Entenda como a educação antirracista transforma o ensino em sala de aula

Educação antirracista ganha centralidade no Dia da Consciência Negra e impulsiona transformação institucional nas escolas

André Nicolau, da CNN Brasil
Educação antirracista ganha força como estratégia essencial para combater a discriminação étnico-racial dentro e fora da sala de aula  • Joédson Alves/Agência Brasil
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A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra nesta quinta-feira (20) reacende o debate sobre o papel da educação na construção de uma sociedade mais justa e plural.

Mais do que uma data simbólica, o 20 de novembro reafirma a necessidade de promover, desde cedo, diálogos sobre diversidade, equidade e respeito às diferenças. .

Educação no combate à discriminação

Nesse contexto, a educação antirracista ganha força como estratégia essencial para combater a discriminação étnico-racial e formar crianças e adolescentes conscientes de sua responsabilidade na construção de um país com mais equidade.

Para Léo Bento, sócio-fundador da consultoria Inaperê e doutorando em história da educação pela PUC-SP, o Dia da Consciência Negra é também um chamado para que escolas revisitem seu papel social. “A data desloca o foco da escravidão e do ‘heroísmo branco’ para a resistência, a cultura e o protagonismo do povo negro. Ela reforça a importância da Lei 10.639 e obriga as instituições a discutirem o racismo estrutural de forma séria e contínua”, afirma o educador.

A educação antirracista, porém, vai além do currículo tradicional. Exige compromisso institucional, revisão de práticas e criação de mecanismos de proteção e acolhimento. Protocolos para lidar com casos de racismo, análise crítica de materiais didáticos, diversidade no corpo docente e atividades que ampliem o repertório cultural de alunos são alguns dos caminhos para tornar a escola um espaço de justiça e pertencimento. “Educação antirracista não é só conteúdo, é postura. É transformar a escola em um ambiente que identifica desigualdades, acolhe vítimas e responsabiliza agressores”, explica Bento.

Nesse processo, especialistas na área cumprem papel fundamental para a construção de políticas educacionais consistentes. A atuação inclui diagnósticos de clima escolar, formação continuada em letramento racial, criação de Comissões Antirracistas e desenvolvimento de protocolos institucionais.

“As escolas muitas vezes não têm, internamente, o repertório técnico necessário. Nosso trabalho é oferecer essa metodologia e garantir que as mudanças não sejam pontuais, mas estruturais”, diz o especialista.

Educação antirracista para além da sala de aula

Ainda de acordo com ele, iniciativas como bibliotecas diversas, vagas afirmativas e programas de bolsas que consideram territorialidade e renda têm acelerado processos de transformação.

Os resultados aparecem tanto no ambiente escolar quanto na percepção dos estudantes. A melhoria do clima institucional, a redução de conflitos raciais e a diminuição da subnotificação de casos estão entre os avanços registrados. “Quando há resposta rápida e responsável da escola, os alunos passam a confiar mais na instituição. Estudantes negros também ganham autoestima quando se veem representados no currículo e na liderança, e isso impacta diretamente o desempenho acadêmico”, aponta Bento. Professores formados tornam-se multiplicadores, revisando práticas e ampliando o repertório pedagógico.

Apesar dos avanços, a consolidação da educação antirracista como política permanente enfrenta desafios, analisa o educador. A resistência social, a falta de preparo das licenciaturas e a descontinuidade política dificultam sua implementação.

Em algumas escolas privadas, a preocupação com marketing também limita mudanças mais profundas. “A educação antirracista confronta privilégios históricos. Por isso, ainda há quem resista. Mas é impossível falar em qualidade educacional sem enfrentar o racismo de forma direta”, afirma Bento.

Para ele, a data de 20 de novembro reforça a urgência de colocar a equidade racial no centro do projeto educativo. Mais do que celebrar a consciência negra, trata-se de garantir que crianças e jovens cresçam em ambientes onde dignidade, pertencimento e justiça sejam direitos inegociáveis. “A escola precisa ser um espaço de transformação - e a educação antirracista é o caminho para isso”, conclui.