Aposta contra humanos: altos custos trabalhistas valorizam ações de empresas de IA em Wall Street

Além de desenvolvedoras de tecnologia, companhias que apresentam pressões menores em relação à mão de obra - como Tesla e Coca Cola - também se destacam

Nicole Goodkind, da CNN, Nova York

Cerca de 300 milhões de vagas de empregos a tempo integral poderão desaparecer (ou diminuir consideravelmente) no mundo inteiro devido ao boom da inteligência artificial (IA), estima a Goldman Sachs.

Com a tendência, alguns investidores passaram a apostar no desenvolvimento de programas de IA. E retornos decentes já estão começando a aparecer.

O motivo apontado por alguns traders é que o mercado trabalhista gera muitos gastos. Para eles, à medida que a mão de obra fica mais cara, são necessárias alternativas.

Disparada de ações

As ações da fabricante de chips norte-americana Nvidia subiram impressionantes 234% em 2023. A valorização e a aventura com tecnologias de IA também refletem nas vendas da companhia, que dobraram no 2º trimestre em comparação com o 1º.

Já os papéis da Alphabet subiram 53%, e os da Microsoft, cerca de 37%. E isso não é coincidência, as ações de IA como um todo estão disparando – o Nasdaq Composite, de alta tecnologia, subiu cerca de 33% este ano.

O que está por trás de investir na IA?

Por um lado, argumenta-se que apostar em empresas que desenvolvem inteligência artificial é um investimento em inovação e produtividade. Para outros, a tecnologia não passa de ferramentas para substituir trabalhadores humanos.

E cerca de dois terços dos norte-americanos compõem o grupo de pessoas preocupadas com a possibilidade de a IA tomar os seus empregos, de acordo com uma pesquisa da Morning Consult.

A razão é válida: cerca de um quinto de todos os trabalhadores dos Estados Unidos têm empregos nos quais as atividades mais importantes podem ser substituídas ou assistidas pela IA, de acordo com a Pew.

Os investidores que jogam nessa aposta argumentam que a mão de obra está cara e vem ficando cada vez mais difícil de custear.

Economia fragilizada

Embora a inflação nos Estados Unidos tenha diminuído e outros dados apontem para um arrefecimento da economia, o mercado de trabalho manteve-se resiliente.

Para as autoridades do Federal Reserve (Fed), a situação é alarmante.

Funcionários do Banco Central dos EUA falaram publicamente sobre os seus receios de uma "espiral salário-preço" – o ciclo de feedback que aumenta a inflação à medida que as pessoas ganham mais dinheiro e saem para o gastar.

A situação também é má vista por acionistas.

Os custos trabalhistas aumentaram 9% ano após ano para as empresas do S&P 500 no último trimestre e foram iguais a cerca de 13% das receitas, em média, de acordo com analistas do Goldman Sachs em um relatório recente. A equipe não vê esses números diminuindo tão cedo.

Além disso, os analistas do Goldman descobriram que nem todas as empresas são afetadas igualmente.

De acordo com a pesquisa, os ganhos das ações medianas do S&P 500 poderiam aumentar em 18% se as empresas automatizassem totalmente as funções que podem ser desempenhadas pela IA, assim deixando de pagar salários.

As empresas norte-americanas normalmente não divulgam os custos laborais, mas o Goldman analisou as despesas salariais de cada empresa compilando dados sobre o número de empregados e a remuneração média.

As apostas contra humanos

O Goldman Sachs criou um índice que inclui as empresas do S&P 500 com os custos trabalhistas mais baixos em comparação com a receita — Live Nation, Coca-Cola, Tesla, Nike, Netflix e Apple estão entre as 50 empresas da lista.

Os analistas observaram que, durante a maior parte do ano, as empresas tiveram um desempenho inferior ao do S&P 500 em nove pontos percentuais.

Mas as coisas mudaram em junho. O conjunto começou a ter um desempenho muito bom e superou o S&P 500 em três pontos percentuais no verão norte-americano.

“Os dados econômicos surpreenderam positivamente e, com o crescimento resiliente, os investidores mudaram o seu foco para o risco de pressões inflacionárias subjacentes”, escreveram os analistas do Goldman.

Estas empresas apresentam uma “oportunidade atraente para se protegerem contra este risco de pressões salariais sustentadas e inflação”.

Menos exposição a trabalhadores humanos significa, basicamente, margens de lucro mais elevadas.

Veja também: Inteligência artificial pode acabar com 27% dos empregos em países da OCDE

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