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    Mercado já reduz previsões de juros e inflação, mas analistas mantém cautela

    Nova regra fiscal, política de preço da Petrobras, pesquisa mensal do serviço e comércio foram divulgadas nessa semana e surpreenderam especialistas

    Dados indicam que atividade econômica se mostrou resiliente no primeiro trimestre de 2023
    Dados indicam que atividade econômica se mostrou resiliente no primeiro trimestre de 2023 23/12/2020REUTERS/Pilar Olivares

    Diego Mendesda CNN

    São Paulo

    Na terça-feira (16), o texto final do projeto da nova regra fiscal apresentada pelo governo foi entregue pelo relator ao Congresso. No mesmo dia, a Petrobras anunciou o fim da política de paridade internacional (PPI) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou mais uma pesquisa mensal do serviço.

    O dia exemplifica o período recente do noticiário econômico no país, com movimentações e divulgações de dados e índices considerados positivos, em geral, e até “surpreendentes”, de acordo com os economistas consultados pela CNN.

    Contudo, os especialistas mantêm reticências com esse cenário para o médio prazo, de olho no desenrolar das decisões que a equipe econômica do governo está tomando.

    Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, o mercado recebeu bem às divulgações, mas muitas dúvidas ainda pairam nas análises. Segundo ela, o relatório final do arcabouço trouxe algumas melhorias, mas em boa parte elas já tinham sido antecipadas.

    “Nos últimos dias a gente vê uma grande melhora na curva de juros, principalmente porque é onde a existia os prêmios de risco maiores por conta de uma insegurança com relação à trajetória da dívida brasileira e um controle maior dos gastos. Então, isso acabou já sendo precificado.”

    Diante desse cenário, o Inter calculou um impacto inicial de cerca de 30 pontos base para 0,3 ponto percentual na inflação do ano. “Esse impacto que a gente deve ter agora, principalmente entre maio e junho, estava indo para 5,9%. Agora, estamos vendo em maio, alguns reajustes um pouco acima do que esperávamos. Com essa mudança nos preços dos combustíveis, a gente está voltando para 5,6%. Então, estamos reduzindo a meta de inflação de 5,9% pra 5,6%.”

    Nova meta fiscal

    O arcabouço trouxe essa melhoria na parte de contingenciamento, destaca a economista-chefe do Inter. “Trouxe uma melhoria na questão do enquadramento de despesa dentro do limite do gasto. A gente tinha três exceções que caíram para cinco. Isso também é muito bem visto, mas ainda fica uma incerteza com relação ao cumprimento da meta.”

    Vitória disse achar difícil o governo zerar esse déficit no próximo ano e o relatório não muda a expectativa para o resultado primário no mesmo período, que é um déficit de zero 8% do PIB.

    “A gente ainda vai ter um crescimento real de peso próximo de 12%, principalmente pela política do salário mínimo, que acabou sendo blindada pelo arcabouço. Mas a gente tem sim essa visão relativa um pouco melhor.”

    Para ela, a discussão do início do ano com o fim do teto, ficou em aberto. Mas, acredita que o arcabouço traz melhorias, porém, ainda não o suficiente para que se tenha uma queda de juros maior no mercado.

    Na análise de Pedro Paulo, diretor da Nova Futura Investimentos, o texto final do arcabouço fiscal, por um lado, adicionou mecanismos de ajuste, em caso de descumprimento da meta, e retomou os contingenciamentos, que serão acionados por relatórios bimestrais, além de excluir capitalização das estatais e piso da enfermagem das despesas isentas do teto.

    Mas, por outro lado, as despesas de 2024 serão ampliadas em 2,5%, independente do crescimento da receita, além de permitir que o gasto fique até 0,25% do PIB acima do limite, caso projeções de receitas e despesas mostrem que a meta não será comprometida.

    “As despesas do Bolsa Família e as ligadas ao salário-mínimo (1/3 do Orçamento) ficam fora do teto. Além disso, o texto altera a fórmula de cálculo do IPCA em 12 meses no ano corrente (que contariam com projeções de julho a dezembro) para o IPCA em 12 meses efetivo entre julho passado e junho do ano corrente.”

    Na análise de Israel Rodrigues, analista do setor de Petróleo da Genial Investimentos, a apresentação do novo marco fiscal, melhorou a expectativa dos investidores com a inclusão de proposta mais duras em caso de descumprimento das metas, combinado à redução de ruídos quanto á mudança da meta para a inflação.

    Segundo ele, isso fez com que o Real entrasse em trajetória de valorização nas últimas semanas, furando o nível de R$ 4,90 para cada US$ 1,00.

    “Caso este cenário se mantenha, o Real deverá manter a trajetória de valorização e atingir um nível próximo a R$ 4,60 para US$ 1,00 nos próximos meses.”

    Petrobras

    As reações dos analistas sobre as mudanças na política de preços dos combustíveis da Petrobras é de que a nova proposta não tem transparência. A falta de clareza nos conceitos, segundo relatório da LCA Consulsutores, aumentou os riscos de ingerência política, podendo causar impactos negativos na estatal, refinarias privadas e nas empresas do setor de etanol.

    De acordo com Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital, já vinha sendo especulado e esperado nos últimos dias o anúncio da Petrobrás de uma nova política de preços. E de fato, aconteceu.

    “Ficou claro que a nova diretoria da Petrobrás não vai mais seguir a política de preços da paridade internacional, a famosa PPI. O anúncio deu a entender que será uma nova política que será realizada de forma saudável e sustentável pela companhia, para poder oferecer preços mais justos e competitivos para o consumidor final.”

