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Japão pede que China reveja controle sobre bens relacionados a terras raras

Pequim proibiu exportações de bens de dupla utilização para fins militares

Satoshi Sugiyama e Kantaro Komiya, da Reuters
Containers são transportados em porto industrial de Yokohama, no Japão
Containers são transportados em porto industrial de Yokohama, no Japão  • 16/01/2017 REUTERS/Kim Kyung-Hoon
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O Japão classificou nesta quarta-feira (7) a proibição da China às exportações de bens de dupla utilização para seu setor militar como "absolutamente inaceitável", em meio à ameaça iminente de restrições mais amplas a terras raras vitais, em uma disputa crescente entre as duas maiores economias da Ásia.

Itens de dupla utilização são bens, softwares ou tecnologias que possuem aplicações tanto civis quanto militares, incluindo certos minerais críticos essenciais para a fabricação de drones e chips.

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, desencadeou a disputa no final do ano passado ao afirmar que um ataque chinês a Taiwan, uma ilha governada democraticamente, poderia ser considerado uma ameaça existencial para o Japão. A China considera Taiwan parte de seu território, uma alegação que a ilha rejeita.

Pequim exigiu que ela se retratasse das declarações, o que ela não fez, provocando uma série de contramedidas, a mais recente das quais foi a proibição, na terça-feira, de exportações para usuários militares ou para quaisquer fins que contribuam para o poderio militar do Japão.

"Uma medida como esta, que visa apenas o nosso país, difere significativamente da prática internacional, é absolutamente inaceitável e profundamente lamentável", disse o principal porta-voz do governo japonês, o secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara.

Em uma coletiva de imprensa diária na quarta-feira, ele se recusou a comentar sobre o possível impacto na indústria japonesa, dizendo que ainda não estava claro exatamente quais itens seriam afetados.

O índice Nikkei da bolsa japonesa caiu cerca de 1% na quarta-feira, contrariando a tendência de máximas históricas dos índices de referência dos EUA e da Europa.

As ações das principais empreiteiras militares Kawasaki Heavy e Mitsubishi Heavy estiveram entre as que mais perderam valor, com queda de cerca de 2%.

Será que em breve teremos meio-fios de terra rara?

Pequim está considerando restringir ainda mais as exportações de terras raras para o Japão, informou na terça-feira (6) o China Daily, um jornal pertencente ao Partido Comunista Chinês, citando fontes com conhecimento do assunto.

Tal medida poderia ter amplas implicações para a potência industrial, incluindo seu setor automotivo chave.

Desde que a China restringiu as exportações desses minerais pela última vez em 2010, o Japão tem buscado diversificar seu fornecimento de terras raras, mas ainda depende da China para cerca de 60% de suas importações.

Para alguns elementos de terras raras pesados, como os usados ​​em ímãs para motores de veículos elétricos e híbridos, por exemplo, o Japão é quase totalmente dependente da China, dizem os analistas.

A montadora japonesa Subaru afirmou estar monitorando de perto a situação, enquanto concorrentes como a Toyota e a Nissan não se pronunciaram imediatamente.

Uma restrição de três meses às exportações chinesas de terras raras, semelhante à da disputa de 2010, poderia custar às empresas japonesas 660 bilhões de ienes (US$ 4,2 bilhões) e reduzir o PIB (Produto Interno Bruto) anual em 0,11%, afirmou o economista Takahide Kiuchi, do Instituto de Pesquisa Nomura, em nota divulgada na quarta-feira.

Uma proibição de um ano reduziria o PIB em 0,43%, acrescentou ele.

Tóquio provavelmente não ficará de braços cruzados se as proibições de Pequim começarem a atingir as empresas japonesas de forma mais ampla, disse Cameron Johnson, sócio sênior da consultoria de cadeia de suprimentos Tidalwave Solutions, em Xangai.

"Se entidades civis ou comerciais japonesas forem alvo de ataques, é possível que o Japão retalie", disse ele.

Essas respostas poderiam ter como alvo áreas como semicondutores ou outros materiais de fabricação de alta tecnologia que a China precisa para sua própria cadeia de suprimentos, acrescentou ele.

Em outra frente, na quarta-feira, a China iniciou uma investigação antidumping sobre as importações japonesas de diclorosilano, um produto químico essencial para a indústria de semicondutores, informou o Ministério do Comércio em seu site.

Preparando-se para um longo inverno

Desde o comentário casual de Takaichi sobre Taiwan no início de novembro, Pequim tem instado seus cidadãos a não visitarem o Japão, suspendeu as importações de frutos do mar japoneses e cancelou reuniões e eventos culturais.

O presidente dos EUA, Donald Trump, que intermediou uma frágil trégua na guerra comercial com o presidente chinês Xi Jinping no final do ano passado e planeja viajar a Pequim em abril, pediu a Takaichi que não agrave ainda mais a disputa, disseram fontes à Reuters.

A discussão, no entanto, não parece ter prejudicado a grande popularidade de Takaichi em seu país, segundo mostram as pesquisas de opinião.

Analistas comparam a crise àquela desencadeada pela decisão de Tóquio, em 2012, de nacionalizar ilhas disputadas, o que provocou protestos em massa contra o Japão na China e interrompeu as reuniões entre os líderes dos dois países por dois anos e meio.

"Acho que isso vai se arrastar por um bom tempo", disse Keita Ishii, presidente da Itochu Corp, uma das maiores empresas comerciais do Japão, em uma entrevista na televisão na terça-feira.

Questionado sobre as restrições às exportações japonesas durante uma coletiva de imprensa regular na quarta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China reiterou a indignação de Pequim com os comentários de Takaichi sobre Taiwan.

"Instamos o lado japonês a confrontar a causa principal do problema, refletir sobre seus erros e retratar as declarações equivocadas", disse Mao Ning.

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