Clássicos da música brasileira lançados em 1972 completam 50 anos – Parte 2

Discos de Tim Maia, Elis Regina, Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Gilberto Gil e Rita Lee transformaram o ano de 1972 um período mágico para nossa música

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Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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1972 foi um ano mágico para a música brasileira, quando artistas surgidos nos anos 1960 chegavam à maturidade musical lançando discos ousados e improváveis que aos poucos se tornaram clássicos de nossa cultura. Reunimos 20 destes registros, entre sucessos comerciais e joias perdidas, que completam cinquenta anos agora em 2022.

Neste sábado (14), confira a segunda parte deste especial, que já mostrou os discos de Caetano Veloso, Elis Regina, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Ben. A seguir, mais sete clássicos lançados há meio século e que merecem ser lembrados neste ano.

Lô Borges – Lô Borges

Depois do sucesso comercial e artístico do Clube da Esquina, o jovem mineiro Lô Borges fechou um contrato para lançar seu primeiro disco solo no mesmo ano em que havia sido lançado no mundo do disco com a ajuda do compadre Milton Nascimento. Só havia um problema: Lô havia gastado todas as composições que já havia feito no disco lançado no início daquele ano.

Com a força da juventude, não pestanejou. Convocou seu irmão Márcio para escrever as letras e os músicos mineiros do Clube (além de outros agregados, como Flávio Venturini, Novelli, Vermelho, Danilo e Dori Caymmi) para entrar em um modo de produção intenso que geraria um disco de dinâmica e ambiência única na música brasileira. Canções que eram compostas pela manhã, tinham suas letras escritas à tarde e à noite se transformavam em arranjos coletivos feitos pelos músicos já no estúdio, gravando valendo.

Composto e gravado a toque de caixa, o primeiro disco solo de Lô é uma espécie de lado sombrio das composições solares que o músico havia trazido para o disco duplo gravado com Milton. Neste seu disco solo, o compositor pesa mais para o lado elétrico, deixando suas influências rock à mostra sem necessariamente deixar o lado barroco mineiro em segundo plano, em 15 canções curtíssimas, que soam mais como uma rapsódia de sentimentos e sensações do que um álbum no sentido tradicional do termo.

A obrigação comercial de lançar um disco nestes parâmetros fez Lô repensar a estratégia de seu lançamento. Escolheu não aparecer na capa do disco, que trazia um par de tênis velho que mandava um duplo sinal aos fãs – estava pendurando as chuteiras e partindo para a estrada.

Não fez show de lançamento do disco e resolveu abraçar a vida hippie cruzando o Brasil de carona em viagens solitárias em que sempre carregava seu violão. Sem divulgação, o disco tornou-se desconhecido para a maioria dos fãs do compositor, que só em 1979 retomaria a carreira fonográfica, com seu segundo disco, “A Via-Láctea”.

Milton Nascimento & Lô Borges – Clube da Esquina

O mineiro Milton Nascimento já havia se estabelecido como um dos principais nomes da geração musical que surgia no final dos anos 1960 no Brasil. A imortal “Travessia” já havia posto seu nome no topo da música naquele período, que abriria portas para ser gravado por Elis Regina, gravar nos Estados Unidos (a convite de Eumir Deodato), fazer trilha sonora para filmes e turnês com o grupo Som Imaginário. Mas Milton sentia falta de trazer a turma com quem cresceu musicalmente para aquele patamar que já frequentava.

Convenceu a gravadora a lançar um disco duplo, que seria o primeiro no formato no Brasil, a criar canções novas e finalizar outras já iniciadas ao lado do grupo de amigos que conhecia da capital mineira. Numa casa de praia da ainda deserta Piratininga, em Niterói, Milton juntou-se aos seus velhos camaradas e logo um de seus parceiros musicais, o irmão caçula do letrista Márcio Borges, Lô, que tornou-se o principal cúmplice daquela nova viagem.

Lô, que acabara de sair da adolescência naquele ano de 1971, ficava em um dos quartos da casa, burilando suas canções com gosto de Beatles enquanto Milton ficava em outro, trabalhando canções que bebiam tanto de uma recém-descoberta conexão com a América do Sul andina quanto com inspirações de matizes africanas que passavam longe da referência sambista, como o congado, o batuque mineiro e o candombe.

