Zuza Homem de Mello explica João Gilberto em biografia lírica e sentimental

Maior musicólogo do Brasil, morto no ano passado, encerra sua obra com o livro póstumo Amoroso, uma biografia definitiva sobre o maior nome da cultura brasileira; confira a íntegra do primeiro capítulo

Zuza (à esq.) pôde assistir a muitos momentos da vida de João Gilberto, sempre com a música como ponto de partida e principal tema
Zuza (à esq.) pôde assistir a muitos momentos da vida de João Gilberto, sempre com a música como ponto de partida e principal tema Arquivo pessoal

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Nomes maiúsculos da música brasileira, João Gilberto e Zuza Homem de Mello eram amigos de longa data, mas apesar de contemporâneos, só se conheceram quase dez anos depois de um ter ouvido o outro, no final dos anos 50.

João estava lançando seu primeiro disco e a imortal “Chega de Saudade” fez Zuza estacionar seu carro para que ele pudesse prestar atenção na canção que ouvia pela primeira vez, como detalha a apresentação de seu novo livro, “Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto”, que a editora Companhia das Letras cedeu à CNN (leia aqui).

Em três oportunidades, como trabalhava na produção de shows, pôde ficar perto do ídolo. Mas só em 1967 o conheceu pessoalmente para, a partir de um outro encontro, dez anos depois, nos Estados Unidos, ter iniciado uma amizade propriamente dita.

João estava prestes a lançar o sublime álbum Amoroso, de 1977, que batiza a última obra deixada por Zuza, que finalmente chega às livrarias. “Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto” é um resumo do principal legado que o paulistano queria deixar antes de morrer, gigantesco elogio sentimental a um personagem que considerava divisor da história da música brasileira.

O baiano João Gilberto, que morreu em 2019, não apenas inventou a bossa nova e amadureceu o Brasil suavemente, sem choques ou traumas, conduzindo tudo pela voz e pelo violão. Juntos, síntese de toda a musicalidade brasileira, sua voz e seu violão ergueram um cânone que forjou a base de nossa cultura.

Se o samba já havia se tornado o padrão ouro de nossa música graças a artimanhas políticas da era Vargas, o mago baiano, criado neste novo cenário musical, condensava suas principais qualidades como se burilasse porcelana.

A manha e o dengo se confundiam com a leveza e a sutileza de seu timbre, escolhendo fonemas, vogais e consoantes como a paciência de um jardineiro oriental, o rigor de um monge e a simplicidade de um xamã. Seu violão misturava harmonia, melodia e ritmo como se tudo fosse um mesmo movimento e até ruídos dos trastes, cordas e do corpo do instrumento entravam neste balé sonoro.

Zuza pôde assistir a muitos momentos da vida de João bem de perto, conversando longamente sobre quaisquer assuntos, sempre com a música como ponto de partida e principal tema. E além de amigo e confidente, era um verdadeiro devoto do baiano, colecionando histórias sobre João por onde passava.

A biografia reúne o trabalho de toda uma vida, uma vez que a história de João Gilberto também é a história da música brasileira, paixão maior de Zuza. E pelo livro o assistimos dissecar essas duas paixões, uma à luz da outra.

Zuza refaz diferentes caminhos percorridos por João: das gravações de seus discos à sua estada em Porto Alegre, antes de retornar ao Rio de Janeiro e fundar a bossa nova, passando por especiais de TV, espetáculos em diferentes países, a passagem pelo histórico Festival de Águas Claras (o Woodstock brasileiro), o jingle para uma marca de cerveja, a rigidez com a qual o músico lidava com seu trabalho e suas idiossincrasias pessoais.

Convidado, em 2016 pelo Instituto Moreira Salles (IMS) para catalogar o acervo de dez mil discos do historiador, o jornalista Lucas Nóbile, que já conhecia Zuza por entrevistas realizadas quando trabalhava nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, pôde conhecer de perto o ídolo da juventude, que descobriu nos dois volumes dos livros “A Canção no Tempo”, escritos por Zuza em parceria com Jairo Severiano.

“Durante dois anos, frequentei o apartamento dele e de sua companheira, Ercília Lobo”, lembra, com saudade, o jornalista. “Foram inúmeras tardes escutando aqueles álbuns e ouvindo Zuza contar histórias riquíssimas daquelas produções e de tantos e tantos personagens da música brasileira e do mundo. Naquele período, convivi mais com Zuza, com Ercília e com a família deles do que com meus próprios familiares. Foi, sem dúvida, uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida; e, aqui, não falo apenas de trabalho, mas de relacionamento humano mesmo.”

