O que significa 'blackfishing' e por que artistas estão envolvidos nisso

Prática de alguns influenciadores e artistas brancos, blackfishing é visto como prejudicial aos negros

Faith Karimi, da CNN
09 de julho de 2021 às 04:30
Kim Kardashian chegando para assistir desfile da Paris Fashion Week em março de
Kim Kardashian chegando para assistir desfile da Paris Fashion Week em março de 2020
Foto: Marc Piasecki/WireImage/Getty Images

Primeiro foi o “blackface”, o ato de pintar o rosto para parecer negro. Agora, há o “blackfishing”.

O termo tem aparecido cada vez mais no noticiário internacional para descrever o comportamento de artistas brancos que parecem imitar a aparência dos negros. Não é um elogio.

O exemplo mais recente dessa prática vem da estrela pop australiana Iggy Azalea, que atraiu críticas por seu visual em um novo videoclipe.

Saiba mais sobre o blackfishing e por que as pessoas estão fazendo isso.

O que é blackfishing?

O termo ganhou destaque em um tópico do Twitter há dois anos, quando a jornalista Wanna Thompson disse que notou celebridades e influenciadores brancos fazendo cosplay de mulheres negras nas redes sociais.

“Blackfishing é quando figuras públicas brancas, influenciadores e similares fazem todo o possível para parecerem negros”, disse Thompson à CNN esta semana. “Pode ser por bronzear a pele em excesso na tentativa de atingir a ambiguidade e usar estilos de cabelo e roupas que foram notabilizados por mulheres negras”.

Os críticos descreveram a atitude como uma forma de blackface, dizendo que ela cria um paradoxo perigoso ao celebrar a beleza e a estética negras, mas apenas quando destacadas pelos brancos.

“Em vez de valorizar a cultura como espectador, há a necessidade de possuí-la, de participar dela sem querer a experiência plena da negritude e da discriminação sistêmica que vem com ela”, explicou Thompson.

Quem foi acusado de fazer blackfishing?

Os últimos casos de blackfishing registrados na imprensa envolvem Azalea, a estrela do hip hop australiana que é acusada de se apropriar da cultura negra desde que sua carreira decolou, há uma década.

Loira típica, Azalea usa uma peruca escura no videoclipe de seu novo single, “I Am the Stripclub”. Nas redes sociais, críticos afirmaram que, no vídeo, a pele da artista parece mais escura do que o normal, mas ela negou ter feito de propósito.

“Tenho a mesma cor de sempre, só que eu estava em uma sala mal iluminada com luzes vermelhas”, afirmou Azalea. A CNN entrou em contato com a assessoria da cantora para comentários, mas ainda não obteve resposta.

A celebridade norte-americana Kim Kardashian também conhece essas críticas. Em 2017, antes que o termo blackfishing existisse, ela imitou a ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis para uma foto de capa que, segundo alguns, fez Kardashian ter a pele mais escura do que o normal.

Mais ou menos na mesma época, os críticos também a acusaram de usar blackface em uma série de anúncios para sua linha de maquiagem.

Iggy Azalea em seu clipe 'I Am The Strip Club'
Foto: Reprodução/'I Am The Strip Club'/Iggy Azalea

“Eu obviamente nunca quis ofender ninguém”, afirmou Kardashian, que é de ascendência armênia, sobre a sessão de fotos. “Eu usei um fotógrafo incrível e uma equipe inteira. Estava muito bronzeada quando tiramos as fotos, e pode ser que o contraste não tenha funcionado”. 

A cantora norte-americana Ariana Grande, de ascendência italiana, enfrentou uma reação semelhante em 2019 durante um ensaio de capa para a revista “Vogue” no qual, segundo alguns,  sua pele parecia mais escura.

Outro caso é o de Bruno Mars, que tem se defendido contra acusações de se apropriar da cultura negra tanto na música como no visual. Em 2018, a escritora e ativista Seren Sensei disse que Bruno Mars “exagera sua ambiguidade racial para cruzar gêneros”.

Mars, filho de mãe filipina e pai meio porto-riquenho e meio judeu, respondeu que “não dá para encontrar uma entrevista onde eu não tenha falado sobre os artistas que vieram antes de mim. A única razão pela qual estou aqui é por causa de James Brown, Prince, Michael”.

Por que as pessoas fazem isso?

Para os estudiosos do tema, quando artistas ou influenciadores das mídias sociais parecem ser mestiços ou racialmente ambíguos, novas oportunidades de marketing podem surgir, já que eles são considerados elegantes e exóticos.

Para a jornalista Thompson, a criadora do termo, algumas pessoas que fazem blackfishing se sentem com direito de usufruir a cultura negra e a usam para obter ganhos sociais e monetários.

No entanto, isso prejudica os negros, que podem não ser vistos da mesma forma com características naturais semelhantes.

Leslie Bow, professora de estudos asiático-americanos da Universidade de Wisconsin, descreve o blackfishing como “uma máscara racial que opera como uma forma de fetichismo racial”.

Bow disse que há uma dinâmica de poder específica na sociedade norte-americana que implica que aspectos da cultura racial devem ser validados por aqueles com status para que sejam considerados positivos ou valiosos.

“Eles podem achar que é um tributo porque parece homenagear o estilo negro. Nesse caso, eles enxertam o que os acadêmicos chamam de ‘estética do descolado’ que permeia a cultura negra”, afirmou Bow.

“Na realidade, o blackfishing coloca esse estilo como se fosse uma mercadoria. Tem o efeito de reduzir um povo com uma história específica a uma série de características ou objetos apropriáveis”, acrescentou. “Blackfishing é uma forma de amor racista, de como nos apropriamos da alteridade”.

Como isso difere da apropriação cultural?

Blackfishing e apropriação cultural estão interligados. Para a jornalista Thompson, um não existe sem o outro.

A apropriação cultural, de acordo com o Cambridge Dictionary, é “o ato de pegar ou usar coisas de uma cultura que não é a sua, especialmente sem mostrar que você entende ou respeita essa cultura”.

Inúmeras celebridades brancas, por exemplo, foram criticadas por pentearem seus cabelos em tranças ou dreadlocks, estilos tradicionalmente usados pelos negros.

A escritora e palestrante Feminista Jones descreveu a apropriação cultural como quando pessoas com poder e privilégios pegam costumes e tradições que oprimiram e marginalizaram outros grupos e os redirecionam como algo novo e na moda.

“As pessoas não respeitam a cultura negra: elas acham que ela pode ser conquistada e pega, que podem participar dela e explorá-la porque ela foi mercantilizada”, disse Thompson. “Vemos isso em todos os aplicativos de redes sociais, mas cada vez mais no TikTok”.

No entanto, quando as pessoas mudam sua aparência com maquiagem, cirurgia estética ou edição digital para parecerem negras, isso vai um passo além da apropriação cultural. É blackfishing.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)