Voo de galinha ou foguete? O que movimenta o Ibovespa em 2025
Segundo especialistas consultados pelo CNN Money, a previsão é de que o índice ultrapasse 150 mil pontos neste ano; entenda o que está por trás do rali

Ouvem-se fogos de artifício na Faria Lima. Motivo: nos últimos 30 dias, o Ibovespa, índice referência do mercado acionário, bateu máximas históricas em cinco ocasiões diferentes — chegando a fechar acima dos 144 mil pontos no pregão desta terça-feira (15).
O último recorde segue no canto do olho dos investidores. Pouco mais de dois meses atrás, no dia 4 de julho, o índice virou manchete ao fechar em 141,3 mil pontos pela primeira vez. Desde então, sem contar os recordes intradias, o índice superou o marco no dia 29 de agosto, 5, 11, 15 e 16 de setembro.
Segundo especialistas consultados pelo CNN Money, as comemorações estão longe do fim. A tempo de os fogos migrarem da Zona Oeste à Copacabana, a previsão é de que o Ibovespa ultrapasse 150 mil pontos em 2025. Para final de 2026, o número fica entre 170 e 175 mil pontos.
Os marcos não são mero fruto do acaso. Perspectivas de cortes nas taxas de juros (tanto no Brasil como nos Estados Unidos), bom desempenho de ações ligadas a setores sensíveis, e otimismo com o cenário eleitoral de 2026 estão consolidando uma nova dinâmica para ativos brasileiros, tanto para investidores da casa como de fora. Confira o que explica o voo do Ibovespa nos últimos meses — e o que pode vir pela frente.
Batelada de dados lá fora
"Os principais fatores que mexem na bolsa de valores brasileira sempre serão globais. O mercado aqui depende muito disso", explica Ricardo Hammoud, economista e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), à CNN.
Nesse caso, o destaque unânime vai para os Estados Unidos — e a consolidação da tese de que o Federal Reserve, banco central deles, deve promover três cortes de 25 pontos-base à taxa de juros americana até o primeiro trimestre de 2026.
No dia 29 de agosto, saíram dados do PCE (Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal, na tradução do inglês), indicador de inflação preferido da autoridade monetária.
O índice teve alta de 0,2% em julho, avanço menor em relação aos 0,3% do mês anterior e em linha com as expectativas do mercado. A redução da alta foi lida por investidores como um sinal de desaceleração da economia, levando 88% dos operadores a precificar um corte de 0,25 p.p. nos juros já em setembro.
No dia 05 de setembro, outro indicador importante: Payroll. O índice, que mede o crescimento do emprego nos Estados Unidos, desacelerou em agosto, e a taxa de desemprego atingiu seu nível mais alto em quase quatro anos, indicando uma estagnação do mercado de trabalho gringo.
Má notícia aos trabalhadores, boa notícia aos economistas: menor quantidade de vagas reforçam a tese de esfriamento da economia e, portanto, de uma suavização da política monetária contracionista.
No dia 11, apesar do CPI (Índice de Preços ao Consumidor) ter subido 0,4% em agosto, acima da previsão de analistas (0,3%), os pedidos de auxílio-desemprego nos EUA também saltaram além do esperado, colocando mais lenha à fogueira do corte de juros.
Após os dados, o mercado financeiro passou a precificar em 100% a probabilidade de corte de juros pelo Fed.
No dia 15 e 16, por fim, na iminência da chamada "super-quarta" (quando ambos o Fed e BC se reúnem para definir o destino de juros dos países), investidores foram embalados pela expectativa de queda nos juros na semana lá e corte da Selic no começo de 2026 cá.
"Note que todos os dias com altas mais proeminentes têm algum dado ligado à inflação nos Estados Unidos", afirma Fernando Siqueira, head de research da Eleven.
Cortes lá, cortes cá
Uma possível tesoura nos juros brasileiros também anda fazendo preço. Observações semanais do BC (Banco Central) mostram a inflação em constante trajetória de queda, pressionando a longa curva de juro — atualmente a 15% ao ano, segunda maior taxa real do planeta — para baixo.
"Esse é um dos principais fatores macroeconômicos que levam nossos ativos de risco a performarem melhor", avalia Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos.
Esses cortes de juros, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, deslocam dinheiro que estava represado na renda fixa à renda variável, pela remuneração da primeira deixa de ser tão atrativa. Isso aumenta o fluxo de investidores nacionais e internacionais na bolsa e, naturalmente, o desempenho.
