Confira a íntegra do primeiro capítulo de “Amoroso”, biografia de João Gilberto

Livro, escrito por Zuza Homem de Mello e lançado no fim de outubro pela Companhia das Letras, reúne histórias de dois amigos e gigantes da música

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Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Leia abaixo o capítulo de apresentação do livro “Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto”, de Zuza Homem de Mello, publicado pela Companhia das Letras e cedido à CNN.

I. Amizade

Lembro nitidamente a primeira vez que ouvi João Gilberto. Eu descia a rua Manuel da Nóbrega numa perua Dodge 51, verde com capota branca, modelo “saia e blusa”. Estava perto do Monumento às Bandeiras do Brecheret, no Ibirapuera, quando escutei no rádio. Não acreditei, fiquei estático, no duro. Encostei o carro na guia para escutar direito até o fim, sem perder nada. Ouvia João Gilberto pela primeira vez. A cena se passa na minha memória até hoje.

Músicos, compositores e cantores da geração pós‑bossa nova não se esqueceram de quando ouviram pela primeira vez João Gilberto cantar “Chega de saudade” no rádio, todos eles: Elis Regina estava varrendo a casa; Chico Buarque ficou siderado; Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime, Marcos Valle, Eumir Deodato e outros jovens se lembram desse momento capital que mudou a vida deles, tanto que decidiram se dedicar à música. Para Caetano, foi um divisor de águas em sua vida: “Ouvi pela primeira vez em 1959, em disco, mostrado por um colega do ginásio, Syeliton, que me levou ao clube Irapuru para ouvir ‘um cantor que cantava tudo desafinado, a orquestra indo prum lado e ele pro outro’. Segundo ele, eu gostava de coisas estranhas. Essa canção, esse disco mudaram a minha vida”. João Gilberto foi o gatilho.

Não muito tempo depois, ele estava ali, à minha frente, no estúdio da tv Record, perto do Aeroporto de Congonhas. Sentado numa banqueta alta, ajeitava o violão, aprontando‑se para cantar no programa Astros do Disco, um hit parade semanal apresentado por Randal Juliano e a garota-propaganda, como se dizia à época, Idalina de Oliveira. Eu estava a poucos passos dele, era só chegar e falar com o homem. Mas o que eu lhe diria? Faltou coragem. Fui plugar mais um microfone — minha função, plugar, sempre que ouvia a ordem do Rogério Gauss, meu chefe. Agora já não dava mais. Voltei e assisti de pertinho, bem ao lado da câmara. Bom, pelo menos tinha visto o homem. Com violão e tudo. Eu tinha visto João Gilberto.

Uma vez por ano a tv Record premiava com o troféu Chico Viola os destaques do Astros do Disco num show de gala no Teatro Record da Consolação — na ocasião, eu era o técnico de som dos programas musicais de grande audiência. João Gilberto foi um dos premiados daquele ano. Dessa vez eu ia conhecê-lo. Só que ele não apareceu à tarde para ensaiar. De longe, da cabine da mesa de som, pude vê‑lo receber o prêmio. Não deu para falar com ele. De novo.

Seus discos iam saindo, e não sei dizer quantas vezes ouvi os três lps da Odeon, as capas com um envelope de plástico transparente, comprados na loja Brenno Rossi, nos fundos de uma galeria na rua Barão de Itapetininga.

Em 1965, João Gilberto veio dos Estados Unidos como convidado especial do programa O Fino da Bossa, de Elis Regina. O empresário Marcos Lázaro foi quem fechou o contrato. De novo ele não apareceu para o sound check, a passagem de som. À noite, Elis anunciou, inflamada: “Joããão Gilbeeerto!”. Sob aplausos frenéticos, ele entrou tímido e cantou três músicas. Descontente com o som dos amplificadores, desistiu. Parou e saiu de mansinho pela coxia. Visivelmente atrapalhada, Elis correu para retomar o programa enquanto João já estava longe.  Tenho a fita com as três músicas bem gravadas. Pela terceira vez perdi a chance de falar com ele.

Em dezembro de 1967 é que de fato vim a conhecer João. Foi em Weehawken, Nova Jersey, onde ele morava com Miúcha, sua mulher (que havia me dado o telefone deles), e a filhinha Bebel, que ele chamava de Isabelzinha. Cheguei à tarde pela rua sossegada, o chão forrado de neve. Abracei João pela primeira vez e fui ficando. Ele falava baixo, com delicadeza, não perdia um sibilado, nem um erre. Passamos a noite conversando, indo de um lado para outro no piso térreo da casa enorme para três pessoas, que fora mobiliada para receber o crítico literário Antonio Candido, amigo do pai de Miúcha, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Quando dei por mim, estava amanhecendo. Despedi‑me e voltei de trem para Nova York. Foi o começo da amizade que já estava no ar.

