"Copan" transforma concreto em afeto e mostra além do cartão-postal
Carine Wallauer propõe olhar para além da arquitetura e mergulha nas relações que sustentam o cotidiano do prédio
Cartão-postal da capital paulista e um dos marcos da arquitetura modernista brasileira, o Edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, desperta fascínio pela grandiosidade da estrutura e pela imponência da fachada curva. No documentário “Copan”, no entanto, a diretora Carine Wallauer desloca o foco arquitetônico para aquilo que, segundo ela, realmente dá sentido ao edifício: as pessoas.
“Mais do que a fachada, o que torna especial são as pessoas que trabalham ali. Não é sobre o concreto, é sobre o cuidado. Não é um filme sobre o prédio, mas sobre a condição humana”, afirmou a cineasta em entrevista à CNN Brasil.
Moradora do edifício por sete anos, Carine contou que o filme nasceu da experiência cotidiana dentro do prédio e da percepção de que a história do Copan não poderia ser reduzida a um registro arquitetônico.
Segundo a diretora, a proposta nunca foi produzir uma obra explicativa sobre a trajetória histórica do edifício, inaugurado em 1966 e reconhecido como um dos maiores prédios residenciais da América Latina.
“Se eu tivesse feito apenas um filme informativo sobre a história do Copan, ele não teria esse mesmo nível de identificação”, disse.
A proposta foi construir uma narrativa sensorial, guiada pela observação e pela imersão no cotidiano de moradores e trabalhadores -- revelando a tão perguntada experiência: "Como é morar no Copan?".
Muitos turistas param apenas na fachada. O filme tenta atravessar essa superfície e mostrar tudo o que acontece para cima e para baixo daquele concreto
Para Carine, a experiência proposta pelo longa ultrapassa o campo visual. A câmera percorre corredores, subsolos, elevadores e apartamentos, enquanto o som amplia a sensação de imersão. "Não é sobre o que a gente vê, é o que a gente sente.”
O que se vê e se sente no Copan?
Para Carine, os funcionários do Copan são quem sustentam o edifício. À CNN Brasil, ela ainda refletiu sobre a importância de prestar atenção nos trabalhadores.
“A gente precisa ouvir quem presta serviço para a gente. Todo mundo tem um mundo inteiro acontecendo dentro de si", afirmou.
Ao retratar assembleias, atritos e negociações cotidianas desse prédio de 32 andares, 1.160 apartamentos e cinco mil moradores, o documentário apresenta o condomínio como uma espécie de microcosmo da vida urbana e das tensões sociais brasileiras.
“O Copan participa do filme quase como um organismo vivo. Ele tem um magnetismo muito forte. É uma energia difícil de nomear, mas que te chama.”
Carine avalia que a convivência coletiva dentro do edifício oferece uma metáfora potente sobre política e democracia.
“A vida em condomínio te obriga a conviver com pessoas que você não escolheu. Se isso não é exercer política diariamente, eu não sei o que é.”
Para a diretora, é justamente nessa convivência forçada -- entre divergências, disputas e acordos -- que emerge a dimensão mais universal do filme.
"Copan" venceu o festival de documentário É Tudo de Verdade, foi exibido em festivais ao redor do mundo e chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira (28).


