Nomad vê atual contexto econômico melhor para países emergentes
Danilo Igliori, economista-chefe da instituição, afirma que baixa do dólar e diferencial de juros tem impulsionado economias como a brasileira
Em meio às incertezas da economia mundial, o Ibovespa tem crescido nos últimos meses. Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, afirma que o diferencial de juros entre os EUA e o Brasil é um dos principais fatores para as altas do índice acionário brasileiro.
Durante entrevista ao Capital Insights, programa do CNN Money em parceria com a Broadcast que foi ao ar nesta quinta-feira (2), Igliori vê ainda margem para expansão do Ibov.
"Temos motivos para pensar que há espaço para a valorização da Bolsa. A Bolsa sofreu muito nos últimos anos e hoje tem um cenário mais construtivo para a economia brasileira que justifica essa valorização recente", analisa.
O economista também cita um "reposicionamento dos investidores" em meio à baixa do dólar, que tem favorecido economias emergentes como o Brasil.
Em parceria do CNN Money com a Broadcast, o Capital Insights vai ao ar toda quinta-feira, às 19h, no CNN Money, com personagens relevantes do mercado financeiro para discutir o cenário econômico brasileiro e mundial.
Leia os destaques da entrevista a seguir.
Com o fechamento de trimestre com preços de ativos bastante elevados, Ibovespa em máxima histórica, dólar desvalorizado... Tem incerteza no mercado? O que justifica esses movimentos?
Incerteza é a palavra deste ano. Já vínhamos de um contexto de bastante incerteza depois da pandemia, com a elevação de juros dos grandes países do planeta. Continua esse ano certamente, muito ligado com as inovações do governo Trump.
Tanto é que se a gente olhar para o comunicado da última edição do Copom, abre com esse parágrafo, "cenário muito ligado à incerteza no setor externo". Isso de alguma forma contamina a economia brasileira.
Quando a gente olha para esses números altos, esse desempenho muito forte da Bolsa, tem de novo uma conexão com o que está acontecendo lá fora. Vamos lembrar que a taxa de juros hoje no Brasil em relação aos Estados Unidos tem um diferencial muito grande.
Isso atrai recursos para o país, parte da história tem a ver com esse movimento, mas também aqui no Brasil temos motivos para pensar que há espaço para a valorização da Bolsa. A bolsa sofreu muito nos últimos anos e hoje tem um cenário mais construtivo para a economia brasileira que justifica essa valorização recente.
Então tem uma saída de ativos, tem um reposicionamento, uma parte disso vem para emergentes e aí Brasil, com esse diferencial de juros tão expressivo e com uma perspectiva melhor do que a gente imaginava algum tempo atrás, tem atraído uma parte relevante dessa história ajudando o Ibovespa.
Olhando de 2000 para cá, a média de Selic é acima de 10%. O Brasil já está vacinado, já temos anticorpos para enfrentar taxas de juros de 15%? Como é que você enxerga esse patamar? Pois, se colocar um juro nesse patamar nos Estados Unidos, a economia acaba.
Essa é uma enorme questão, ninguém sabe no detalhe ao certo responder essa pergunta. Tem aqueles que acham que tem muito a ver com o peso do fiscal forte, gastos empurrando a economia. Tem outros que vão dizer que a gente tem estímulos em crédito subsidiado, papel do BNDES. Outros que vão dizer que depois da pandemia algumas coisas mudaram e transmissão da politica monetária acontece de forma mais fraca e lenta.
O Brasil tem essa história de que a taxa de juros é muito alta. Mas, se olhar para trajetória de inflação, acho que não tem muito jeito.
Temos um colegiado no Copom nesse momento com gente que foi indicada por esse governo, gente que foi indicada pelo governo anterior, você tem técnicos do Banco Central, tem gente do mercado, você tem acadêmicos ou pelo menos um acadêmico.
Então tem gente com backgrounds muito diferentes e as decisões do Copom nesta administração têm sido unânimes, não teve nenhuma dissidência, nenhuma voz divergente por trás de manter a Selic nesse patamar.
Como é que fica a política monetária do Banco Central Americano? Deu início a um processo de flexibilização, mas aparentemente cauteloso, até pelo receio de um repique nos preços em função das tarifas. Como é que você está observando a economia americana, a política monetária lá e o crescimento?
O ponto aqui volta para nossa palavra-chave que é incerteza, é que quando você olha junto com a decisão do Fomc, vieram as projeções, o resumo das projeções econômicas, e ali o que você viu? Parece que está praticamente dado que teve esse primeiro corte e vai ter mais dois para esse ano, muito embora o mercado já dê uma bagunçada.