* * *

Anos mais tarde, em Nova York, telefonei para João Gilberto. Ele vivia um grande momento: acabara de gravar, com arranjos do alemão Claus Ogerman, o álbum Amoroso, do qual tinha uma cópia em fita cassete. Morando fora do Brasil havia mais de dez anos, a maior parte dos quais nos Estados Unidos, ele estava hospedado num modesto hotel do East Side. Mais uma vez Miúcha me havia dado o número de telefone, e liguei para saber do disco.

“Esse disco”, ele disse na outra ponta da linha, “tem um pouco esses negócios que a gente precisava. Eu vou mostrar um pedacinho.”

Fez uma pausa e tocou “Retrato em branco e preto” até a metade. “Tem a música da orquestra, eu tinha tanta vontade de ouvir um samba tocado por orquestra. Agora sim, o trabalho que ele [Claus Ogerman] fez. Zuza, quer escutar uma? Pera aí.”

Nova pausa para ouvir “Triste”. Ouço a música até a interrupção.

“Zuza, desculpe.”

“Por quê?”

“Porque eu fiquei tão feliz que quis botar para você ouvir. Você entendeu, Zuza? A coisa é por todos os lados, música por todos os lados, enquanto estou cantando. Tinha tanta vontade, você nem sabe como. Toda vestida, toda redonda. Tinha tanta vontade de ver a música do Brasil mais diretamente, o samba daquele jeito, que não fosse só o delicado, que fosse redondo, ligado, assim como o Claus fez. Zuza, eu posso tocar outra música aqui?”

“Pode, quero ouvir.”

Pausa para “Tim‑tim por tim‑tim”. Dava para perceber que ficou lindo.

“Zuza, você ouviu?”

“Ouvi sim, tem num disco dos Cariocas. É do Geraldo Jacques, não é?”

“Exatamente. Como é mesmo nome dele? Jacques. É Jacques, não é?”

“É. Jota, a, cê, quê, u, e, esse.”

Aí a conversa derivou para um exercício de memória, cada um lembrando um pouco, e João sempre surpreendendo: “Eu bem que me lembrava. E Haroldo Barbosa. Você tem esse disco?”.

“Não sei se tenho.”

“Ôô, Zuza, o disco dos velhos Cariocas do Ismael.”

“Do Ismael, exato.”

“‘Adeus, América’ também.”

“‘Adeus, América’ também. Não. ‘Adeus, América’ não é atrás desse disco.”

“É Continental.” Concordei com João: “É Continental, da mesma época”.

“Atrás desse disco acho que é ‘Leviana’.”

“Puxa, rapaz, não consigo me lembrar. Esse disco está lá em casa.”

Nesse momento João canta, sem hesitar, o antigo bolero que eu nunca tinha ouvido: “Um dia um sofrimento destrói tua beleza, e há o teu lamento dos tempos de pobreza. Conheces bem a vida, não deves, leviana do amor, continuar, querida, vendendo teu pudor… leviana… leviana…”.

“Eu não reparei no verso do disco. Por falar em música desconhecida, me diga uma coisa, você lembra aquela vez em que você estava no Brasil e cantou no Fino da Bossa uma música: ‘Há quem sambe…’. Lembra dessa música?”

“Rapaz!!”

Em seguida João começou a cantar, emulando as passagens instrumentais, como gostava de fazer: “‘Há quem sambe muito bem, há quem sambe por gostar, há quem sambe por ver os outros sambar, mas eu não sambo para copiar ninguém, eu sambo mesmo com vontade de sambar, porque no samba sinto o corpo remexer, e é só no samba que eu sinto prazer, é só no samba que eu sinto prazer, há quem não gosta do samba, não dá valor, não sabe compreender…’ Mas Zuza! Obrigado por me obrigar a pensar sobre, eu sabia em minha memória, eu sabia mas pensava que era outra música”. “De quem é essa música?”

“Não sei, deve ser de Janet de Almeida.”

“Como é nome dela?”

“‘Há quem sambe por sambar’. Mas você pode saber isso com Lúcio Alves.” [O título é “Eu sambo mesmo”.]

“Eu tenho a gravação desse dia.”

