Bets e juros altos afetam mais a baixa renda, diz CEO do Assaí
Belmiro Gomes alerta que o mercado de apostas online pode movimentar até R$ 380 bilhões este ano, valor que representa 35% de todo o alimento consumido no Brasil
O mercado de apostas online tem crescido de forma expressiva no Brasil, com impactos significativos especialmente sobre a população de baixa renda. De acordo com Belmiro Gomes, do Assaí, o país lidera o ranking mundial de acesso a sites de apostas esportivas, superando até mesmo plataformas populares como WhatsApp e YouTube.
Em entrevista ao Hot Market, programa da CNN Brasil, Gomes afirmou que o fenômeno das apostas online, somado às altas taxas de juros, tem causado um efeito devastador nas finanças das famílias mais vulneráveis.
Segundo dados apresentados por Gomes, o mercado estima que as apostas movimentarão cerca de R$ 300 a R$ 380 bilhões este ano no Brasil, valor que representaria aproximadamente 35% de todo o alimento consumido no país.
"Há uma quantidade muito grande, especialmente da população de baixa renda, com muito nível de endividamento, com problemas financeiros, inclusive problemas familiares, em virtude dos gastos feitos com aposta esportiva", observou.
A disparidade no impacto econômico é evidente nos números do varejo. No quarto trimestre, enquanto os formatos alimentares que atendem a alta renda cresceram 4% - valor alinhado com o PIB e dentro do esperado - os estabelecimentos voltados para a baixa renda registraram queda de 9% em relação ao ano anterior.
"Quando a gente olha os formatos que atenderam a baixa renda, eles caíram 9% em relação ao ano anterior", destacou Gomes, apontando que parte desse dinheiro está sendo direcionado para apostas online.
Juros altos agravam a situação
Além das apostas, Gomes aponta que o Brasil vive um ciclo com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, que afeta de forma desproporcional as diferentes camadas sociais.
"Num país de dimensões continentais, com profundas desigualdades sociais, o mesmo juro é navalha e, ao mesmo tempo, é fermento", explicou.
Para o executivo, a discussão sobre o impacto das apostas precisa ir além do viés econômico e ser tratada como uma questão de saúde.
"Acho que a grande discussão precisa ser feita do ponto de vista de saúde pública. Qual o impacto na saúde mental da população?", questionou.
Gomes compara a situação atual com a época em que a publicidade de cigarros era permitida em todos os lugares e sugere que regulamentações semelhantes podem ser necessárias para o setor de apostas. O tema já está em discussão em diversos países como Estados Unidos, Inglaterra e Itália, especialmente no que se refere à vinculação de anúncios esportivos e patrocínios.


