Comovente e imersiva, a animação “Flee” chega ao Brasil

Filme indicado ao Oscar conta a história real de afegão que buscou refúgio na Dinamarca

A animação Flee: Nenhum lugar para chamar de lar foi indicada ao Oscar 2022 e estreou nos cinemas brasileiros
A animação Flee: Nenhum lugar para chamar de lar foi indicada ao Oscar 2022 e estreou nos cinemas brasileiros Divulgação/Twitter @DiamondFilmsBR

Isabella Fariada CNN

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“Eu não sei se gostei”. Essa foi a frase dita pelo personagem principal do filme ao diretor, quando ambos assistiram juntos, pela primeira vez, a “Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar”.

Foi a amizade entre cineasta e refugiado que fez nascer o longa que concorreu a três estatuetas no Oscar: “Melhor Animação”, “Melhor Documentário” e “Melhor Filme Internacional”. Não ganhou nenhuma delas, mas se tornou o primeiro filme da história a ser indicado nessas três categorias.

Porém, não se engane. Os traços animados do longa deixam o passado mais leve, mas, ao mesmo tempo, conseguem ilustrar nos mínimos detalhes os relatos difíceis feitos pelo personagem.

Amin é um refugiado afegão que escapou do país junto com a família nos anos 1990 e seguiu para a Rússia. Mãe, filhos e filhas ficaram confinados em um pequeno apartamento em Moscou enquanto o irmão mais velho juntava dinheiro para que todos consiguissemm ir para a Europa, mais precisamente para a Suécia.

Por meio de contrabando, Amin chegou à Dinamarca. Ele foi obrigado a esconder sua história para sobreviver, mas, depois de muitos anos de convívio, revelou sua jornada a Jonas Poher Rasmussen, diretor do filme.

“Dez anos atrás, eu participei de um workshop de animação e pensei: ‘Talvez esse seja um jeito bom de contar a história do Amin’, disse Jonas. “O fato de ele não estar tão exposto fez com que Amin se sentisse à vontade para contar suas memórias e seus traumas”, completou.

Além disso, o uso da animação é um ótimo jeito de ilustrar o passado, mesmo que ele não seja tão distante. Por poucas vezes no filme vemos imagens reais da Guerra do Afeganistão, do fim dos anos 1980, mas o verdadeiro mergulho na história do país e de Amin se dá nos traços, nas cores e no desenho de som do filme.

Quando Amin para seu relato para chorar ou suspirar, o documentário registra esses momentos de forma fiel. Assim como conversas, teoricamente, “off-camera” que o diretor e o entrevistado tiveram. É a partir desses diálogos que conhecemos o noivo de Amin, que deixa claro se sentir incomodado por não saber tanto do passado do parceiro e por sentir ele sempre “longe”.

Além de detalhes sobre sua trajetória como refugiado, temos um vislumbre de como Amin constrói suas relações pessoais e amorosas.

Talvez surja daí a dúvida do personagem. O diretor revelou que, assim, que terminou de assistir ao filme, o refugiado não sabia se havia gostado do que acabara de ver.

“Ele me disse que não conseguia separar os sentimentos e a própria história do filme”, explicou Jonas. “Então, para ele, foi incrível saber como as pessoas reagiram quando o filme estreou no Festival de Sundance. Perceber que as pessoas absorveram a história e se relacionaram com ela foi muito importante para Amin”, finalizou.

Contrabando de pessoas

Em determinado momento do filme, os passageiros de um cruzeiro de luxo avistam um pequeno barco à deriva. Eles começam a fotografar as pessoas que estão nessa embarcação. que acenam, pedem ajuda, algumas pensam em nadar até o navio. Minutos depois, as fotos cessam e ouve-se uma voz vinda do cruzeiro: “Chamamos as autoridades para levar vocês de volta à terra firme de onde vieram”.

Amin estava neste pequeno barco junto com a sua mãe e o seu irmão, todos estavam apavorados.

Esse foi um dos muitos relatos do afegão nessa busca para se estabelecer em um país e a recepção dada quando uma oportunidade de mudança surge.

Para Swany Zenobini, líder do Comitê de Enfrentamento ao tráfico de pessoas, o refugiado se arrisca para recomeçar. “O refugiado é uma pessoa sem lar. É uma pessoa que foi expulsa da sua casa, que teve que deixar tudo para trás”, diz.

“É comum vermos essas pessoas falando três, quatro idiomas, pedindo emprego e querendo trabalhar em qualquer área disponível”, pontua.

Swany trabalhou com afegãos que escaparam do país, com a saída das tropas americanas em 2021, e chegaram ao Brasil. Segundo ela, houve uma mobilização grande da sociedade para acolher essas pessoas, mas ainda há diferenças no tratamento de refugiados, principalmente por parte do Governo.

“Demorou um mês para que o Brasil concedesse o visto humanitário para o Afeganistão. Quando foi a vez da Ucrânia, esse mesmo visto saiu em uma semana”, afirma.

“Os grupos de afegãos que chegaram ao Brasil são de 30 pessoas, os ucranianos já chegam em maior número, com 70 pessoas”, levanta Swany, questionando uma maior burocracia para alguns refugiados e outros não.

“Nós temos nossos achismos, mas nunca teremos essas respostas em papel passado”, adiciona.

Representatividade

Se histórias que retratam a vida de pessoas refugiadas conseguem nos comover facilmente, este sentimento é ainda maior quando é possível se identificar com a história mostrada.

Com Carlos foi assim, ele é um jornalista venezuelano e chegou ao Brasil cinco anos atrás. Ao se recusar a participar de um esquema de corrupção, foi perseguido pelo governo venezuelano e conseguiu refúgio por aqui. Passou por cidades como Manaus, Fortaleza e Jundiaí, até chegar em São Paulo.

“Lembro que cheguei aqui com 80 dólares e meu cartão de crédito não funcionava. Eu estava com sete malas e tive que ir deixando meus pertences pelo caminho, não podia carregar tanta coisa”, lembra Carlos.

O jornalista se lembra de uma viagem de oito dias de ônibus até o Equador para trazer a família para o Brasil.

“Foi a melhor viagem que eu fiz. Pensei muito, chorei muito, e finalmente me encontrei. Quando você está em uma situação de refúgio, é fácil se acostumar com o fundo do poço, mas eu consegui sair dele”, comemora.

Carlos assistiu a “Flee” e se emocionou em diversos momentos: “Quando um passaporte falso é entregue para Amin, dizem que ele precisa mentir para todos sobre sua história quando chegar à Dinamarca. Eu não considero uma mentira. Nesse momento, você só pensa em sobreviver, proteger a sua família e começar uma nova vida”.

Para Carlos, o maior trunfo do filme é que ele termina bem, diferente de muitas produções que retratam refugiados.

“Existe o sofrimento, existe o trauma, existem as famílias separadas… mas há um depois. O refúgio não é somente tristeza, é superação”, diz.

Ficha Técnica

Título: Flee: Nenhum lugar para chamar de lar

Onde assistir: Nos cinemas

Classificação: 14 anos

Produção: Dinamarca, 2021

Direção: Jonas Poher Rasmussen

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