Governo olha para meta de inflação como algo irrelevante, diz Kanczuk
Ex-diretor de Política Econômica do Banco Central é conciso ao afirmar que o problema da inflação brasileira é doméstico e fiscal

O governo escolheu olhar para a meta de inflação como algo irrelevante, mesmo diante de um cenário de desancoragem das expectativas e deterioração fiscal. É o que diz à CNN o ex-diretor de Política Econômica do BC e diretor de macroeconomia do ASA, Fabio Kanczuk.
"Acredito que o governo escolheu seguir o caminho de que a meta de inflação é irrelevante. [...] Para a atual gestão, a meta não significa nada apesar da lei", disse Kanczuk, ao ser questionado se o governo poderia retomar o debate sobre mudança na meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
O ex-BC é conciso ao afirmar que o problema da inflação brasileira é doméstico e fiscal. Para Kanczuk, a taxa de juros, que foi elevada para o maior patamar em quase 20 anos na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), não dará conta de ancorar as expectativas, que seguem bastante acima do centro da meta no horizonte relevante.
O centro da meta perseguida pelo BC é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Para este ano, o mercado prevê que a inflação alcance 5,24%, de acordo com o último boletim Focus. Para 2026 e 2027, o IPCA deve seguir operando ainda acima de 4%, recuando pouco abaixo desse percentual apenas em 2028 (3,83%).
Em seu comunicado da última reunião, ao sinalizar para o fim do ciclo de alta da Selic, o BC dá o aval para que o mercado comece a precificar com mais virulência uma queda dos juros.
Esse movimento, na leitura de Kanczuk, resulta em uma falta de credibilidade.
"Apesar de elevar a Selic para 15%, ele fez um esforço de não deixar a porta aberta. A vantagem imensa de deixar em aberto [a próxima decisão] é que as pessoas ficam em dúvida sobre o que vai acontecer no futuro e a curva de juros não fica precificando queda. Ao fechar a porta, a curva de juros começa a precificar a queda. O BC só faz isso porque está preocupado em não elevar mais os juros. Dessa forma, ele não está preocupado em colocar a inflação na meta", analisa o ex-diretor da autarquia.
Nos cálculos do economista, a taxa de juro real neutra do Brasil — aquela que, descontada a inflação, não estimula nem segura a atividade econômica — gira em torno de 8% atualmente. Valor consideravelmente acima do trabalhado pelo Banco Central em seus modelos, que é de 5%.
Questionado sobre os gastos bilionários do governo que ficaram de fora das regras fiscais, totalizando mais de R$ 300 bilhões nos últimos três anos, Kanczuk reforça que os "truques fiscais" pioram ainda mais a credibilidade da atual gestão.
"Uma das poucas coisas que temos convicção é de que o Brasil vai ter de lidar com o problema fiscal depois das eleições", conclui.