    Diante disso, Izac afirmou que o mercado já estava precificando. “Estavam esperando que viesse algo bem ruim ou algo mais próximo do que foi feito no governo Dilma. E pode se dizer que a gente teve uma leve surpresa. O comentário veio bem brando e reiterando que a Petrobras quer fazer isso de uma forma saudável para não deixar repetir erros do passado. Então, a perspectiva de que seria muito ruim, veio um pouco mais tranquilo, com aparência de que seria melhor do que se esperava e trouxe um fôlego para as ações.”

    Rafaela Vitória disse que vai ter que esperar para ver na prática, o resultado dessa nova política de preço, porque o anúncio em si, ficou vago e amplo.

    “O reajuste de hoje está bem em linha com PT, então não trouxe nenhuma novidade para nós. A gente até tinha uma estimativa de que poderia ser colocado R$ 0,45 na gasolina, então foi um corte até abaixo dos R$ 0,40 anunciado. Então o corte de hoje não mostrou nenhum indicativo de que a Petrobrás pretende, na prática, aplicar essa nova política.”

    Segundo ela, a política foi mais vaga em relação à PPI, deixando de ter um número referência. Por isso, ela acredita que o mercado vai continuar usando a paridade internacional como referência na ausência de algum outro dado.

    “Essa mudança fez a gente perde a transparência, uma referência, que era fácil de se discutir e avaliar. Então, a avaliação inicial é de que a mudança não foi positiva e necessária nesse momento de queda da gasolina. Era um ruído a menos que a companhia podia deixar de ter e simplesmente dar o desconto.”

    Serviços

    Também nesta terça-feira, o IBGE divulgou os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS). De acordo com o levantamento, o setor cresceu 0,9% em março de 2023 na comparação com fevereiro, fechando o primeiro trimestre do ano com alta acumulada de 5,8% na comparação com 2022.

    No acumulado dos últimos 12 meses, o índice perdeu força, passando de alta de 7,8% até fevereiro para 7,4% até março, o menor resultado desde setembro de 2021 (6,8%). Já frente a março de 2022, o setor avançou 6,3%, marcando a 25ª taxa positiva consecutiva.

    No mês de março, três das cinco atividades investigadas acompanharam o avanço do índice, com destaque para o setor de transportes (3,6%), dando continuidade ao crescimento observado no mês anterior, beneficiado pelo transporte rodoviário de cargas diante de uma demanda crescente vinda do agronegócio, do comércio eletrônico e do setor industrial.

    Neste cenário, Israel Rodrigues, analista do setor de Petróleo da Genial Investimentos, diz que o resultado demonstra que o setor ainda pode ser beneficiado pelo setor de tecnologia da informação e transportes, explicados pela mudança no perfil de consumo impulsionado durante a pandemia (comércio eletrônico e serviços de streaming) e pelo bom desempenho da agropecuária ao longo de 2023.

    Rodrigues pontua que as projeções indicam que a conjuntura atual mais adversa compensará os vetores positivos advindos do mercado de trabalho (baixo desemprego e expansão da massa salarial) e, em menor magnitude, das políticas de expansão da renda aprovadas pelo governo (valorização do salário-mínimo e transferência de renda).

    “Assim, os próximos resultados do setor serão influenciados por vetores que atuarão em ambas as direções, de modo que, esperamos uma leve expansão próximo à estabilidade do setor de serviços ao longo de 2023.”

    A economista-chefe do Inter ressalta o forte crescimento do setor em março. Segundo Vitória, o resultado deve levar a novas revisões do PIB.

    “Nosso cálculo preliminar já aponta para um crescimento revisado de 0,8% para 1,5% em 2023. Apesar do bom desempenho do setor, os serviços às famílias tiveram nova queda no mês, 1,7%, indicando que o consumo segue mais baixo, seguindo o aperto monetário, o que pode ser positivo para a queda da inflação à frente.”

    De fato, o deflator do setor está em cerca de 5% no acumulado dos últimos 12 meses, abaixo dos patamar de 7% observado na inflação de serviços ao consumidor. Entretanto, a economista diz que é possível observar a perda de dinamismo, sobretudo dos setores de tecnologia da informação e dos transportes devido à forte expansão ocorrida desde o início da pandemia, que eleva a base de comparação e por conta de um contexto macroeconômico mais adverso.

    Comércio

    As vendas do varejo brasileiro cresceram 0,8% em março na comparação com fevereiro de 2023. Frente a março de 2022, houve alta de 3,2%, enquanto no indicador dos últimos 12 meses o crescimento foi de 1,2%.

    No primeiro trimestre do ano, as vendas do comércio registraram crescimento de 2,4% comparado ao mesmo período de 2022. Os dados são da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada nesta quarta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    “Esse aumento de 0,8% representa a saída de uma estabilidade em fevereiro para um resultado que podemos considerar como crescimento. Além disso, ao observarmos os últimos três meses juntos, vemos ganho de patamar de 4,5% em relação a dezembro do ano passado, último mês de queda”, comenta o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, em nota.

    Para Matheus Pizzani, economista da CM Capital, o crescimento do comércio acima da expectativa de mercado em março pode ser atribuído ao movimento de correção frente ao desempenho de fevereiro, quando o indicador não apresentou variação.

    “Não instante, a inflação mais amena no mês de março também teve papel importante no resultado, privilegiando o consumo de itens como alimentos e demais itens de despesas pessoais, reflexo do segmento de hiper e supermercados (que teve alta apesar de seu grande grupo não apresentar variação) e dos artigos farmacêuticos.”

    A divulgação de março, segundo ele, ainda não trouxe sinalizações claras acerca do efeito da política monetária sobre a economia, visto que apesar da retração do consumo de itens semiduraveis.

    “O resultado deixa margem para uma possível interpretação de que o nível de atividade, tanto quantitativamente quanto qualitativamente, ainda sustenta a atual posição do BC quanto aos juros.”