Treasuries: O que são, como rendem e por que atingiram recorde após 19 anos
Na última semana, rendimentos dos títulos de 30 anos atingiram nível mais alto desde 2007

Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries estão disparando à medida que investidores colocam na balança os custos das incertezas globais causadas pelo governo do presidente Donald Trump.
Na última semana, o retorno dos papéis de 30 anos chegou a 5,2%, maior patamar visto em 19 anos. Já os títulos de 10 anos, usados por muitos analistas como referência, também renovaram máximas recentes, movimento que reflete o aumento das incertezas fiscais e geopolíticas.
A alta dos ativos do Tesouro norte-americanos pode ser explicada pelos conflitos entre Estados Unidos e Irã, que tem provocado uma forte pressão sobre os mercados globais de títulos.
O movimento é atribuído tanto aos impactos da guerra no Oriente Médio, que altera a dinâmica de inflação e de gastos públicos, quanto ao receio de que grandes economias estejam com suas contas públicas fora de controle e sem capacidade de correção no curto prazo.
Para especialistas ouvidos pelo CNN Money, o movimento representa uma mudança relevante na dinâmica do mercado. "A escalada representa um terremoto silencioso na estrutura de capital global", cita Daniel Borges, CEO da Route Investimentos.
Os Treasuries são considerados ativos de baixo risco, já que contam com a garantia do governo americano. Eles funcionam como referência para investidores ao redor do mundo e ajudam a determinar o custo do dinheiro na economia global.
Segundo Maurício Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, existe uma relação inversa entre preço e rendimento desses títulos. Ou seja, quanto maior a percepção de risco ou incerteza na avaliação dos investidores, maior tende a ser o rendimento desses papéis. Nesse contexto, os títulos públicos norte-americanos têm ficado cada vez mais caros no julgamento de quem aplica o dinheiro.
Além de fazerem parte de um mercado avaliado em mais de US$ 30 trilhões de dólares, os Treasuries servem como base para a precificação de ativos globais e funcionam como termômetro para a taxa de juros do Fed (Federal Reserve), o banco central dos EUA. Quando os rendimentos disparam, o sinal é de alerta - por isso, essa alta é acompanhada de perto pelos mercados.
“Caso os rendimentos permaneçam em patamares elevados, há potencial de valorização para investidores que entrarem nesses níveis, os mais altos em cerca de 20 anos, sobretudo para aqueles com horizonte de longo prazo”, afirma Garret.
Por outro lado, ele destaca que fatores como inflação persistente, déficits fiscais sem solução clara e a fragmentação geopolítica continuam pressionando a demanda pelos títulos.
Apesar disso, os brasileiros ainda investem pouco em moeda forte. Segundo Borges, apenas cerca de 1,75% do patrimônio dos brasileiros está aplicado em ativos de dinheiro estável.
Os Treasuries, por exemplo, sempre estiveram à margem do interesse brasileiro. Afinal, com juros elevados, o Brasil pode ser considerado o país da renda fixa.
Mas com o dólar a R$ 5 e as taxas de juros dos títulos americano próximas a 5% ao ano, esse momento pode significar o início de uma maior diversificação na carteira de investimentos do brasileiro.
"Durante mais de uma década, os juros americanos ficaram próximos de zero. Hoje, o investidor consegue encontrar uma remuneração em dólar sem necessariamente precisar assumir tanto risco", explica Borges.
Segundo o executivo do Inter, se a busca do investidor é por proteção cambial e diversificação geográfica, o cenário atual coloca os Treasuries como uma alternativa interessante, independentemente do diferencial de juros.
Para Garret, o investidor brasileiro pode acessar Treasuries de três formas principais:
- Por meio de corretoras internacionais, compra direta dos títulos no mercado americano;
- Via BDRs (Brazilian Deposit Receipts) de ETFs (Exchange Traded Funds) atrelados a Treasuries, negociados em corretoras brasileiras;
- Por meio de ETFs internacionais que investem nesses papéis e são listados nas americanas.
Assim como os brasileiros, os títulos norte-americanos possuem diversas modalidades, com prazos de curto, médio e longo prazo.
Segundo a Bolsa de Valores brasileira, responsável pela comercialização desses ativos no país, existem cinco tipos de Treasuries, com aporte inicial de US$ 100:
- T-Bills (de um mês a um ano);
- T-Notes (de dois a dez anos com pagamentos semestrais prefixados);
- T-Bonds (de 20 a 30 anos com juros semestrais prefixados);
- Tips (indexados à inflação com investimentos de 5 a 30 anos e juros pagos semestralmente);
- FRN (títulos pós-fixados cujo vencimento é de dois anos, pagos trimestralmente, mas não possuem pagamento de cupons);
"A alternativa mais adequada depende do perfil do investidor, do nível de liquidez desejado e da estrutura de custos envolvida", explica o especialista do Inter.
O movimento continua?
O chefe da mesa de operações internacionais do Inter afirma que, mesmo com os patamares elevados e um potencial de valorização, os riscos seguem no radar.
"Como a inflação pode demorar mais para convergir, os déficits fiscais continuam sem uma solução clara e a fragmentação geopolítica pode seguir pressionando a demanda por Treasuries", explica Garret.
O especialista ainda aponta que "movimentos de países como a China, que vêm reduzindo sua exposição ao dólar em busca de alternativas, reforçam esse contexto". Esse movimento cria uma perspectiva de um mercado mais volátil, mas que pode oferecer oportunidades pontuais para investidores com visão de longo prazo e maior tolerância a oscilações.


