Martinho da Vila e Emicida recebem título de Doutor Honoris Causa
Sambista foi homenageado pela Fiocruz e rapper pela UFRGS em cerimônias que destacam contribuição à cultura brasileira

Os músicos Martinho da Vila e Emicida receberam na última semana de novembro o título de Doutor Honoris Causa, a mais alta honraria acadêmica concedida por universidades e instituições de pesquisa.
O sambista de 87 anos foi homenageado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) na quinta-feira (27), no Rio de Janeiro. O rapper de 40 anos recebeu a honraria da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) no sábado (29), em Porto Alegre.
A cerimônia de concessão do título a Martinho da Vila integrou as celebrações dos 125 anos da Fiocruz e do Mês da Consciência Negra.
O título ao cantor, compositor e ritmista foi aprovado por unanimidade pelo conselho deliberativo da Fiocruz.
A instituição justificou a honraria pela discografia de Martinho, "que combina excelência estética, compromisso político e valorização da identidade cultural brasileira, especialmente da herança negra".
Nascido em Duas Barras (RJ) em 1938, Martinho José Ferreira iniciou sua carreira musical nos anos 1960. Com mais de 50 álbuns lançados, tem em seu repertório clássicos como "Canta Canta", "Minha Gente" e "Disritmia".

A conexão do músico com o universo científico apareceu em diferentes momentos. Durante a adolescência, formou-se auxiliar de química industrial. Os conhecimentos adquiridos foram resgatados para batizar o disco "Mistura Homogênea", de 2022.
Em 1992, lançou o samba "Benzedeiras Guardiãs", que destaca a sabedoria ancestral e popular no campo da saúde.
Emicida é nóiz
A cerimônia que homenageou Emicida marcou a terceira edição do Festival UFRGS Negra, que teve como tema "A Universidade é Nóiz", inspirado em frase do próprio artista.
"Hoje é um momento histórico para esta universidade que, na semana de seu aniversário, tem a oportunidade de promover o reconhecimento de outros saberes que constituíram e constituem o nosso país e que ficaram de fora das narrativas oficiais", afirmou na ocasião o vice-reitor, Pedro Costa.
O vice-reitor retomou versos de Emicida citados pela ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia em voto sobre a omissão do Estado na garantia de direitos da população negra.
"A universidade precisa dar conta das grandes questões e das grandes injustiças do nosso tempo e precisa, também, ser povoada pela presença das pessoas que foram historicamente excluídas", disse Costa.

A proposta de concessão do título a Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, foi feita pela Faculdade de Educação em conjunto com coletivos estudantis e o Movimento Negro Unificado no Rio Grande do Sul. A aprovação foi unânime no conselho universitário.
A decisão considerou a potência transformadora da cultura hip-hop, a legitimidade dos saberes produzidos na diáspora africana no Brasil e o papel da juventude negra e periférica na construção de um país mais justo.


