Os novos desafios dos BCs com a venda em massa no mercado de títulos

Rendimento do Tesouro americano de 30 anos atinge maior nível desde 2007, enquanto investidores reagem à inflação e aos déficits governamentais crescentes

John Towfighi, da CNN
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As preocupações dos investidores com uma série de questões, da inflação aos elevados déficits governamentais, estão impulsionando uma venda em massa no mercado de títulos, criando um problema para os formuladores de políticas e elevando os custos de empréstimos para governos e consumidores.

O rendimento do Tesouro americano de 30 anos atingiu 5,34% na terça-feira (18), seu nível mais alto desde 2007. O rendimento de 10 anos chegou a 4,74%, pairando próximo ao nível mais alto do segundo mandato do presidente Donald Trump.

Os rendimentos dos títulos sobem quando os preços caem. Os investidores estão vendendo títulos, pressionando os preços para baixo e elevando os rendimentos.

Os rendimentos dos títulos ajudam a definir as taxas de juros em toda a economia. O rendimento de 10 anos influencia as taxas de hipotecas, empréstimos para automóveis e taxas de empréstimos empresariais.

Rendimentos mais altos se traduzem em condições financeiras mais restritivas, o que pode pesar sobre os consumidores e limitar o investimento empresarial.

Os rendimentos dos títulos em diversas economias estão disparando para seus níveis mais altos em anos, enquanto os investidores lidam com uma combinação de fatores, da inflação persistente ao aumento dos déficits governamentais e a uma onda de novas emissões de dívida corporativa.

Por um lado, a venda em massa reflete as preocupações de longa data dos investidores com os gastos governamentais descontrolados e os déficits crescentes. Os rendimentos estão subindo à medida que os investidores exigem maior compensação pelo risco de emprestar dinheiro a governos em meio a um cenário de finanças mais instáveis.

Mas a angústia no mercado de títulos foi agravada este ano pela guerra EUA-Israel com o Irã e pela disparada nos preços do petróleo. O Brent subiu acima de US$ 91 por barril na terça-feira. Os investidores estão exigindo um rendimento mais alto nos títulos para compensar o risco de a inflação corroer seus retornos.

A guerra com o Irã também abalou os títulos à medida que os investidores avaliam o impacto da disparada nos preços do petróleo e a possibilidade de que os bancos centrais possam manter as taxas de juros mais altas por mais tempo, ou até mesmo elevá-las, para combater a inflação.

"A piora da situação no Oriente Médio é provavelmente um fator no agravamento das preocupações com a inflação e com a posição fiscal dos EUA", disse Derek Halpenny, chefe de pesquisa de mercados globais do MUFG, em nota.

"Permanece zero o apetite nos EUA para lidar com a posição fiscal americana, e isso está pesando cada vez mais sobre a extremidade longa da curva", disse Halpenny.

Os títulos do governo também estão sob pressão devido a uma onda de novas emissões de dívida por empresas, incluindo companhias de tecnologia focadas em inteligência artificial.

Empresas de tecnologia estão emitindo dívida para financiar a construção de infraestrutura de IA, e esses títulos competem com os títulos do governo pela atenção dos investidores.

A menor demanda por títulos do governo derruba os preços, o que eleva os rendimentos.

"O endividamento dos hyperscalers para financiar a infraestrutura de IA está competindo pelo mesmo grupo de compradores no exato momento em que os governos mais precisam desses compradores", disse Nigel Green, CEO do deVere Group, em nota.

"Coloque dois tomadores urgentes de empréstimo em um único mercado e o preço da paciência sobe para todos."

Wall Street também está se ajustando ao mandato de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve. Embora uma mudança de liderança no Fed possa desencadear alguma volatilidade no mercado de títulos, a abordagem de menor comunicação do presidente Warsh aumentou a incerteza sobre como o banco central reagirá à inflação e a outros choques econômicos.

E sua recusa em fornecer orientações prospectivas deixa os investidores com menos clareza sobre para onde as taxas de juros dos EUA estão se encaminhando.

Venda generalizada global

A alta do rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos para o nível mais alto em 19 anos faz parte de um mal-estar mais amplo nos mercados globais de títulos.

Na França e na Alemanha, os rendimentos dos títulos de 10 anos atingiram esta semana seus níveis mais altos desde 2008 e 2011, respectivamente. No Japão, o rendimento de 10 anos atingiu seu nível mais alto em 30 anos.

Para os títulos do governo, o rendimento é a taxa de juros que o governo paga aos investidores em títulos — ou seja, o custo de captação de recursos pelo governo. A venda generalizada de títulos globais está elevando o custo de captação para os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, do Japão e de outros países.

"O mercado está respondendo a um mundo de maior incerteza fiscal, geopolítica e de política econômica, exigindo uma compensação mais alta para manter dívidas de longo prazo", disse Jonas Goltermann, economista-chefe de mercados da Capital Economics, em nota.

A alta nos rendimentos dos títulos cria complicações para os formuladores de políticas à medida que os governos enfrentam o crescimento da dívida. Nos Estados Unidos, a dívida nacional está se aproximando do recorde de US$ 40 trilhões.

Uma alta nos rendimentos dos títulos também pode pressionar o mercado de ações. Rendimentos mais elevados podem afastar os investidores das ações, além de alterar os cálculos dos analistas sobre o valor dos papéis.

As ações americanas fecharam em queda na terça-feira: o S&P 500 recuou 0,5%, e o Nasdaq Composite, de forte presença tecnológica, caiu 1%.

O rendimento do título do Tesouro de 30 anos era negociado em torno de 4,7% em fevereiro, antes da guerra com o Irã, antes de subir nos últimos meses acima de 5,3%, atingindo seu nível mais alto desde 2007.

"Os títulos estão em movimento: uma alta acentuada nos rendimentos dos títulos do governo ao redor do mundo pode começar a representar uma ameaça às avaliações de ações e tornar a vida ainda mais difícil para nações altamente endividadas e formuladores de políticas", disse Neil Wilson, estrategista do Saxo Markets, em nota.

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