IA cresce em apps de namoro e ameaça comunicação humana, diz especialista
Especialista em IA, Álvaro Machado analisou o impacto do uso da inteligência artificial em chamadas telefônicas e 'paqueras' na conexão humana
Um novo recurso do Gemini, assistente de inteligência artificial do Google, permite que a IA realize chamadas telefônicas no lugar do usuário. A funcionalidade, ainda em fase experimental nos Estados Unidos, possibilita que o assistente ligue para restaurantes, clínicas e outros estabelecimentos para realizar tarefas como agendamentos e reclamações.
Pelo histórico de lançamentos da empresa, a tendência é que a novidade chegue em breve ao Brasil.
Como funciona o recurso do Gemini
O assistente do Google realiza a ligação de forma autônoma, conduzindo a conversa com o interlocutor do outro lado da linha. Em muitos casos, quem atende também é uma máquina.
O especialista em IA e colunista da CNN Brasil Álvaro Machado explica que o Brasil tem grande receptividade para esse tipo de tecnologia. "A gente abraçou o WhatsApp e fugiu do telefone", afirmou, referindo-se às situações em que ainda é necessário ligar, como para marcar consultas ou reclamar com operadoras de serviço.
Ele destacou que, caso o recurso chegue ao Brasil, as máquinas inicialmente se comunicarão em português, com trejeitos e pausas que imitam a fala humana. No entanto, com o tempo, a tendência é que as IAs passem a se comunicar diretamente entre si, de forma mais eficiente e sem necessidade de linguagem humana.
"A proposta do Google, desde o começo, traz uma transcrição. Com o tempo, as máquinas vão se relacionando de formas que a gente nem consegue acompanhar", explicou.
Impacto da IA nos relacionamentos
O comentarista alertou para um possível desequilíbrio gerado pela tecnologia. Em situações em que os interesses das partes numa ligação não são os mesmos — como na escolha de uma mesa em um restaurante —, o resultado favorecerá quem tiver a inteligência artificial mais capacitada.
"A gente vai começar a ter uma espécie de assimetria na capacidade de realizar as coisas em função da qualidade da inteligência artificial que cada um tem", disse Machado .
A IA também impacta nos relacionamentos.
Segundo um estudo da Norton, 60% dos solteiros afirmam já ter recebido uma mensagem gerada por IA. Já de acordo com o projeto Singles in America (Solteiros na América), do Instituto Kinsey, o número de pessoas que declaram ter utilizado inteligência artificial em interações em apps de paquera cresceu 333% de um ano para o outro.
Para o comentarista, a tendência é que as relações avancem para uma primeira etapa mediada por máquinas, com a conexão humana ocorrendo apenas em um segundo momento. "A coisa começa no transacional, no telefone para resolver um problema, mas ela termina onde as emoções são incômodas", analisou.
O risco de "desaprender" a se comunicar
Álvaro Machado Dias também chamou atenção para um risco mais profundo: o de que as pessoas passem a depender da IA para se expressar de forma articulada, inclusive na voz.
"É muito provável que haja uma contribuição para que as pessoas também desaprendam a falar, a se comunicar de maneira relevante do ponto de vista da conexão humana", afirmou.
Para ele, embora a tecnologia tenha aspectos positivos, ela também representa um perigo existencial para as relações humanas.

