Como a literatura pode reparar os impactos do racismo em sala de aula
Autora do livro “Por Que Não Existe Flor Preta”, a educadora Janine Rodrigues propõe uma pedagogia antirracista que devolva a humanidade e o direito à infância para crianças negras

A infância é, por definição, o território das descobertas. No entanto, para as crianças negras, as barreiras do racismo estrutural costumam abreviar esse período de leveza, resultando muitas vezes em um estado de alerta e trauma precoces.
Expressões preconceituosas camufladas de "piadas", habituais no cotidiano escolar, causam impactos para a autoestima e desumanizam corpos que deveriam estar apenas se desenvolvendo.
É nesse cenário que a literatura infantil e a educação antirracista deixam de ser apenas escolhas pedagógicas e passam a ser ferramentas necessárias de reparação e acolhimento.
O desafio de humanizar a infância negra
Para a escritora e educadora antirracista, Janine Rodrigues, 44, a urgência de uma proposta pedagógica antirracista nas escolas vai além de simplesmente apontar as questões estruturais provocadas pela discriminação; trata-se de devolver a humanidade a corpos que são constantemente desumanizados pelo preconceito.
É na esteira deste amplo e complexo debate que a autora alerta para o fenômeno chamado de "descriançar", processo em que a criança negra passa a fazer escolhas de forma hipervigilante e adultizada para evitar conflitos ou rejeição.

"A educação antirracista não está atrelada somente a trazermos as mazelas e dores, mas sim em contribuir com repertórios da história e contribuições do povo negro para as sociedades (...). O racismo dentre outras coisas, desumaniza", explica Janine.
A educadora faz um alerta sobre a superficialidade na abordagem de personagens negros na literatura infantil, defendendo que a verdadeira representatividade exige profundidade pedagógica.
Para Janine, é preciso romper tanto com os estereótipos de submissão quanto com o mito da perfeição inalcançável. "Estar sempre no lugar de quem nunca erra, nunca falha, que não apresenta nenhuma fragilidade, é desumano", afirma.
Por isso a autora defende que o foco central deve ser o direito à humanidade, garantindo que "crianças negras e brancas precisam e têm o direito de ver pessoas negras em espaços onde é possível ser gente".
Literatura e botânica contra o racismo
Em meio ao contexto do racismo em sala de aula, a escritora lançou o livro “Por Que Não Existe Flor Preta", obra que cruza botânica, história e conscientização.
O livro infantil, ilustrado por Ann Muanaw, rompe os padrões do mercado ao ser publicado inteiramente em preto e branco. De acordo com a autora, a escolha estética tem como objetivo ressignificar a cor preta, historicamente associada à negatividade, transformando-a em símbolo de beleza e potência.
"Muitas crianças me relataram que estavam sofrendo racismo e ouvindo 'piadas' em função desta pergunta, o que em muitas escolas virou uma espécie de charada, tendo como resposta 'porque preto não é flor que se cheire'. Ao ouvirem isso, as crianças negras sofriam."
Além do resgate lúdico, o livro traz o simbolismo histórico da Camélia — flor que foi o principal símbolo do movimento abolicionista no Brasil — e conta com a colaboração de um biólogo para explicar o fenômeno natural aos leitores.
O lançamento também marca o início do movimento Flor Preta, que reverterá parte do valor das vendas para a distribuição gratuita dos exemplares em escolas públicas e bibliotecas comunitárias.
Como enfrentar o racismo escolar?
Questionada sobre como os professores devem agir diante de episódios de discriminação em sala de aula, Janine rebate a ideia de "respostas prontas" ou de projetos sazonais que funcionam apenas sob demanda.
"Fugir do assunto ou deixar para depois também é um problema. O senso de urgência precisa existir junto com um trabalho continuado. Hoje muitas escolas ainda funcionam sob demanda; para cada ato racista, uma roda de conversa, quase que um a la carte, o que não funciona porque precisamos agir todos os dias", explica a autora.
Para a especialista, a resolução de conflitos raciais no ambiente escolar exige sensibilidade no acolhimento e a compreensão de que o impacto do trauma é desproporcional entre os envolvidos. Ela adverte que intervenções pedagógicas superficiais (como exigir um abraço forçado de desculpas) ignoram o tempo de elaboração da vítima.
"Talvez a criança que cometeu o ato racista esqueça com o tempo. O mundo não irá, todo dia, lembrá-la de que ela é branca. Mas todos os dias a criança negra é, de alguma forma, lembrada de que é negra. E, a cada lembrança, ela vai reviver esse dia."
Papel das famílias e alerta na era digital
Ainda de acordo com ela, o sucesso de uma rede de apoio antirracista depende, invariavelmente, do engajamento dos responsáveis. Janine propõe que as escolas utilizem a literatura como ponte para debates abertos com os pais, desarmando defesas para que preconceitos enraizados em casa possam ser reconhecidos e combatidos. "O que não é reconhecido não pode ser mudado", pontua.
Essa vigilância deve ser redobrada na era digital. Com o acesso massivo de crianças a telas e conteúdos sem mediação, o racismo tem se mascarado de forma sutil por meio do que é chamado de racismo recreativo.
"Nem toda violência tem cara feia ou amedrontadora, às vezes ela vem numa roupagem sedutora e se normaliza (...). O que precisamos ter em mente é que a educação antirracista é um conjunto de fazeres em que todos nós somos responsáveis: em casa, na escola, nas mídias e no trabalho."


