Documentário traz discussão sobre amor analógico na era digital
À CNN, a diretora de "Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem", Natara Ney, conta como foi rastrear um casal que trocou correspondências na década de 1950

Uma linda investigação começa a partir da Praça XV, no centro do Rio de Janeiro. Por lá, em uma feira de antiguidades, a cineasta Natara Ney garimpava alguns objetos quando encontrou um lote com mais de 100 cartas.
Logo identificou que fora uma mulher chamada Lúcia que havia escrito todas aquelas correspondências para Oswaldo, entre 1952 e 1953.
Encantada com o que acabara de achar, com a delicadeza das palavras e com o amor daquela moça transcrito tão verdadeiramente nos textos, Natara diz que pensou em fazer alguns curtas, ou até um clipe, com trechos daqueles papéis, mas, à medida que a busca avançava, mudou de ideia.
Foram tantas pessoas sendo entrevistadas e com a investigação se estendendo por duas cidades diferentes, Campo Grande e Rio de Janeiro, que a produção virou um longa-metragem e uma missão pessoal para Natara.
"Foi como se eu tivesse achado uma carteira cheia de dinheiro", diz a cineasta. "Eu precisava achar o casal ou até mesmo a família deles, achei que gostariam de receber esse presente".
"Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem" se desenrola como um poema, com takes longos, entrevistas sensíveis, sendo o eu-lírico a própria diretora que, inclusive, estava sofrendo por amor.
A cinematografia é repleta de imagens da vida pacata de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, contrastando com a metrópole cosmopolita que é o Rio de Janeiro. Nas duas cidades, naturalmente, o tratamento à equipe foi diferente, mas, por ser uma história de amor, a diretora encontrou muitas portas abertas.
"Tudo foi filmado em uma semana, não tínhamos grana para fazer qualquer tipo de prévia, entrávamos nas casas da pessoas já gravando. Mas não se trata de um tema bélico, é um tema de afeto, o que ajudou no acolhimento ao nosso projeto por parte dos entrevistados, eles se desarmavam", diz.
Foram essas pessoas que trilharam o caminho para a equipe de Natara seguir, fosse através de uma vaga lembrança de Lúcia e de Oswaldo ou ajudando na investigação por meio de fotos e documentos antigos, por exemplo.
Durante o filme, quando a conversa envereda para esse caminho, o tema da preservação histórica entra em cena, mesmo que de forma subliminar.
A história do Brasil também passa pelas cartas de Lúcia e Oswaldo - é graças à preservação direta e indireta de memórias de amigos e conhecidos que essa história pode ser contada.
"Eu sou negra, minha mãe é negra e minha avó é negra, nós conhecemos bem o processo de apagamento de histórias", diz Natara. "O filme, na verdade, nasce da minha avó que contava histórias, que mantinha uma tradição oral viva".
Natara manteve essa mesma oralidade no documentário. Os entrevistados não são identificados por meio de suas ocupações ou da sua idade, eles não têm sequer um nome indicado no filme assim que aparecem.
"Não me interessava que eles tivessem qualquer identificação, mas sim que aquela pessoa fosse um link do caminho que eu estava percorrendo com essa investigação, como se fosse um amigo que encontrei em um café".

É com essa intimidade que a câmera te leva no filme. Sempre com planos fechados, focando em mãos, em gestos de carinho, em sorrisos e sempre muito paciente com o que os entrevistados têm a dizer.
A divagação das pessoas sobre o amor dá um charme especial ao documentário. Para algumas delas, o amor é um ato de fé, é um sentimento que impulsiona tudo para frente. Uma das entrevistadas relembra perguntar ao carteiro: "Tem carta para mim? É de amor ou de cobrança?".
Outro entrevistado diz que a geração de hoje em dia não tem memória, já que tudo que possuímos está no digital, inclusive os gestos de cuidado e amor. Ele arrisca: o romantismo está acabando.
Diante disso, Natara fala, que em sua opinião diretora, não, o romantismo não está acabando, está em constante transformação e presente em diversas situações.
"É romântico estar numa ilha de edição terminando meu filme, é romântico estarmos tendo essa conversa ao invés de você somente me mandar as perguntas por mensagem, é romântico eu pedir para o meu companheiro, um homem negro, avisar quando ele chega em casa", diz.
"Estamos descolonizando o romantismo e reencontrando relações. Não há mais espaço para relações encaixotadas."