Indo de um quarto para o outro, o guitarrista Beto Guedes ajudava os dois principais compositores a finalizar as canções para aquele disco, que ainda contava com a participação de músicos que tiveram suas carreiras catapultadas por aquele momento (Tavito, Wagner Tiso, Toninho Horta, Luiz Alves, Nelson Angelo e Rubinho) e de compositores que tiveram suas biografias iniciadas oficialmente ali (Fernando Brandt, Márcio Borges e Ronaldo Bastos).

O disco ainda contaria com participações luxuosas do baterista Robertinho Silva, do trombonista Raul de Souza, da cantora Alaíde Costa e do cantor Gonzaguinha, além de arranjos escritos por Paulo Moura e Eumir Deodato.

Ultrapassado no quesito “primeiro disco duplo brasileiro” pelo “Fatal – A Todo Vapor” que Gal Costa lançou no ano anterior, a espera valeu à pena e “Clube da Esquina” é um dos maiores registros de nossa música, seja por portar canções indiscutíveis (“Tudo Que Você Podia Ser”, “Cais”, “O Trem Azul”, “Saídas e Bandeiras nº 1”, “Nuvem Cigana”, “Cravo e Canela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela”, “Saídas e Bandeiras nº 2”, “Um Gosto de Sol” e “Nada Será Como Antes”), seja por capturar uma sonoridade bucólica e indescritível forjada por um grupo de artistas único, e seja por incluir a percussão e o falsete em outros patamares na música brasileira. Um disco tão bom que parece um sonho.

Módulo 1000 – Não Fale com Paredes

Dos grupos de rock progressivo brasileiros, talvez o Módulo 1000 seja seu exemplar mais ímpar. Seguindo uma trajetória comum à maioria das bandas do estilo da época, o grupo começou tocando versões de músicas estrangeiras nos anos 1960 no Rio de Janeiro com o nome de Código 20, mas aos poucos seus integrantes originais começavam a sair da música de baile para beber das transformações que aconteciam no rock inglês do final daquela década.

Ao misturar hard rock, rock psicodélico e rock progressivo, tocando versões de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Pink Floyd, o grupo aos poucos foi mudando sua formação e os fundadores Eduardo Leal (baixista) e Daniel Cardona Romani (guitarrista e vocalista) incluíram músicos com formação jazzística, que tocavam com grupos de bossa nova, como o vibrafonista Paulo César Wilcox, o tecladista e vocalista Luiz Paulo Simas e o baterista Cândido Faria de Souza, o Candinho, quando mudaram de nome para Módulo 1000 e aos poucos foram mudando-se para São Paulo.

Na nova cidade, participaram de uma coletânea que revelou nomes daquela nova cena (como “Som Imaginário”, “Equipe Mercado” e “Tribo”) e começaram a participar de festivais na televisão, experimentando outras sonoridades, transformando jam sessions em seu espaço de composição, deixando de lado as versões alheias e aos poucos compondo as primeiras músicas, algumas em português, e isso fez com que o vibrafonista Willcox deixasse o grupo.

Como um quarteto, em temporadas em casas como Catraka (em São Paulo), Clube Siri (Praia Grande) e Teatro de Arena (no Rio de Janeiro), o Módulo 1000 foi construindo sua reputação por explorar novos horizontes sonoros e experimentar outras formas de show, fazendo inclusive apresentações simultâneas com outras bandas, incluindo performances e happenings em seus shows.

Nesta nova fase, já nos anos 1970, o grupo levava seu som para lugares inusitados, mas que tinham um apelo com o público, que chegava a cantar junto a música que abriria seu único disco, lançado em 1972, “Não Fale Com Paredes” – com o detalhe que “Turpe Est Sine Crine Caput” era escrita em latim.

Era apenas uma das idiossincrasias deste álbum que soa tão frito quanto espacial, que não teve apelo de vendas pois o dono da gravadora odiou o resultado, tornando-o um item de colecionador no mundo todo devido às suas aventuras musicais e sua raridade fonográfica.

O grupo ainda teve uma sobrevida no ano seguinte, mas se separou antes de 1974, quando dois de seus integrantes, o tecladista Luiz Simas e o baterista Candinho, começassem a tocar no grupo Veludo Elétrico, liderado por um certo Lulu Santos. O Veludo se transformou no mitológico grupo Vímana, que, além de Lulu, incluiria outros dois futuros popstars em sua formação – o vocalista inglês Ritchie e o baterista Lobão, que entrou após a saída de Candinho. Mas isso é outra história…

Nara Leão, Chico Buarque e Maria Bethânia – Quando o Carnaval Chegar

Chico, Bethânia e Nara ainda eram jovens no início dos anos 1970, mas já tinham suas carreiras consolidadas desde o meio da década anterior e entravam na nova década dispostos a mostrar serviço: Nara saía da prematura aposentadoria que havia anunciado em 1969 para fazer shows no exterior, Chico havia acabado de lançar o clássico “Construção” e Bethânia havia lançado seu “A Tua Presença”.