Mas ao olhar para o ano que vem, a mediana das expectativas para derrubada de juros é só mais um corte em 2026. No resumo, a dispersão em torno dessa mediana é enorme. Isso dentro do corpo técnico das autoridades dos EUA.
E aí você vai para o mercado, olhar para aquelas projeções que estão implícitas nos contratos de juros. Ali você vê mais cortes para o ano que vem. Logo após a última decisão, teve a ideia de que seriam três cortes neste ano. Mas saem os dados um pouco melhores de PIB e um dado um pouco pior de inflação, já fez aparecer 30% de probabilidade para apenas dois cortes neste ano.
Então teve uma preocupação enorme com o mercado de trabalho agora. Acho que tem a percepção também de risco, que de certa forma tem implicitamente a ideia de que se o mercado de trabalho começar a enfraquecer, no jeito mais importante, a política monetária tem menos condições de reverter isso.
Nesse contexto, o Fed aceita uma inflação um pouco mais arisca, porque aí ele volta com juros, para de derrubar juros e tipicamente isso funciona melhor, do que um enfraquecimento no mercado de trabalho depois de um período tão cheio de choques diferentes que pode sair do controle.
Pensando na postura técnica com relação ao Banco Centra do Brasil, uma expectativa de que atuem conforme o livro-texto, é indiferente uma redução da Selic em janeiro ou em março?
Olha, hoje eu estou mais esperando que seja o janeiro, ainda estou esperando que seja janeiro, mas ouvindo, vamos dizer assim, os diretores e particularmente o presidente Gabriel Galípolo, está aumentando a chance de entrar ano a dentro.
Acho que vai depender muito do que acontecer com a inflação, mas ainda estou imaginando, ainda continuo olhando para janeiro, porque penso que o dólar está ajudando bastante.
Isso junto com os dados que estão mostrando um enfraquecimento do mercado de trabalho, da atividade, tem uma chance que de janeiro seja de fato o marco da primeira queda na Selic. Em 2025, acho meio difícil. Para ter um corte em dezembro, temos que ter uma mudança de trajetória muito clara de atividade.
A gente falou sobre o quanto, em alguma medida, os estímulos. Queria ouvir sobre perspectivas para cenário fiscal. Certamente deve ser um assunto para o ano que vem, ano de eleições. Qual sua avaliação?
Eu sou daqueles que acham que, aquilo que a fizemos com a inflação na década de 90, tem de ser feito com fiscal agora, ou seja, trazer o debate público com a mensagem muito clara, que você pode ter sua opinião diferente da minha, mas não dá para fugir do debate de arrumação das contas públicas.
Acredito que isso vem crescendo em preocupação na sociedade e não tem a dúvida que vai ser o grande tema macro do ano que vem. A visão é de que em 2027 vai ter que ser feita alguma coisa.
Esse governo pode até se beneficiar um pouquinho desse ciclo eleitoral, mas em 2027, quem quer que ganhe não vai contar com a paciência de agentes econômicos relacionado à questão fiscal.
A percepção é: uma situação grave, mas não sou daqueles que acham que o desastre é iminente. Podemos usar uma expressão. O Brasil é como um paciente que está ali entre a semi-intensiva e a UTI, mas não está em estado terminal, certamente não está.
Temos R$ 50 bilhões previstos para investimentos no ano que vem. O orçamento é de R$ 6 trilhões, mas não sobra quase nada para mexer. E toda essa operação está indexado a inflação, crescimento do Produto Interno Bruto. Mexer nisso, desindexar gastos, já dá uma boa aliviada? Ou tem que diminuir ao máxi os gastos obrigatórios?
Se conseguir desindexar esses grande linhas de gasto, seria uma grande ajuda, mas não sei o quão seria politicamente viável. Mas reforço a história de ter uma bandeira de atacar a agenda fiscal agora.
Uma das coisas que de certa forma gerou um mau humor do mercado em relação ao governo atual foi não ter aproveitado a oportunidade de pegar o início do governo e começar a endereçar essas questões de uma forma um pouco mais profunda. O arcabouço fiscal é muito em cima de receita, em cima de impostos.
Por isso que eu falo que em 2027, de novo, posso estar sendo um pouco ingênuo, mas eu realmente não vejo um novo governo conseguindo navegar a partir de 2027 sem atacar essa questão.
Tem propostas sólidas sendo apresentadas, vai ter muita divergência. A reforma de previdência e a reforma tributária são dois bons exemplos daquilo que seria uma preparação para uma reforma mais ambiciosa, que envolve reforma administrativa, envolve pensar o tamanho e características do estado, a qualidade dos serviços públicos. E aí essas coisas mais contábeis mesmo ligadas a indexação, obrigatoriedade, discricionariedade. Tem muitas coisas que precisamos fazer.


