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    Tom da ata do Copom sustenta otimismo do mercado para o segundo semestre, dizem especialistas

    Ao confirmar que intenção do Banco Central é manter cortes em 0,5 ponto, documento abafa expectativas de quem esperava uma redução mais rápida dos juros

    Setores mais sensíveis ao crédito, como o varejo, podem se beneficiar logo da queda dos juros
    Setores mais sensíveis ao crédito, como o varejo, podem se beneficiar logo da queda dos juros Tânia Rêgo /Agência Brasil

    Iasmin Paivada CNN*

    São Paulo

    A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) afastou qualquer expectativa de um ciclo de cortes de juros mais agressivo, como o mercado chegou a especular. O cenário para a bolsa de valores, porém, é positivo, segundo analistas ouvidos pela CNN.

    Na ata da última reunião, divulgada nesta terça-feira (8), o Copom afirma que irá manter em 0,5 ponto o ritmo de cortes da Selic nas próximas reuniões. O Banco Central cortou a taxa básica de juros em 0,5 ponto, para 13,25% ao ano, na quarta-feira (2).

    Novos cortes da mesma magnitude vão ao encontro da estimativa do mercado, que espera Selic de 11,75% ao fim de 2023, segundo o último Boletim Focus.

    Diante do cenário mais favorável para o consumo — uma vez que juros menores beneficiam o crédito — setores cíclicos e sensíveis aos juros devem se beneficiar especialmente do início do clico de cortes, como é o caso dos segmentos do varejo, construção e locação de automóveis.

    Para Gustavo Cruz, Estrategista Chefe da RB Investimentos, a demanda do setor de construção, por exemplo, cresce à medida que os juros caem, já que construtoras e incorporadoras têm suas vendas muito dependentes do crédito.

    “Embora as empresas estejam reportando bons resultados, os juros fazem a diferença para seus consumidores”, reforça Cruz. Neste caso, o aumento da demanda é que deve melhorar o resultado destas empresas.

    Já as locadoras de carros enfrentam uma situação diferente, já que elas se encontram em alto grau de endividamento. Para elas, o recuo dos juros beneficia seus resultados, melhorando margens e tornando os papeis mais atraentes para o investidor.

    Sobre o varejo, Felipe Izac, sócio da Nexgen, avalia que as empresas têm “enfrentado algumas dificuldades para reagir”, após um ciclo longo de aperto monetário e retração do consumo. Mas, olhando para o histórico do setor, “é esperado que a gente possa ver uma reação positiva daqui para frente”, avalia. 

    Para o analista, o que ainda precisa ser olhado mais de perto é em quanto tempo e qual será o tamanho da reação das ações das varejistas ao início do ciclo de redução de juros.

    Mas, no longo prazo, a expectativa é de queda do endividamento e melhora do consumo, aliviando a pressão sobre as margens. 

    Tom mais duro

    Apesar de ajudar a sustentar o otimismo do mercado para o segundo semestre, os especialistas ouvidos avaliam que o documento de hoje tem um tom mais duro “para tentar compensar o fato de terem começado o ciclo de cortes de um modo um pouco mais agressivo que o esperado”, avalia Marco Caruso, economista-chefe do PicPay. 

    Reginaldo Nogueira, diretor sênior do Ibmec, concorda que a ata refletiu uma preocupação “muito grande” do comitê de não deixar que o corte de 0,5 ponto e o início do ciclo sejam tomados como uma visão muito otimista do cenário de inflação. 

    “O Copom construiu um cenário complicado, mas na ata eles afirmam acreditar que ainda dá para seguir com afrouxamento monetário mesmo que isso não signifique que o cenário está otimista”, avalia o economista.

    No documento, o Copom alerta para as dificuldades que alguns bancos centrais no mundo ainda encontram para controlar de forma firma a inflação, especialmente os núcleos dos índices de preço.

    Ainda segundo Nogueira, como apontou o Focus, o atual cenário já era esperado pelo mercado, e a ata apenas “mandou não se empolgar demais” com as perspectivas para cortes nos juros. 

    Caruso, do PicPay, avalia que essa foi a maneira que “o Copom encontrou de começar com cortes mais agressivos, mas não deixar que a curva [de juros] entrasse em um ‘vale tudo’ de colocar ritmos de cortes muito grandes”, explica. 

    Com isso, o cenário para o mercado continua positivo até o final do ano, pontua Gustavo Cruz. Segundo o analista, a bolsa deve ter um segundo semestre otimista este ano, a partir do cenário que está desenhado pelo Copom.

    “A renda variável deve vir melhor no segundo semestre, investimentos de renda fixa vão começar a pagar menos, o que deve despertar uma curiosidade de uma parcela de investidores por outras classes de ativos”, avalia.  

    Por outro lado, ele alerta para um câmbio “menos propicio à valorização” nos próximos meses.

    “O período de valorização do real já passou, a moeda agora deve ficar mais volátil, e cada corte vai deixando o real menos valorizado, enquanto a renda fixa fica menos interessante”, explica.   

    Inflação é o ponto-chave

    Giovanni Bianchi, trader do BR Partners, explica que, o potencial de aceleração do ritmo de corte de juros dependerá de alguns fatores, como a reancoragem mais forte das expectativas inflacionarias, a ampliação mais acentuada do hiato do produto ou uma inflação de serviços substancialmente menor.

    Hoje os membros do Copom concordaram de maneira unânime com a reancoragem apenas parcial das expectativas inflacionarias, destacou o especialista.

    Além disso, uma inflação de serviços que supera o nível compatível com a meta de inflação e atividade econômica resiliente é outro ponto de atenção da autarquia. Lembrando, ainda, que inflação mais alta prejudica o poder de compra e reduz o consumo, o que bate no resultado das empresas.

    Reginaldo avalia que a ata de hoje está “seguindo um cenário do que vai ser a política monetária até o final do ano”.

    Por isso, cabe ao mercado ficar atento aos indicadores econômicos, que devem dar sinalizações para a taxa de juros de 2024, conclui o especialista. 

    Veja também: Expectativa de cortes de 0,5 ponto na Selic é unânime entre membros do Copom