“Você tem? Ôô, Zuza, me arranja que eu quero ver o resto da letra.”

João canta de novo: “‘Porque no samba eu sinto o corpo remexer, e é só no samba que eu sinto prazer, o samba quente, harmonioso, buliçoso, a minoria diz que gosta mas não gosta, e sofre muito quando vê alguém sambar…’. Esse samba está gravado aqui, se o Claus visse… muito bonito, muito perfeito”.

“E um outro que você cantou nesse mesmo dia é uma marchinha que fala: ‘Olha o pica‑pau picando o pau, oi’!”

“Ary Barroso. Chama ‘Pica‑pau’.”

“E a terceira que você cantou foi ‘Exaltação à Mangueira’.”

“Como é?”

“‘Mangueira, teu cenário é uma beleza…’”

“Essa é o Chico [Alves] cantando. Eu vou gravar ela. Vai ficar muito bonito, o som todo. Você me deu o repertório pro futuro.”

“É o tipo de música boa para você gravar porque é pouco gravada, né?”

Ele então explicou por que cantava e gravava músicas do passado: “E também a gente nem gravou direito, Zuza, porque tudo começa ali, tudo começa tão afobado, tão apressado também, e há coisas tão bonitas, tão importantes do Brasil. Olha este sambinha ‘Tim‑tim por tim‑tim’. Eu gosto de cantar sempre, a música fica melhor ao coração assim, à lembrança, cheguei e gravei. Claus gravou, puxa, mas tão bonito o arranjo que Claus fez, tão lindo, rapaz, tem uma dimensão… Então eu quero muita música que você diz que não foi muito gravada, porque tem tanta coisa bonita e a coisa foi tão apressada, muita gente fazendo também muita música todo dia, mas não quer dizer que sejam tão boas”.

Nesse ponto falei do disco que tinha produzido com a cantora Maria Martha, para o qual havia sugerido duas músicas dos anos 30, o fox “Hei de ver‑te um dia” e a marcha “Não pago o bonde”, que ele desandou a cantar letra e melodia inteira, sem errar. E retomou a conversa: “Em São Paulo, graças a Deus a música rola, você ouve essas coisas. De noite você pega um táxi, tá tocando essas coisas, tocam as músicas de Orlando Silva, tão importantes, formando música consciente, a raiz mesmo”.

Falamos de Geraldo Pereira, e ele cantou um de seus sambas, “Escurinho”, do começo ao fim, sem nenhum erro. Aí arrisquei: “Você vai ficar esse fim de semana aqui?”.

“Vou, vamos nos encontrar.”

“Você tem alguma coisa planejada?”

“Não tenho não, Zuza, vou escrever seu telefone, vou escrever tudo. Eu quero lhe mostrar uma coisa antes.”

“Claro.”

“Zuza, você fala italiano?”

“Todo mundo de São Paulo fala um pouco.”

Mais uma vez João vai ao gravador e toca “Estate” até a metade.

“De quem é essa música?”

“Bruno Martino. Estive em Viareggio há uns doze ou catorze anos.”

“Em 62?”

“Sim, por ali.”

“É linda, parece feita para você.”

“Parece do Brasil italiano, misturou um pouco, né? É tão bonita essa música. Bruno Martino. Ele é cantor.”

“Que disco lindo. Tá para sair?”

“Só em abril.”

“Sai primeiro aqui, não é?”

“Eu queria propor que saísse simultaneamente. Queria, minha terra. Foi gravado em janeiro, em Los Angeles. Eu fiquei aqui, gravei aqui. Claus levou o tape e botou as cordas em Los Angeles. Eles fazem muito isso aqui, Zuza. Você conhece o George Benson?”

“Tenho ouvido.”

“George Benson fez o tape, Claus levou para a Alemanha e…”

Nesse momento acabou a fita de meu gravador, a conversa estava no fim. Nas tardes seguintes ela prosseguiu no quarto do hotel da rua 56, onde João estava hospedado. Foram muitas as tardes de 1977 em que ouvi João cantar naquele quarto. Nossa amizade teve mais um capítulo, e a trilha eram as músicas de Amoroso.

Nos meses seguintes, meu telefone tocava altas horas da noite para conversas que avançavam madrugada adentro, como se João estivesse no apartamento ao lado. Ele falava de Nova York e sabia tudo sobre o Brasil, sobre a música brasileira, que amava com devoção.

