Dólar a R$ 5,20: Câmbio deve sofrer forte volatilidade à espera de eleições
Mercado aguarda luz sobre ajuste fiscal, enquanto exterior também pesa contra real; retrovisor mostra como período pré-eleitoral gera instabilidade nos negócios

A menos de uma semana do primeiro turno das eleições gerais de 2026, a montanha-russa do câmbio sobe e desce no Brasil.
Analistas ouvidos pelo CNN Money apontam que o câmbio deve se manter volátil nas próximas sessões, enquanto o mercado interpreta os resultados das últimas pesquisas eleitorais antes do primeiro domingo do pleito, enquanto o noticiário internacional também contribui para a incerteza do mercado.
O dólar voltou a ultrapassar a barreira dos R$ 5,20 na segunda-feira (28), pela primeira vez em pouco mais de um mês. No pregão anterior, havia fechado em baixa, a R$ 5,18.
Na busca por um consenso, o boletim Focus aponta que a mediana do mercado vê a divisa encerrando o ano na casa dos R$ 5,20. Mas, quando questionados, os agentes econômicos evitam cravar qualquer aposta.
"Não dá para dizer que há uma tendência clara para o dólar até o final de 2026. O que podemos esperar é um cenário de bastante volatilidade", observa Juliana Benvenuto, coordenadora de alocação e inteligência da Avenue.
"Mesmo com a alta recente, o dólar ainda acumula queda de mais de 5% no ano, e o real segue entre as moedas que mais se valorizaram globalmente em 2026."
O consenso que há de fato entre os especialistas ouvidos pela reportagem é de que o "cenário ainda tem bastante incerteza", como reforça Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
E um dos principais fatores no radar é o próprio pleito. Já neste domingo (4), os eleitores irão pela primeira vez às urnas para decidir quem serão seus representantes no poder público a partir de 2027.
Eleição e fiscal
A tensão propriamente dita não é em relação às eleições em si, mas sim com o que o resultado delas vai significar para o quadro macroeconômico do país. Sobretudo, o cenário fiscal.
Olhando para disputas anteriores, o Goldman Sachs destacou em relatório de 23 de setembro como o dólar se "moveu significativamente" ante o real à medida que o primeiro turno se aproximava.
Em um exercício de "decomposição" do comportamento do câmbio nas últimas três eleições presidenciais, o Inter apontou como fica "claro a elevada influência que o risco fiscal-eleitoral tem sobre a determinação da taxa de câmbio".
"Notícias de cunho fiscal tem elevado peso nas oscilações diárias da taxa de câmbio e da curva de juros", escreveram os analistas do banco em relatório do dia 17 de setembro.
"Com a aproximação do período eleitoral, as notícias que alteram as probabilidades de vitória que o mercado imputa a cada candidato passam a ter maior relevância, tendo em vista o caráter forward looking do mercado, que já antecipa a provável política fiscal do candidato favorito, impactando os preços hoje."
Olhando para os 30 dias antes e após o segundo turno de cada ciclo eleitoral, o Inter estimou que o fiscal contribuiu como prêmio de risco, desvalorizando o real entre 2% e 4% nas três disputas mais recentes.
Carlos Henrique Silva Junior, strategic advisor da corretora de câmbio da Freex, ressalta que "a leitura mais prudente" é de que o câmbio deve seguir sem uma direção linear até dezembro.
"Qualquer dúvida sobre fiscal, eleição ou governabilidade tende a aumentar o prêmio de risco exigido para ativos brasileiros", pontua Silva Junior.
Em um "desfecho eleitoral percebido como amigável ao mercado e propício a uma postura fiscal mais rigorosa", o Goldman Sachs vê como "plausível" o dólar se comportando na faixa de R$ 4,50 a R$ 4,80.
"Embora um status quo fiscal — que não piore a situação atual — ainda possa permitir algum fortalecimento após uma liquidação, esse é um caminho mais arriscado, dado que o desequilíbrio fiscal inicial é grave e o cenário de taxas globais é menos favorável", pontuam os analistas do banco em relatório desta segunda.
Cenário exterior
Mas o problema não está só aqui. "Quando fala de dólar tem que levar em consideração que é a variável macroeconômica que mais sofre por influência externa. Se o dólar global está forte, o real [perde], mesmo que as condições locais estejam boas. E vale a volta", esclarece Tomás Urani, head de estratégia macroeconômica do Santander.
O banco vê o dólar fechando o ano em R$ 5,30 - um pouco acima do que ronda nos últimos dias e da mediana do mercado. Urani aponta como riscos, para além da falta de compromisso fiscal dos candidatos à Presidência, a expectativa de que a moeda fique mais forte no exterior.
Com a guerra dos Estados Unidos contra o Irã mantendo os preços de energia nas alturas e a pressão inflacionária pesando para novas altas de juros pelo Federal Reserve, a tendência é de que o investidor busque proteção no dólar e nos títulos do Tesouro norte-americano.
A falta de solução no curto prazo nos conflitos no Oriente Médio aumenta as expectativas de inflação global, pressionado os juros nos EUA e fazendo com que os Treasuries atinjam níveis não vistos há praticamente duas décadas.
Olhando para a apreciação recente do dólar, o economista do Santander avalia que este "é muito mais um feito externo que doméstico". Olhando para como outras divisas têm se comportado frente à moeda norte-americana, aponta como o real apresenta uma performance relativamente melhor.
Ainda assim, o consenso não sai da incerteza.
"O cenário está muito sujeito ao noticiário, em especial de conflito no Oriente Médio ou relacionado às eleições no Brasil. Os indicadores econômicos aqui e nos EUA também contribuem para a volatilidade do cenário", reforça Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos.
"A tendência é seguirmos com um cenário de volatilidade alta ao longo de todo o mês de outubro", conclui. A ver.


