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Volta do petróleo da Venezuela exige estabilidade e bilhões de dólares

Donald Trump não esconde interesse na exploração do óleo por empresas dos EUA, mas caminho é árduo e custoso, afirmam especialistas

Gabriel Garcia, da CNN Brasil
Donald Trump não esconde interesse na exploração do óleo por empresas dos EUA, mas caminho é árduo e custoso, afirmam especialistas  • Imagem gerada por IA
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Um dos principais fatores por trás da pressão dos Estados Unidos sobre a Venezuela é o petróleo presente em solo do país sul-americano.

O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a diplomacia americana já admitiram esse interesse em diversas declarações públicas.

A Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo, mas está parcialmente fora do mercado internacional há anos em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos, sobretudo a partir de 2019, e do colapso operacional de sua indústria petrolífera.

Na prática, as sanções restringem a capacidade do país de exportar petróleo livremente, acessar financiamento internacional, importar alguns equipamentos e atrair grandes empresas globais.

Hoje, refinarias independentes na China absorvem a maior parte do petróleo venezuelano, muitas vezes por meio de intermediários, com descontos elevados e fora dos fluxos tradicionais do mercado global.

Mesmo em um cenário de retirada das sanções americanas, a volta da Venezuela como um player relevante no mercado internacional não seria imediata.

Trata-se de um processo de médio a longo prazo, que exigiria investimentos bilionários e uma reestruturação profunda da indústria.

Um relatório da consultoria Wood Mackenzie aponta que o impacto combinado da má gestão interna e das sanções internacionais reduziu a produção venezuelana de mais de 3 milhões de barris por dia no início dos anos 2000 para cerca de 2 milhões de barris/dia em 2017 e aproximadamente 900 mil barris/dia em 2025.

As relações entre Venezuela e Estados Unidos no setor de petróleo são marcadas por idas e vindas.

Em 2022, após o petróleo Brent ultrapassar US$ 120 por barril, o governo Joe Biden concedeu à Chevron uma licença para produzir e exportar petróleo venezuelano.

Em fevereiro, o presidente Donald Trump anunciou que a autorização seria revogada, mas a licença acabou sendo renovada em julho, com restrições. Neste ano, a Chevron respondeu por cerca de um quarto da produção total da Venezuela.

Segundo a Wood Mackenzie, a indústria de exploração e produção do país precisa urgentemente de apoio operacional e financeiro. Caso as sanções sejam suspensas e esse suporte se torne viável, o impacto na produção poderia ser relevante já no curto prazo.

“Melhorias operacionais e investimentos modestos na região de petróleo pesado da Faixa do Orinoco poderiam elevar a produção da Venezuela de volta aos níveis de meados da década de 2010, em torno de 2 milhões de barris por dia, em um a dois anos, dadas condições favoráveis”, afirma o relatório.

Avançar além desse patamar, porém, exigiria investimentos muito mais expressivos.

A Wood Mackenzie estima que as joint ventures da Faixa do Orinoco entre a estatal PDVSA e empresas internacionais precisariam de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões em investimentos ao longo de dez anos para adicionar cerca de 500 mil barris por dia à produção.

A consultoria Argus traça um cenário semelhante.

Segundo a empresa, investimentos significativos de companhias internacionais no médio e longo prazo seriam necessários para que a produção venezuelana retornasse aos níveis anteriores às sanções dos EUA, de 1,2 milhão de barris por dia em 2018 ou mais.

“Isso exigiria o fim das sanções e mudanças profundas no ambiente legal e empresarial da Venezuela — uma perspectiva duvidosa diante da provável instabilidade após a deposição de Maduro”, afirma Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus.

O consenso entre os analistas é de que, no momento, petróleo venezuelano pode até começar a ganhar espaço no mercado global caso haja alívio das sanções, mas uma retomada robusta e sustentável dependerá de estabilidade política, segurança jurídica e investimentos de longo prazo, fatores que seguem cercados de incerteza.

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