Ouvir João Gilberto era um prazer para ouvidos exigentes. O mesmo rigor com a emissão vocal de quando cantava se percebia nos telefonemas de madrugada. Não se perdia uma vogal ou consoante. Não era só que João cantava como falava: ele também falava como cantava, articulava cada palavra com dicção perfeita, sem gritar, não se perdia nada do que dizia, mesmo se a gente afastasse um pouco o ouvido do telefone. Sua preocupação com a emissão de voz sempre foi uma constante exercitada exaustivamente.

Seu sotaque não era tipicamente baiano, ele não abria em demasia certas vogais; seus esses intermediários não soavam como ch, mas eram sibilados como deve ser o esse, um fonema surdo sem vibração das cordas vocais, um som sussurrado. Na função plural, o esse nunca deixava de ser ouvido no final das palavras. Quando tinha som de zê, como em Brasil, ele emitia um zunido instantâneo com a conveniente vibração das cordas vocais.

O telefone não era para dar ou receber recados, mas seu meio preferido de comunicação. Consta que foi Tim Maia quem sacou essa: “João não é uma pessoa, é um telefone”. Ele adorava passar horas e horas ao telefone, independentemente da distância que o separava do interlocutor. A maioria das pessoas com quem conversava nunca o teve diante dos olhos, estavam na outra ponta de uma chamada. Um telefonema noturno seu era uma visita sob a forma de diálogos extensos e deliciosos, sobre os mais diferentes assuntos. João não tinha noção do tempo. Nem do tamanho da conta.

Sua memória dos hábitos dos interlocutores era impressionante, como impressionante era sua capacidade de estar sempre atualizado, o que destoava de sua vida reclusa. Para os que tiveram a oportunidade de receber uma ligação sua, um telefonema era uma experiência.

Muitas vezes o diálogo era interrompido, ele precisava fazer algo que o interlocutor não sabia exatamente o que era. O intervalo em geral era curto, mas também podia durar o tempo de uma refeição. Era melhor do que interromper e ligar mais tarde.

João discorria sobre qualquer tema. Falava de futebol com o conhecimento tático de um técnico  profissional; discorria sobre outros esportes, exaltando sua admiração por atletas brasileiros; podia descrever o passarinho que vira tão infeliz na janela e como se penalizara com a tristeza da avezinha; podia se condoer de uma formiguinha esmagada por acaso; era capaz de descrever com precisão o que acontecia de mais relevante na cidade do interlocutor, como se lá estivesse; cantarolava trechos de velhas canções ou criava sons onomatopaicos de assombrosa originalidade. E se por acaso o assunto música viesse à tona, ele não conseguia segurar a empolgação, sua fé no futuro dos músicos, compositores e cantores, revelando um sentimento de brasilidade contagiante. João era um patriota.

Houve um momento em que um suposto círculo de amigos seus acreditava piamente na veracidade de mensagens via Facebook que eram postadas por um suposto perfil seu. Eram fakes. Nunca se descobriu quem estava por trás disso. Não era João, ele se comunicava pela voz. Uma voz inesquecível, precisa como a batida de seu violão, cristalina nos telefonemas de madrugada. E ele falava sem parar sobre o que jornalistas do mundo inteiro procuravam em vão saber nas entrevistas. E falava sobre o que não se esperava.4

Certa ocasião, por coincidência tomamos a mesma ponte aérea. Minha mulher sentou ao lado dele e se encantou com sua simpatia. Ele foi logo puxando papo, perguntando se Ercília tinha medo de avião, e ela, falante, embarcou na boa na dele. A todo momento eu me virava para trás, curioso para saber de que falavam. Minha inveja era tamanha, minha curiosidade era tanta, que no meio do trajeto minha mulher propôs que trocássemos de lugar. Conversamos, João e eu, até o avião aterrissar no Santos Dumont. Foi quando seu acompanhante, que por algum motivo sentava mais atrás, se aproximou para conduzi‑lo.

* * *

Em 2000 recebi um telefonema de Moacyr Octávio Castilho, conhecido nos meios musicais como Otávio Terceiro, fiel escudeiro de João, me convidando para um evento no Rio de Janeiro, uma dessas gentilezas dele sobre as quais pouco se comenta. Incluía passagens aéreas para Ercília, estadia completa no Caesar Park, carro de luxo do aeroporto para o hotel, do hotel para a festa, enfim, um convite de grand seigneur. Ercília parecia não entender a razão do gesto, mas era impossível negar um convite de João.

