Análise: Partidos se dividem para definir apoios estaduais
Incerteza sobre apoios presidenciais fragmenta palanques estaduais; São Paulo, Rio e Minas refletem o cenário
A indefinição dos partidos em relação aos apoios nacionais tem gerado reflexos diretos na formação dos palanques estaduais. O cenário é especialmente complexo no maior colégio eleitoral do país, São Paulo, onde alianças contraditórias coexistem sem que lideranças regionais se posicionem de forma definitiva.
Tarcísio abre espaço para correligionários apoiarem Caiado
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado formal de Flávio Bolsonaro (PL), participou e discursou na convenção do PL no último sábado (25), não comparecendo à convenção do PSD.
No entanto, segundo interlocutores, ele não deverá tomar qualquer medida para impedir que correligionários e prefeitos apoiem Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência — ao mesmo tempo em que, no plano estadual, farão campanha para o próprio Tarcísio.
O PSD governa cerca de um terço dos municípios paulistas, o que torna a situação ainda mais emblemática. A chapa de Caiado tem Gilberto Kassab, do PSD, como vice, partido que é aliado do governador paulista.
Rio de Janeiro: Paes busca equilíbrio com apoio de Lula
No Rio de Janeiro, Eduardo Paes, candidato do PSD, enfrenta diretamente o candidato apoiado pelo PL, Douglas Ruas. Paes conta com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que cumpriu agendas no estado.
A estratégia da campanha, porém, é evitar uma presença ostensiva do petista para não gerar desgastes com o movimento antipetista, que tem força no estado. Nos bastidores, cogita-se organizar um ato conjunto no início de agosto com Eduardo Paes (PSD) ao lado de Lula, mesmo diante de críticas de bolsonaristas.
Minas Gerais: esquerda tenta pacto de não agressão
Em Minas Gerais, o campo da esquerda se dividiu entre Patrus Ananias (PT) e Alexandre Kalil (PDT). A esquerda mineira tenta articular um pacto de não agressão, concentrando os ataques no senador Cleitinho Azevedo, candidato pelo Republicanos.
A lógica é facilitar a formação de uma frente ampla no segundo turno, com apoio mútuo em torno da candidatura presidencial de Lula.
Sudeste como campo decisivo da eleição presidencial
Do ponto de vista territorial, segundo o analista de Política da CNN Caio Junqueira, Lula está à frente em mais estados do que Flávio Bolsonaro — liderando em cerca de 12 estados, contra 7 de Flávio, com alguns em empate técnico.
A eleição tende a ser definida no Sudeste, onde os empates técnicos são mais frequentes. Em São Paulo, Lula estaria cerca de 8 pontos atrás de Flávio, e o cálculo é que seria necessário dobrar essa diferença em um estado governado por um aliado do adversário.
Rio de Janeiro e Espírito Santo também aparecem em empate técnico, enquanto Minas Gerais apresenta leve vantagem para Lula.
Impacto real dos palanques regionais ainda é incerto
A cientista política e professora da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) Lara Mesquita ponderou que o impacto do apoio regional dos partidos pode ser menor do que se imagina, a menos que o palanque seja efetivamente ativo — com lideranças pedindo voto e apresentando a agenda do candidato presidencial.
"Eu desconheço que a gente tenha evidências fortes de que é muito importante que o partido esteja homogeneamente, nacionalmente, apoiando um candidato para o resultado dele", afirmou Lara.
A especialista destacou que os eleitores tendem a formar sua decisão presidencial primeiro, seja por identificação ou rejeição, e que muitos ainda decidirão na véspera da eleição. "Se estadualmente os candidatos a governador estão todos neutros, sem pedir voto, aí não faz muita diferença mesmo", concluiu.