Nóbile estava apresentando mais um projeto com o mestre, a série de encontros online “Muito Prazer, Meu Primeiro Disco”, realizada em parceria com o Sesc Pinheiros, em que grandes nomes da música brasileira revisitavam seu disco de estreia.

Os dois primeiros foram realizados com Gilberto Gil e Chico Buarque e no dia em que o segundo episódio foi lançado, o jornalista soube da má notícia. “Acordei com várias chamadas perdidas no meu celular. Era, infelizmente, a notícia de que Zuza havia falecido naquela madrugada”, lembra o autor da biografia de Raphael Rabello (O Violão em Erupção, editora 34), que teve o prefácio escrito por Zuza.

“Com o tempo, entendi que a oportunidade de fazer aquelas longas e inesquecíveis entrevistas com Gil e Chico foram mais um presente que Zuza me deu.” A série seguiu sem seu padrinho e Nóbile continuou conversando com outros grandes nomes, como Alcione, Leci Brandão, Fafá de Belém e João Bosco, este último a quem Zuza dedica o livro sobre João Gilberto.

Outro amigo e parceiro de Zuza, o músico e professor Sérgio Molina, também lembra com carinho do mestre. “Havia uma amizade e um carinho mútuo, que de certa forma não é tão fácil encontrar em pessoas que trabalhem, pesquisem profundamente e ainda assim amem a música com a intensidade que Zuza fazia”, diz Molina.

“Foi o amor pela música que nos aproximou, como se tivéssemos encontrado um no outro a possibilidade de compartilhar essas experiências”, lembra Sérgio, que se aproximou de Zuza durante a Semana da Canção de São Luiz do Paraitinga, em 2010. “A partir daí foram várias situações, sempre intermediadas pela competência generosa da Ercília; Zuza por sete vezes abriu o ciclo de palestras especiais na pós-graduação em Canção Popular, que coordeno na Faculdade Santa Marcelina; e juntos participamos de eventos do Sesc, curadorias de prêmio.”

Molina lembra que João e Zuza são da mesma geração, com diferenças de menos de dois anos nas datas de nascimento e morte. Para o professor, João Gilberto revolucionou o violão e o canto popular brasileiro, e sua influência, mesmo que indireta, está vivamente presente nos artistas de hoje, tanto nos das gerações intermediárias, como Caetano, João Bosco, Gal Costa e Novos Baianos, quanto na cena atual, com Criolo, Juçara Marçal, Emicida e tantos outros.

João Gilberto revolucionou o violão e o canto popular brasileiro, e sua influência, mesmo que indireta, está vivamente presente nos artistas de hoje / Dario Zalis/Divulgação

Já Zuza é indiscutivelmente o mais importante musicólogo brasileiro dos últimos 50 anos, de acordo com Molina. Seu ouvido e sensibilidade foram finamente desenvolvidos ao longo de centenas, talvez milhares, de espetáculos que teve a oportunidade de acompanhar ao vivo, shows de Billie Holiday, Thelonious Monk e John Coltrane, passando por Elis Regina e Jair Rodrigues, todos os festivais da Record onde atuou como técnico de som, além de a nossa consagrada MPB dos anos 1970 em diante.

“Ainda assim, Zuza dedicava-se incansavelmente a uma criteriosa pesquisa musical, registrada em inúmeras entrevistas que gravou e cruzou, leituras e audições que fez. Nesse sentido, seus livros são relatos de um grande pesquisador que ao mesmo tempo foi testemunha e muitas vezes até promotor de eventos marcantes da história da nossa música popular”, acrescenta Molina.

Lucas Nóbile concorda. “João Gilberto é o artista mais importante não apenas da música, mas da cultura brasileira, porque ele influenciou quase todo mundo que veio depois dele. E ele foi muito maior do que qualquer definição, rótulo ou movimento musical. Quem ainda se prende a classificá-lo apenas como ‘o pai da bossa nova’ definitivamente não entendeu a dimensão de João Gilberto. De Zuza, basta dizer que ele foi o maior musicólogo do Brasil”, crava.

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