Nomeação antecipada para o Fed por Trump causa receio entre economistas

Criação de um presidente paralelo ameaça independência do banco central dos EUA, dizem especialistas

Bryan Mena e Matt Egan, Washington
Presidente dos EUA, Donald Trump
Presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington  • 12/06/2025REUTERS/Evelyn Hockstein
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O ex-presidente Donald Trump disse, na semana passada, que anunciará “muito em breve” sua escolha para suceder o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. O problema é que Powell ainda tem 11 meses restantes até o fim de seu mandato.

Trump continua frustrado com o Fed, porque a instituição ainda não reduziu as taxas de juros. Ele tem atacado Powell há meses. Mas anunciar um candidato à presidência do Fed com tanta antecedência — se realmente cumprir esse plano — seria um acontecimento sem precedentes nos 111 anos de história do banco central norte-americano.

Essa pessoa atuaria, na prática, como presidente “sombra” do Fed dos Estados Unidos — uma proposta que Scott Bessent apresentou pela primeira vez no ano passado, antes de se tornar secretário do Tesouro de Trump. Uma medida tão extraordinária poderia minar o atual presidente do Fed e intensificar a incerteza que tem atormentado a economia dos EUA desde que Trump assumiu o cargo, afirmam ex-funcionários do Fed e acadêmicos à CNN.

“É uma ideia absolutamente horrível”, disse Alan Blinder, que atuou como segundo no comando do Fed em meados da década de 1990, em entrevista por telefone à CNN.
Blinder disse que um presidente paralelo do Fed significaria que os mercados teriam que lidar com duas vozes influentes comentando sobre política monetária ao mesmo tempo, mas oferecendo visões potencialmente muito diferentes.

“Se eles não estiverem seguindo o mesmo roteiro, o que parece provável, isso só vai causar confusão nos mercados”, disse Blinder, ex-conselheiro econômico de Bill Clinton e agora professor da Universidade de Princeton.

Greg Valliere, estrategista-chefe de políticas dos EUA da AGF Investments, afirma ter uma interpretação semelhante em uma nota aos investidores, na quinta-feira (26): “Esta é uma péssima ideia, que certamente irritará e confundirá os mercados financeiros se houver dois presidentes do Fed”.

“Tudo depende de quão leal essa pessoa deve ser a Trump”, disse Kathryn Judge, professora da Faculdade de Direito da Columbia, que pesquisa mercados financeiros e bancos centrais. “Mas não sabemos quais seriam as ramificações ou o que estariam dispostos a fazer, porque isso é algo sem precedentes.”

Historicamente, os presidentes dos EUA esperam até os últimos meses do mandato do presidente do Fed em exercício antes de nomear um sucessor.

O economista-chefe da RSM, Joe Brusuelas, alertou que nomear um presidente do Fed antecipadamente pode sair pela culatra, provocando um aumento nas taxas de juros que Trump tenta justamente reduzir.

“Prejudicar Powell não é do interesse de ninguém, pois isso quase certamente se traduzirá em um dólar mais fraco e taxas mais altas”, disse Brusuelas.

Na quarta-feira (25), o Wall Street Journal informou que Trump, frustrado com a relutância de Powell em reduzir as taxas de juros, poderia anunciar seu candidato já neste verão.

O índice do dólar norte-americano, que mede a força da moeda em relação a seis das principais divisas estrangeiras, refletiu o desconforto dos investidores com a ideia de um presidente paralelo no Fed. Após a reportagem do Journal, o dólar americano caiu 0,3% na manhã de quinta-feira e oscilou em torno de seu nível mais baixo desde fevereiro de 2022.

O mercado de ações, por outro lado, pareceu não se abalar com a ideia de Trump nomear um presidente paralelo para o Fed. As ações nos EUA subiram na quinta-feira, flertando com recordes históricos.

Valliere teme que o plano de nomear um presidente do Fed antecipadamente “politize o Fed por alguns meses antes que a estabilidade seja restaurada em maio próximo”.
“O dano à independência do Fed seria considerável se Trump se tornasse um motorista de banco de trás monetário, questionando as políticas do Fed neste outono”, disse Valliere.

Há pelo menos três candidatos ao cargo mais alto do Fed, segundo reportagem anterior da CNN: Bessent; Kevin Warsh, ex-governador do Fed; e Christopher Waller, atual governador.

O Journal informou que Kevin Hassett, ex-diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, também está sendo considerado, assim como David Malpass, que Trump nomeou em seu primeiro mandato para dirigir o Banco Mundial.

Narayana Kocherlakota, ex-presidente do Fed de Minneapolis e atual professor da Universidade de Rochester, disse à CNN que um presidente-sombra do Fed “não é uma boa política”, pois essa pessoa poderia interferir nas mensagens atuais de Powell.

“No entanto, pode ser melhor do que ter o presidente tuitando sobre política monetária”, disse Kocherlakota, se referindo aos ataques intensificados de Trump a Powell nas redes sociais.

“Sem impacto” sobre Powell

Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, disse à CNBC, na quinta-feira, que a nomeação de um novo presidente do Fed com tanta antecedência não teria “nenhum efeito” sobre os formuladores de políticas da instituição.

Um ex-funcionário do Fed que participou do comitê de definição de taxas ao lado de Powell também enfatizou que nomear um presidente paralelo para o Fed não influenciaria os formuladores de políticas.

“Posso dizer com absoluta certeza que isso não terá impacto sobre Jay Powell e o FOMC existente”, disse o ex-funcionário à CNN sob condição de anonimato, referindo-se ao comitê de votação de 12 membros do Fed.

O ex-funcionário afirmou que alguns candidatos considerados por Trump podem ter dúvidas sobre serem anunciados tão cedo no processo.

“Eu não gostaria de ser nomeado neste momento, porque estaria dizendo que sou um lacaio de Trump. Isso prejudicaria minha credibilidade no mercado financeiro e no mundo corporativo americano”, disse o ex-funcionário.

Como Goolsbee aludiu, um presidente-sombra do Fed não terá nenhum poder real antes de assumir o cargo. A escolha de Trump também precisaria ser confirmada pelo Senado, embora isso provavelmente não seja um grande obstáculo, já que os republicanos controlam ambas as câmaras do Congresso até 2026.

Mesmo assim, não será fácil para essa pessoa fazer com que o Fed siga sua vontade. Todas as decisões de política monetária são votadas pelo FOMC, também conhecido como Comitê Federal de Mercado Aberto. O presidente não pode vetar unilateralmente o que os membros votam e, em teoria, pode até mesmo ser derrotado na votação.

Blinder, ex-vice-presidente do Fed, disse que o risco é que um presidente-sombra do Fed provoque seus futuros colegas ao se manifestar antes de assumir o poder.

“Se ele ou ela contradizer o que Powell está dizendo, isso agravará o FOMC, cujos membros ainda estarão lá quando o novo presidente assumir”, disse Blinder. “Isso abre as portas para uma revolta aberta ou silenciosa contra o presidente, o que é algo raro na história do Fed.”

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