Bollywood recorre à IA, mas cineastas temem a perda da narrativa humana
Collective Artists Network, uma das principais agências da Índia, está projetando astros digitais

Bem-vindo ao novo modelo de set de filmagem, onde o zumbido silencioso de uma sala de programação substituiu a cacofonia de câmeras, claquetes e diretores gritando ordens.
A Collective Artists Network, uma das principais agências de talentos das estrelas de Bollywood, há muito tempo gerencia as carreiras de superastros da vida real. Agora, ela está projetando astros digitais. Em suas instalações em Bengaluru, cineastas utilizam ferramentas de inteligência artificial para criar conteúdo baseado na mitologia hindu — um gênero imensamente popular na Índia.
Um dos filmes, baseado no texto religioso "Ramayana", traz uma cena que mostra o deus Hanuman voando enquanto carrega uma montanha. Outra produção, baseada na epopeia antiga "Mahabharat", apresenta uma sequência que retrata a princesa Gandhari, que se vendeu ao casar com um rei cego.
A Índia é o país que mais produz filmes no mundo, e estrelas como Shah Rukh Khan e Amitabh Bachchan possuem legiões de fãs quase religiosas. No entanto, as mudanças nos hábitos do público, incluindo a ascensão do streaming, estão pressionando os orçamentos de produção.
Os estúdios indianos estão respondendo com o uso da IA em uma escala inédita: criando filmes inteiramente gerados por inteligência artificial, utilizando dublagem por IA para lançar filmes em inúmeros idiomas e até editando novos finais para títulos antigos para impulsionar as vendas.
Nesse processo, eles estão remodelando a economia do cinema e reduzindo os cronogramas de produção. Mas essa eficiência esbarra em um problema recorrente: o público, muitas vezes, critica duramente o conteúdo gerado por IA, mesmo quando ele vende bem.
A guinada de Bollywood reflete a ampla aceitação da tecnologia na Índia. A consultoria EY estima que a IA pode aumentar a receita das empresas de mídia e entretenimento indianas em 10% e reduzir os custos em 15% a médio prazo.
Vikram Malhotra, fundador da Abundantia Entertainment, espera que um terço de sua receita venha de conteúdos de IA dentro de três anos. "Hoje você pode fazer filmes de live-action de alta qualidade sem cenários físicos ou viagens. É esse tipo de empoderamento econômico que a IA proporciona", afirma Malhotra.
Já para o cineasta Supern Verna, as máquinas não possuem as mesmas emoções e profundidade de um ser humano; ele sente que a narrativa delas sempre terá "falta de toque humano". Por outro lado, para entusiastas como Vihnesh Shivan, a IA irá coexistir com os criadores: "Veremos filmes melhores; certos visuais não seriam possíveis sem a IA. Estamos prontos para esse futuro".