Segundo Felipe Paletta, estrategista da EQI Research, o Ibovespa também tem se beneficiado de um movimento global de fuga de capital dos Estados Unidos (cortesia do tarifaço e das incertezas causadas pelas políticas econômicas de Donald Trump, presidente empossado no começo do ano).
Inclusive, especialistas também foram unânimes ao efeito do tarifaço: a lista de quase 700 exceções à sobretaxa de 50%, em vigor desde o dia 6 de agosto, tranquilizaram o mercado, que já terminou de precificar as ações do Ibov. Ao menos por ora.
"Buscando diversificação, uma parte do dinheiro que iria ao país norte-americano se volta a mercados emergentes. Olhando para o cenário político e econômico dos Brics, o Brasil se torna o patinho menos feio", brinca Hammoud, da FGV.
"A Rússia está em guerra, a China em colisão frontal com os EUA, a África do Sul com economia enfraquecida. O Brasil acaba levando vantagem".
Dados coletados pela Consultoria Elos Ayta mostraram que, no acumulado de 2025, o saldo de estrangeiros na B3 seguia robusto: R$ 24,20 bilhões considerando ofertas de ações. Até agora, apenas abril e julho registraram saídas líquidas de capital.
"Esse comportamento mostra que, mesmo com momentos de cautela, os investidores internacionais mantêm interesse no mercado brasileiro, especialmente em um ano de corte de juros no exterior e expectativa de retomada econômica por aqui", afirmou a análise de Einar Rivero, sócio da consultoria.
Ações de peso
As perspectivas de cortes de juros impulsionaram setores mais sensíveis à atividade econômica brasileira. Entram aqui: setor imobiliário, varejo e as chamadas small caps — ações de empresas com baixo valor de mercado na bolsa (e, portanto, mais suscetíveis às suas variações).
"São indústrias que se beneficiam muito quando mudam de um ambiente com taxas de juros futuras altas a um ambiente com percepção de redução de taxas de juros futuras", explica Thiago, da Dom Investimentos.
"O cenário é benigno para as empresas. Taxas de juros menores levam a custos menores, o que aumenta a margem de lucro", explicou Gabriel Mollo, analista de investimento da Daycoval Corretora, em entrevista ao CNN Money.
"O mercado é um grande processador. À medida que a economia vai mostrando que as empresas terão mais lucro no futuro, o mercado processa isso e aumenta os preços", acrescenta.
Em relação às blue chips, o destaque vai para as ações de bancos, que sobem em bloco. As ações do Itaú (ITUB4) subiram mais de 40%, enquanto do Bradesco (BBDC4) mais de 50% e, do BTG Pactual (BPAC11), mais de 70%.
Segundo Mollo, à medida que os juros caem, a inadimplência também segue a mesma linha. Por estarmos lidando com um problema relacionado a isso, as perspectivas de cortes tiram essa pressão e melhoram a performance dos bancos.
"Os agentes econômicos tentam antecipar o movimento dos juros: afinal, nenhum bom gestor vai comprar ações no momento da queda. Para lucrar, é necessário antecipar, que é o que está acontecendo no momento", adiciona o professor da FGV.
Em relação às ações de peso relacionadas a commodities, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), o especialista entende que o cenário é complexo.
"Ainda estamos vendo o desenrolar do fim da guerra da Rússia e Ucrânia; Israel segue comprometido com a guerra contra o Hamas. Todo esse cenário ainda é instável e reflete no preço do petróleo e minério de ferro", afirmou.
"Não sei se os dados econômicos serão superiores ao risco geopolítico. Acho que ele vai fazer mais preço do que as commodities".
Em 2026
Falando nele, para o ano que vem, o esperado é que uma eleição que Calestine chama de "pró-mercado" — vide, à direita do espectro político — gere uma descompressão generalizada dos ativos.
No dia 28 de agosto, o índice fechou em alta de 1,32%, aos 141.049 pontos, chegando a bater recorde intradia. Além de um cenário externo favorável, uma pesquisa da AltlasIntel indicou que Lula perdeu vantagem e Tarcísio passou a liderar cenário de 2º turno para 2026.
"Isso pode fazer com que nosso mercado volte a figurar entre as principais opções de investimento dentre os investidores estrangeiros", adiciona Mollo. Mas com a ressalva: em ano eleitoral, volatilidade se torna lei. Quedas ou subidas colossais dependem, via de regra, do resultado das urnas.
"Há uma chance boa dos 150 mil pontos. Manter essa alta em 2026 é outra história", finaliza Hammoud.


