Análise: Lulinha, INSS e Master frearam campanha de Lula
Levantamento da Arko Advice mostra que Lula é o primeiro incumbente, desde 1998, a não melhorar sua popularidade durante a campanha
Um levantamento da Arko Advice revela que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um problema inédito para um presidente que busca a reeleição: é a primeira vez, desde 1998, que um incumbente não consegue melhorar sua popularidade durante a campanha eleitoral. Os dados, analisados a partir de pesquisas do Datafolha entre julho e outubro, mostram um cenário preocupante para o governo.
Segundo o levantamento, em julho, 32% dos brasileiros avaliavam o governo como bom ou ótimo. Em setembro, esse índice oscilou apenas dois pontos para cima, enquanto a avaliação negativa — ruim e péssima — subiu quatro pontos percentuais, resultando em um saldo negativo de oito pontos de popularidade.
Histórico de reeleições aponta tendência oposta
O levantamento analisou a evolução da popularidade de todos os presidentes que tentaram a reeleição desde sua adoção no Brasil. Fernando Henrique Cardoso aumentou sua avaliação positiva em cinco pontos durante a campanha de 1998.
Na reeleição de 2006, Lula viu sua imagem positiva crescer 11 pontos e a negativa recuar quatro, chegando a outubro com 32 pontos positivos de saldo. Em 2014, Dilma Rousseff subiu oito pontos na avaliação positiva e recuou outros oito na negativa, conquistando o segundo mandato com 19 pontos de saldo positivo.
Mesmo Jair Bolsonaro (PL), o único a perder uma reeleição, registrou 10 pontos a mais de avaliação positiva e seis a menos de ruim e péssimo durante a campanha de 2022.
Governo adota medidas para reverter cenário
Diante das dificuldades, o governo tem lançado mão de uma série de iniciativas para tentar reverter o quadro. Na semana passada, foi anunciado um reajuste de 15% no Bolsa Família.
Além disso, o governo prepara uma medida provisória para restringir jogos online e endurecer as regras para apostas esportivas, estuda usar recursos do Tesouro para comprar dívidas antigas de consumidores com baixa perspectiva de recuperação, e aposta na aprovação, pelo Senado, do fim da escala 6x1 — para isso, busca reaproximação com Davi Alcolumbre (União-AP), a fim de que a matéria entre em votação entre o primeiro e o segundo turno.
Para o vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, o cenário é marcado por alta volatilidade. "A corrida sucessória está muito à mercê de fatos novos que vão surgindo e vão surpreendendo e afetando as campanhas presidenciais", afirmou.
Noronha destacou ainda que o tema da corrupção ganhou força nas pesquisas de opinião desde o final de agosto, figurando como o segundo maior problema do país, atrás apenas da violência. "Para o governo é muito ruim", disse.
Campanha do PT muda de postura
O diretor de Jornalismo da CNN Brasília, Daniel Rittner, identificou uma mudança clara na postura da campanha do PT a partir de 10 de setembro, data de uma reunião da Executiva Nacional do partido. Segundo ele, até aquele momento, a estratégia era enaltecer as realizações do governo.
"A gente não está conseguindo despertar nem sequer entusiasmo, mas nem o reconhecimento dos eleitores", teria sido o diagnóstico interno. A partir daí, a campanha passou a apostar em ataques a Flávio Bolsonaro (PL), estratégia que, na avaliação do PT, tem surtido mais efeito do que se vangloriar de supostos êxitos dos últimos quatro anos.
A âncora da CNN Thais Herédia chamou atenção para uma contradição apontada pelas pesquisas: embora os indicadores econômicos mostrem crescimento real da renda — com salários subindo acima da inflação e diversas desonerações promovidas pelo governo —, a percepção dos eleitores sobre sua situação financeira não acompanha esses dados.
"O governo pode provar por A mais B para o eleitor que a renda dele cresceu acima da inflação nesses últimos anos. Mas quando você pergunta o que sobra do seu dinheiro, o eleitor vai dizer: não, não sobra", analisou. Para Herédia, o endividamento crescente da população pode ser um fator central nessa desconexão.
Judiciário e Polícia Federal como variáveis imprevisíveis
Os analistas também debateram o papel do Judiciário e da Polícia Federal como fatores imprevisíveis na reta final da disputa.
Caio Junqueira destacou decisões recentes envolvendo o Bolsa Família como exemplo da atuação judicial no processo eleitoral, alertando que manobras de uma das partes para direcionar decisões a ministros de seu alinhamento podem ter impacto decisivo.
"Num cenário de dois pontos de diferença, ou um ponto de empate técnico, qualquer 0,3% faz diferença", afirmou.
Daniel Rittner foi na mesma direção ao apontar que "o grande eleitor realmente pode ser a Polícia Federal, com qualquer vazamento, nova operação e uma canetada do Poder Judiciário".
O vice-presidente da Arko Advice reforçou que, apesar de todo esse cenário, o nível de consolidação dos votos está muito alto. "Não importa o que você diga muito de um ou outro candidato, as convicções já estão formadas para a maior parte dos eleitores", concluiu Noronha, indicando que a disputa será definida por uma parcela pequena do eleitorado ainda indeciso.