O casamento de Nara com o cineasta Cacá Diegues fez com que ela topasse participar de seu novo projeto, um musical em que um trio de cantores era contratado para fazer uma apresentação em um evento exclusivo (teoricamente uma festa para Frank Sinatra) e trouxesse Chico e Bethânia para completar o trio protagonista. O filme ainda contava com Elke Maravilha, Hugo Carvana, Antônio Pitanga e José Lewgoy, enquanto sua trilha sonora – em sua maioria canções inéditas de Chico Buarque – ainda contava com a participação do grupo MPB-4.

O principal feito desta trilha, no entanto, é reunir três artistas de origens diferentes sob a égide do que hoje nos referimos como MPB. Em números cativantes como os dois duetos de Nara e Bethânia (“Minha Embaixada Chegou” e a marchinha “Formosa”), o “Frevo” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o sambão “Partido Alto”, “Mais Uma Estrela” com Nara Leão, a rascante “Bom Conselho” com Maria Bethânia e a saudosista “Cantores de Rádio”, de Lamartine Babo, a trilha dirigida por Chico Buarque cria os alicerces deste gênero musical, ao mesmo tempo em que traça suas referências ancestrais, tendo o próprio Carnaval como sua espinha dorsal.

Nelson Angelo e Joyce

Talvez o disco menos conhecido desta lista, esta joia perfeita reúne a obra de um casal de cantores, músicos e compositores que seguiam carreiras paralelas mas que puderam se encontrar musicalmente a partir do enlace romântico.

Disco rural e caseiro, reúne harmonias vocais encantadoras a ambiências acústicas que fogem de todos os estereótipos vinculados à música brasileira. Esta preciosidade desafia rótulos musicais e junta duas tradições musicais distintas a partir de dois personagens únicos em nossa cultura.

A carioca Joyce Moreno começou como intérprete, mas ao abraçar a música profissionalmente, abandonando o jornalismo ainda no final dos anos 1960, já estreia compondo suas próprias músicas (uma delas ao lado do novato Jards Macalé).

O mineiro Nelson Angelo, por sua vez, era integrante da cena de Belo Horizonte que mais tarde seria eternizada como Clube da Esquina, mas ao mudar-se para o Rio de Janeiro em 1966, começou a trabalhar com outros músicos em grupos como Quarteto Livre (ao lado de Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos e Franklin da Flauta) e “A Sagrada Família”, liderada por Luiz Eça.

Foi neste último grupo que os dois se conheceram e levaram a união para um novo conjunto, chamado “A Tribo”, que ainda contava com Naná Vasconcelos, Novelli e Toninho Horta em sua formação, que lançou alguns compactos no início dos anos 1970. Mas o encontro dos dois eternizou-se no disco em que os dois gravaram juntos no mágico 1972.

É um disco que mescla psicodelia, bossa nova, jazz, folk, samba e soul em canções preciosas e solares, raios de luz que dissipam quaisquer nuvens pesadas à sua simples execução. Canções intimistas que são pouco introspectivas, o álbum conversa tanto com seus contemporâneos brasileiros (Clube da Esquina, Acabou Chorare, o primeiro de Jards, Transa e Expresso 2222) quanto discos estrangeiros igualmente conectados a este clima caseiro (como Tapestry da Carole King, o Blue de Joni Mitchell, Tea for the Tillerman de Cat Stevens, Astral Weeks de Van Morrison e Harvest de Neil Young). Mas qualquer comparação é insuficiente: nada soa como Nelson Angelo & Joyce. Nem no Brasil, nem no mundo.

Novos Baianos – Acabou Chorare

Era um grupo de rock barulhento que havia sido inventado em Salvador para um espetáculo chamado “O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio”. Cabeludos e desbocados, eles se reuniram sob o epíteto de Novos Baianos e depois de uma temporada em São Paulo, mudaram-se para o Rio de Janeiro, dividindo um apartamento de cobertura no bairro do Botafogo.

Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Baby Consuelo e Moraes Moreira eram a base daquele novo grupo, que juntou músicos agregados, como Jorginho Gomes, Dadi Carvalho, Bola e Baixinho, que aos poucos transformava aquele apartamento em uma comunidade hippie.

O que ninguém podia imaginar era que João Gilberto, naquela época já uma sumidade internacional da música brasileira (e amigo de adolescência de Galvão), batesse à porta do grupo no final de 1971. O baixista Dadi ouviu a campainha tocar e quando viu o senhor de terno e gravata pelo olho mágico da porta teve certeza que era polícia.

João Gilberto estava interessadíssimo em ver como uma banda vivia de forma coletiva e aos poucos passou a frequentar o apartamento do grupo, que retirou as portas do armário embutido de um dos quartos, transformando-o em um pequeno palco para shows particulares de João.

A partir deste contato, João passou a conduzir os Novos Baianos para além de sua matriz rock, devolvendo-os à música brasileira, deixando gritos e eletricidade de lado para favorecer a melodia e a percussão.

Assim nasceu “Acabou Chorare”, um dos discos mais importantes do mundo, que equilibra perfeitamente a natureza quieta e dissonante proposta pelo pai da bossa nova ao rock ácido e rasgado que ainda pulsava nas veias do grupo. Quase todas as músicas deste disco são clássicos da música brasileira, da deslumbrante versão de “Brasil Pandeiro” (de Assis Valente) que abre o disco em tom de manifesto à enigmática “Mistério do Planeta”, passando pela canção de ninar que batiza o disco, os dois momentos da imortal “Preta Pretinha”, o forró psicodélico “Tinindo Trincando”, a irreverente “Besta é Tu” e a irresistível “A Menina Dança”. Pedais de distorção conviviam com bandolins e craviolas e instrumentos de percussão afrobrasileiros numa combinação musical ímpar na história.

Odair José – Assim Sou Eu…

O goiano Odair José mudou-se para o Rio de Janeiro no final dos anos 1960 para tentar a carreira musical e encontrou uma cidade bem diferente da que idealizava. Longe dos holofotes, das rádios e das gravadoras, ele passou a conviver com uma cidade grande, crua e violenta, que parecia não abrir espaço para novos artistas, obrigando-os a cantar na noite como única opção de manter-se na área.

Odair passou por maus bocados, chegando a passar fome e dormir na rua, mas logo conseguiu um contrato com uma gravadora que, apesar de ter lançado seus dois primeiros discos, não esforçava-se para divulgá-los. Quando embarcou em uma turnê para o Nordeste para tentar emplacar algum sucesso, mas seu segundo álbum, “Meu Grande Amor”, caiu no gosto do público e chegou ao topo das paradas de sucesso em 1971.

A gravadora quis renovar seu contrato obrigando-o a gravar com a mesma banda de Roberto Carlos, mas Odair não queria ficar à sombra do maior popstar do Brasil. E como seu contrato estava no fim, não teve problemas em arrumar outro selo para lançar seu novo álbum.

Em nova gravadora, fez apenas uma exigência: queria fazer o disco sem intromissões de executivos. Assim, chamou o maestro Waltel Branco para fazer os arranjos e reuniu os músicos de estúdio José Roberto Bertrami no piano, Alex Malheiros no baixo e Ivan “Mamão” Conti na bateria – foi a primeira vez que os três músicos tocavam juntos e a união proposta por Odair fez nascer o grupo Azymuth, formado pelos três – o que por si só já tornaria aquele disco um marco.

Além destes, o goiano ainda chamou o novato Luiz Cláudio Ramos (que mais tarde seria o diretor musical de discos de Chico Buarque) para dividir os violões e o guitarrista Hyldon. Um time de peso para um disco essencialmente romântico.

“Assim Sou Eu…” não carrega nenhum dos grandes hits que Odair emplacou nos anos seguintes (como “Uma Vida Só”, do refrão “pare de tomar a pílula”, “Deixa Essa Vergonha De Lado” e “Cadê Você?”) mas já traz sucessos que tornaram este o primeiro de seus grandes discos, como “Esta noite você vai ter que minha”; “Cristo quem é você?”, “Pense pelo menos em nossos filhos”; e “Eu Queria Ser John Lennon”.

Distanciando-se da sonoridade de Roberto Carlos, ele inaugura um novo pop romântico brasileiro, que quase instantaneamente cativou um novo público.

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