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    Sem educação financeira, ofensiva do governo contra dívidas pode resultar em inadimplência e até inflação

    Para a Frederike Mette, uma das estratégias possíveis para evitar que as famílias voltem a se endividar no longo prazo seria o incentivo à educação financeira

    Sobre a taxa básica de juros, a instituição avalia que o Copom indicou o fim do ciclo de altas da Selic em 13,75%
    Sobre a taxa básica de juros, a instituição avalia que o Copom indicou o fim do ciclo de altas da Selic em 13,75% José Cruz/Agência Brasil

    Da CNN*da CNN

    São Paulo

    O governo federal lança nas últimas semanas uma ofensiva para renegociar dívidas da população — com programas como o Desenrola Brasil e o Renegocia!. Diretora acadêmica nacional de negócios e tecnologia da ESPM, Frederike Mette afirma que, sem estratégias para o longo prazo, a medida pode resultar no avanço da inflação.

    “Se os programas não pensarem em estratégias que vão além de uma renegociação de dívidas junto às instituições, as pessoas tendem a se endividar mais, gerando inadimplência e inflação. Ou seja, esta estratégia somente funciona a curto prazo gerando liquidez ao mercado”, explica.

    Para a especialista, uma das estratégias possíveis para o longo prazo seria o incentivo à educação financeira. “Desta forma, é possível ajudar a população a ter organização e controle financeiro, o que pode reduzir essa ‘volta’ ao endividamento”, explica.

    Rafael Quaresma, professor de Relações de Consumo e Cidadania da Strong Business School, reitera o caráter “paliativo” das medidas. O especialista destaca que as ações são positivas, mas que não combatem “as causas” do endividamento, apenas “minimizam efeitos”.

    “Qual é o grande ponto positivo? Essa reinserção no mercado de consumo. Mas não há empoderamento do consumidor. Não se está, por exemplo, aumentando o poder de compra do consumidor e aí sim incrementando a economia de uma forma mais sólida”, indica.

    Ricardo Teixeira, coordenador do MBA de Gestão Financeira da FGV, acredita que o programa não deve gerar uma espiral inflacionária. Mas reitera a importância da educação financeira como estratégia para fortalecer a efetividade da iniciativa do governo.

    “As próprias instituições que estão fazendo as renegociações poderão oferecer este tipo de suporte, para que as pessoas entendam que o que está sendo feito agora não necessariamente acontecera no futuro e se elas se tornarem reincidentes a situação pode ficar mais difícil”.

    Economista e consultor de empresas, Marcelo Brunetti Penteado também não acredita na inflação de consumo como um possível resultado negativo para o projeto. Segundo o especialista, a maior parte da indústria e do varejo tem estoques suficientes para evitar esse efeito.

    Efeitos são positivos no curto prazo

    Enquanto o Desenrola Brasil teve início na última semana, o mutirão do Renegocia! começou nesta segunda-feira (25). O primeiro visa, inicialmente, dívidas bancárias e conta com limites de endividamento e renda; o segundo, foca a prevenção ao superendividamento e não possui tais limites.

    Frederike Mette explica que os programas têm o mesmo objetivo: “buscam auxiliar os brasileiros no a renegociarem suas atuais dívidas com o objetivo de limpar o nome e ajudá-los a retomarem o crédito junto a instituições”.

    A especialista afirma que, no curto prazo, esse movimento tende a criar “uma melhora econômica individual e nacional”. Ele reitera, contudo, que a possibilidade de retornar ao mercado de crédito pode fazer com que os brasileiros se endividar ainda mais, criando uma “bola de neve”.

    Para Rafael Quaresma, no curto prazo as consequências são extremamente positivas. Como estratégias para que os consumidores consigam de fato arcar com suas obrigações sem que haja a tal “bola de neve”, ele destaca a importância de o devedor negociar sua dívida diretamente com o credor.

    “O que o consumidor deve ficar atento é que ele não pode contrair uma nova dívida para pagar a antiga. Isso é, como se diz, “enxugar gelo”. O consumidor resolve momentaneamente o problema, mas não em definitivo, e pode voltar a esta situação”, explica.

    Já Ricardo Teixeira indica que as pessoas devem apenas “assumir compromissos que tenham convicção que são capazes de cumprir”.

    “Logicamente, daqui em diante é importante fazer um bom planejamento financeiro para não voltar no futuro a uma situação semelhante”.

    Para Brunetti Penteado, o Desenrola Brasil tem potencial para oxigenar especialmente a economia local, possibilitando a volta de parte das pessoas que estão com o nome sujo ao mercado de crédito.

    “Entendo que os projetos estão bem amarrados, não vejo possibilidade de resultados negativos. A capacidade de endividamento renovada das pessoas, com educação financeira”, aponta.

    Diferenças entre Renegocia e Desenrola

    O Desenrola visa a renegociação de dívidas bancárias de até R$ 5 mil, nas quais a renda do consumidor não deve ultrapassar R$ 20 mil. Já o Renegocia não trabalha com limitações e inclui o acerto de débitos com contas de consumo — como energia e telecomunicações — e lojas.

    Além disso, as negociações no Renegocia são acompanhadas e monitoradas pelos órgãos de defesa do consumidor — diferentemente do Desenrola.

    O Renegocia é um mutirão de negociação de dívidas organizado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

    *Publicado por Danilo Moliterno.