

    De acordo com o comunicado do Copom, a redução de 0,25 ponto foi decidida por cinco votos a quatro, com todos os diretores indicados por Lula defendendo um corte maior, o que o Citi descreveu em relatório a clientes como “uma rixa bastante indesejada dentro da diretoria”.

    Apoiaram o ritmo aprovado o presidente Roberto Campos Neto e os diretores Carolina Barros, Diogo Guillen, Otávio Damaso e Renato Gomes, todos indicados ou reconduzidos no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

    Indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Ailton de Aquino, Gabriel Galípolo, Paulo Picchetti e Rodrigo Teixeira votaram por corte maior, de 0,5 ponto.

    Na esteira da decisão, o dólar saltava 1,3%, a R$ 5,1578 na venda, por volta de 12h05 (de Brasília); enquanto o Ibovespa caía 1,4%, a 127.662,51 pontos.

    No mercado de juros futuros, as taxas dos principais DIs disparavam na curva até janeiro de 2029, com as taxas da ponta mais longa da curva chegando a avançar mais de 20 pontos-base.

    Para os mercados, mais do que uma reação à magnitude do corte em si – um ritmo mais lento de afrouxamento monetário tenderia, em situações comuns, a beneficiar o real e prejudicar o Ibovespa -, os preços dos ativos domésticos estão refletindo a indicação de virada iminente no perfil da diretoria do BC, em um momento de grande incerteza no cenário internacional e de preocupações com a política fiscal doméstica.

    “O mercado já está olhando para frente, vendo um risco mais adiante e colocando isso no preço”, disse à Reuters Luciano Rostagno, estrategista-chefe e sócio da EPS Investimentos.

    “Há perspectiva de o balanço dentro do Copom se mover na direção de um colegiado mais expansionista, mais pró-crescimento econômico em detrimento de maior controle da inflação e da estabilidade macro.”

    Já Alfredo Menezes, sócio da gestora Armor Capital, apontou preocupação com o viés político de um abrandamento no perfil do Copom.

    Para ele, o fato de todos os indicados pelo governo terem votado por maior flexibilização monetária “pode passar uma percepção de que o novo BC em janeiro será muito influenciado pelo Poder Executivo”.

    O ex-diretor do BC Tony Volpon escreveu em rede social que a decisão de quarta-feira foi um tropeço para ambas as alas da diretoria, que vai perdendo a confiança dos mercados de forma generalizada.

    “Essa decisão foi pior do que um voto unânime de 50 pontos-base com um ‘guidance’ conservador. Assim todos perdem: os ‘hawks’ (diretores mais conservadores) que queriam ancorar expectativas e os ‘doves’ (mais brandos) que, por serem em breve a maioria, estarão entrando no poder com déficit de credibilidade”, disse Volpon no X.

    Até o final de 2024, Lula deverá indicar um novo presidente e mais dois diretores ao BC, conforme os mandatos de Campos Neto e dos diretores Carolina Barros e Otávio Damaso se aproximam do fim, em dezembro.

    Assim, sete dos nove diretores passarão a ser de nomeação do petista, com apenas Guillen e Gomes ainda seguindo por mais um período como indicações do governo anterior.

    Lula e vários de seus aliados iniciaram o governo com duras críticas à condução da política monetária pelo BC, e o ano passado foi marcado por pedidos constantes pela redução da Selic, que estava em 13,75% quando o petista tomou posse.

    A retórica do governo só começou a esfriar quando o BC iniciou seu ciclo de afrouxamento, em agosto de 2023, mas foi retomada recentemente com críticas renovadas de Lula a Campos Neto.

    Participantes do mercado já dizem que a mudança no ritmo de afrouxamento do BC pode alimentar os conflitos institucionais.

    Antes da instituição da autonomia do Banco Central, com lei sancionada em 2021, o chefe da autoridade monetária era indicado pelo presidente da República ao início de cada nova gestão do Executivo, com mandatos coincidentes.

    Lula foi o primeiro mandatário a ter de conviver com um presidente de BC de mandato fixo indicado por seu antecessor e, nesse caso, antagonista político.