Tratava‑se da festa de confraternização de ex‑alunos do professor de direito Simão Benjó, que pretendiam homenageá‑lo no salão Le Buffet, no Rio Comprido. Acontece que o professor Benjó atuava na ação contra a gravadora EMI movida por João, que em sinal de gratidão quis oferecer ao amigo advogado uma apresentação durante a festa.

No salão, bandejas passavam com casadinhos de camarão, bolinhas de queijo, croquetes, pasteizinhos, tudo regado a champagne e scotch, aditivos que contribuíam para o clima animado e barulhento. Numa alegria contagiante, os convivas comiam e bebiam à farta, dançando ao som de um conjunto liderado pelo grande saxofonista Juarez Araújo. Não bastasse, cantores amadores — ex‑alunos do professor que não resistiam ao feitiço do palco — exibiam dotes abandonados nos recuerdos da época de juventude, entoando “Samarina”, “Casa de campo” e outros hits dos anos 60.

Mal tive tempo de encontrar João antes do show. Quando abri a porta de uma saleta que lhe servia de camarim, encontrei‑o sozinho, tomando um café com leite. Tranquilo, perguntou por Ercília. Falamos por uns minutos e voltei para a balbúrdia do salão, deixando‑o só. O nível de barulho aumentava gradativamente a cada novo gole dos presentes.

A horas tantas, o eminente jurista pediu silêncio. Para estupefação geral, anunciou à plateia de causídicos em algazarra uma grande surpresa: “O maior cantor do mundo, João Gilberto!”. Àquela altura, João já caminhava, violão a postos, em direção ao tablado, pedindo licença ao abrir caminho entre as mesas dos presentes, que mal podiam acreditar no que viam. “É ele mesmo”, disse um deles à esposa, ainda mais incrédula. João subiu o degrauzinho do tablado, sentou‑se na cadeira e, qual monge, ouviu de cabeça baixa os pródigos elogios do professor Benjó. Os oitocentos convivas responsáveis pela zoeira de infinitos decibéis foram simplesmente tocados pela varinha mágica em forma de voz e violão. Ouviram em silêncio total e adoraram cada canção.

João atacou os versos que descreviam precisamente aquela cena pandemônica, “Isto aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá/ esse Brasil que canta e é feliz”, recebidos com entusiamados e antecipados aplausos ao único recital‑festa de João Gilberto.

Uma das gemas era o samba “Às três da manhã”, de Herivelto Martins, de 1946, sobre um pracinha da feb que, de volta ao Brasil, depois da Segunda Guerra Mundial, quer festejar o Carnaval à sua moda. Cantou também “O pato”, mais vezes que as três costumeiras, e assim mesmo foi pouco, tantas eram as sutis novidades que introduzia a cada vez numa das mais lúdicas composições de seu repertório clássico. Atendeu ao pedido de “Esse seu olhar”, interpretou “Ave‑Maria no morro”, “Amor em paz”, “Insensatez”, “Retrato em branco e preto”. Mais tarde, guiados por seu violão certeiro, todos cantaram suavemente “Chega de saudade” e, afinados, entoaram “Desafinado” como se tivessem ensaiado à exaustão na véspera. Alguém se aventurou a pedir “Minas Gerais” (confesso que estremeci), e João nem hesitou: “Oh, Minas Gerais, Oh, Minas Gerais/ quem te conhece não esquece jamais/ Oh, Minas Gerais”. Várias vezes, transformando canção tão singela num quase blues, tal o sabor harmônico e melódico incrementado sem ferir o original. Convidou o saxofonista Juarez para tocar com ele “Garota de Ipanema”, e ouvimos uma interpretação mais saborosa que a de Stan Getz. Ao final João atacou o “Parabéns a você” dirigido a três aniversariantes da noite. Era uma versão que eu nunca tinha ouvido: “Nesta data querida/ Parabéns a você/ Muita felicidade/ peço a Deus que lhe dê”, que deve ser como cantavam em Juazeiro, sua terra. Depois da última canção, como sempre e em qualquer lugar do mundo, ele se esgueirou rapidinho e desapareceu sem que ninguém conseguisse alcançá‑lo.

Por volta das três da manhã, deu o ar de sua graça num animado telefonema que, como sempre e em qualquer lugar do mundo, durou quase uma hora, contabilizadas as interrupções habituais e inexplicáveis que podiam durar alguns minutos. Falamos de tudo, até de música. Ercília já dormia. Apaguei a luz, puxei as cobertas, virei para o lado e dormi abençoado.

Programa completo de meu amigo João Gilberto.

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