Dívidas pressionam famílias e renda para consumo é a menor em 15 anos

Série elaborada pela Tendências Consultoria mostra que recursos disponíveis após pagamento de itens essenciais está no menor patamar desde 2011

Pedro Zanatta, da CNN Brasil, São Paulo
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Com o endividamento recorde no país, as famílias brasileiras têm observado menos dinheiro para o consumo além dos itens básicos, pagamento de impostos e dívidas.

A renda que sobra após o pagamento desses itens essenciais está no menor patamar desde 2011, quando começou a série histórica elaborada pela Tendências Consultoria.

Em fevereiro, o montante restante da massa de renda ampliada das famílias depois de honrar essas despesas era de 21%. No mesmo mês de 2025, esse indicador contabilizava 23%.

Os períodos de maior "sobra" no bolso dos brasileiros foram registrados em março de 2011, com 27,2%, e em junho de 2020, com 27%.

Para o cálculo, a consultoria considera massa de renda ampliada, que soma renda do trabalho, benefícios sociais, previdência e outras fontes. Desse total, é descontado o gasto com itens essenciais (habitação, transporte, comunicação, saúde e cuidados pessoais, educação e alimentação no domicílio), os compromissos financeiros (pagamento do crédito e juros) e os impostos (imposto de renda e contribuição previdenciária).

O levantamento mostra que ao longo de 2025, ocorre um constante recuo da renda disponível.

A avaliação é de que, desde o ano passado, tem aumentado o peso do serviço financeiro na renda das famílias, decorrente da piora da qualidade da carteira de crédito - com aumento da busca por linhas de crédito emergenciais. Essas opções de crédito são justamente aquelas caracterizadas por juros mais altos e prazos menores.

O tema do endividamento tornou o centro do debate público e obrigou o governo a lançar uma nova versão do Desenrola, o programa para renegociação de dívidas. A expectativa do Planalto é de que a medida diminua o volume de dívidas e a inadimplência da população, dados que não param de crescer.

Segundo o mais recente levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), os brasileiros ficaram mais endividados na passagem de março para abril.

proporção de famílias com dívidas subiu de 80,4% em março para um novo recorde de 80,9% em abril. Foi o quarto mês seguido de recorde.

Dados do Banco Central (BC) mostram ainda que o comprometimento de renda das famílias com o pagamento de dívidas subiu e alcançou 29,7% em fevereiro. O resultado considera o valor médio para o pagamento da dívida no mês e a renda. Esse dado renova ainda o recorde de 29,5% registrado em janeiro.

A elevada taxa de juros é um dos principais fatores que explicam o endividamento. A Selic segue operando em níveis historicamente altos, mesmo após o último corte feito pelo BC, de 0,25 ponto percentual.

Especialistas no entanto defendem que a queda do juro depende também de uma melhora das contas públicas e do problema fiscal. Muitos defendem que será necessária uma nova reforma fiscal em 2027, dado que o orçamento público está engessado e o crescimento da dívida pública pode alcançar 100% do PIB até 2030, segundo projeções da IFI (Instituição Fiscal Independente).

Críticas ao Desenrola

Mesmo visando a queda do endividamento, especialistas e entidades têm alertado para a possibilidade de um efeito reverso com o novo Desenrola.

Entre as opções, o programa permite que o beneficiário utilize 20% do saldo do FGTS ou R$ 1.000, o que for maior, para abater parte da dívida ou quitá-la integralmente. 

A Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) avalia que a medida pode desvirtuar a finalidade do fundo e impactar o setor habitacional, uma vez que o trabalhador pode usar recursos do FGTS para comprar um imóvel.

avaliação é de que a medida apenas posterga um problema estrutural na sociedade brasileira: o endividamento da população. Os especialistas alertam que o uso do FGTS por si só não garante que os beneficiados do programa não voltarão para o mapa de endividados no futuro.

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