"Guerreiros do Sol": o que é real ou ficção, segundo escritor sobre Lampião

Wagner G. Barreira é autor do livro "Lampião e Maria Bonita, uma história de amor e balas" que narra a história do casal que inspirou os protagonistas Josué e Rosa, da novela do Globoplay

Felipe Carvalho, da CNN
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"Guerreiros do Sol" é uma novela inspirada na história real de Lampião e Maria Bonita, que deixou o público extasiado com as cenas de extrema violência vividas pelos protagonistas Josué (Thomás Aquino) e Rosa (Isadora Cruz). A trama é uma adaptação do livro homônimo de Frederico Pernambucano de Mello, publicado em 1985, que conta a história dos cangaceiros que tiveram seu auge no início dos anos 1930, no sertão brasileiro. Mas o que é verdade e o que é ficção na história contada no Globoplay?

A CNN convidou o escritor Wagner G. Barreira, autor do livro "Lampião e Maria Bonita, uma história de amor e balas" (Editora Planeta, 2018), para responder algumas dúvidas pertinentes sobre a história de Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, e Maria de Déa, apelidada de Maria Bonita, e o contexto social que eles viviam naquela época. O jornalista e escritor explica que sua obra é uma "ficção coletiva", um conceito criado pelo filósofo Hans Magnus Ensesberger.

"A história de Lampião é ficção coletiva, contada há quase um século por narradores e protagonistas dos eventos que, por vezes, moldam a História às suas necessidades, convicções e ambições, por autores que tomam partido ou simplesmente escancaram a ficção. Há de tudo nas narrativas, um arco que vai do herói sertanejo que combateu desigualdades, passa pelo homem de negócios que transformou o cangaço em medo e meio de vida e chega ao assassino sanguinário, ao bandido sem escrúpulos. São formas justas e possíveis de tratar de um sujeito complexo feito Lampião, que foi tudo isso – e algo muito mais", descreve.

"Guerreiros do Sol" escrita por George Moura e Sergio Goldenberg troca os nomes de todos os personagens da história real, o que dificulta fazer uma pesquisa sobre a realidade dos fatos em uma busca pela internet. Além de Josué e Rosa, outros personagens tinham nomes diferentes na realidade, como Otília (Alice Carvalho) que era Mariquinha (era irmã de Lampião), Arduíno (Irandhir Santos) que se chamava Antonio (mas não era um traidor), Miguel Ignácio (Alexandre Nero) na vida real era Sinhô Pereira (e não morreu, mas deixou o cangaço), Gasolina (Ênio Cavalcante) era Zé Baiano, Cheiroso (Rodrigo Garcia) se chamava Dadá e até o fotógrafo Almir (Kaysar Dadour) existiu de verdade, um libanês chamado Benjamin Abraão Calil Boto, secretário de padre Cícero.

Aliás, por falar no pároco que é muito respeitado no nordeste até hoje, é representado na novela como padre Bida (Rodrigo Lélis), irmão caçula de Josué, mas padre Cícero e Lampião não tinham qualquer tipo de parentesco, apesar de se conhecerem.

Veja as perguntas e respostas sobre o que é verdade e o que é ficção em "Guerreiros do Sol":

1) Josué e três irmãos decidem entrar para o bando de Miguel Inácio, o cangaceiro antecessor de Josué, após o assassinato do pai. Lampião tinha um antecessor? Quem era ele? Foi assim que ele entrou para o cangaço?

Lampião teve vários antecessores. O cangaço como fenômeno social no sertão nordestino tem raízes no passado colonial. A organização em bandos armados, uniformizados e nômades vem do final do século XIX. Entre os “antecessores” de Lampião destaca-se Jesuíno Brilhante, que atuou entre 1870 e 1879, vindo de uma família de fazendeiros. Muitos dos mitos associados a Lampião, na verdade, nasceram das ações de Jesuíno, considerado justo e que atuava em defesa dos mais pobres. Lampião aderiu ao bando de Sinhô Pereira, descendente do Barão de Pajeú, na região de Serra Talhada. O cangaço pré-lampiônico está associado a disputas de terra por clãs familiares. Quando Sinhô abandonou o cangaço, a pedido de Padre Cícero, passou o comando do bando a Lampião, nos primeiros anos da década de 1920. Quando criança, Virgulino encarnava nas brincadeiras o bandoleiro Antonio Silvino, conhecido como Rifle de Ouro. Jamais o perdoou por se entregar à polícia em 1914.

2) Josué se apaixona por Rosa, que ele conheceu em um forró, aleatoriamente. É assim que Lampião e Maria Bonita se conhecem?

Não, definitivamente. Maria era uma das filhas de Zé de Felipe, um “coiteiro” – pequenos fazendeiros que davam abrigo aos cangaceiros. Lampião a conheceu em uma das várias visitas que fez à fazenda de seu pai (que, a princípio, era contra o romance). O que se sabe é que um dos lugares-tenentes e compadre de Lampião, Luís Pedro, conheceu Maria e disse ao chefe que havia encontrado uma mulher “bonita como uns amores que, apesar de não lhe ter visto pessoalmente, gosta de você”. Lampião desconversou: “Compadre, eu cismo com essas amorosas”.

Diante da insistência de Luís Pedro, o cangaceiro capitulou: “Pois bem, semana que entra irei olhar pra cara dessa pavoa”. Diz a lenda que Lampião se apaixonou imediatamente por Maria e pediu que bordasse alguns lenços de seda, que viria recolher tempos depois.

Diferentemente da novela, em que Josué conhece a amada antes de se tornar cangaceiro, o que atraiu Maria foi justamente a fama de Lampião, temido e respeitado em todo o norte da Bahia.

3) Um dos pontos-chave da história da novela é a traição de Arduíno, um dos irmãos de Josué, e lidera a Força de Combate ao Cangaço. Esse irmão traidor realmente existiu?

Não, nunca existiu um irmão traidor na família Ferreira. Dois irmãos de Lampião entraram com ele para o cangaço após a morte do pai: Antonio, que era mais velho, e Livino, mais novo que Virgulino. Tempos depois da morte dos pais, Lampião enviou a família para o Ceará, onde viveram sob cuidados de padre Cícero em Juazeiro do Norte. Ele nunca teve irmão padre.

4) A mãe de Josué tem um surto psicótico e é amparada pelo filho padre, chamado Bida. Quem era a mãe de Lampião?

A mãe de Lampião se chamava Maria Lopes e tinha problemas cardíacos, não psicológicos. Morreu pouco tempo antes do assassinato do marido, José Ferreira, pela polícia. O casal estava a caminho da cidade alagoana de Mata Grande quando Maria desmaiou. José foi à cidade em busca de provisões e a deixou com conhecidos na fazenda Engenho. Ela estava conversando, de cócoras, quando começou a passar mal e morreu de infarto, aos 47 anos.

5) Otília, irmã de Rosa, também entra para o cangaço. Maria Bonita tinha uma irmã, que era sua grande amiga?

Maria tinha 11 irmãos e irmãs, algo comum no sertão nordestino da época. Mas quem a acompanhou quando decidiu se juntar ao bando de Lampião foi sua cunhada, irmã de seu marido, chamada Mariquinha (que também abandonou o marido).

6) Josué oferecia festa e dava dinheiro ao povo, uma espécie de Robin Hood. Lampião conquistava o povo com esse mesmo caminho?

Lampião se impôs principalmente pelo terror, mas ganhou o respeito dos sertanejos pela valentia, algo muito admirado na região. Também era conhecido por ser homem de palavra e ter um apurado senso de justiça. Ao contrário do protagonista da novela, tinha fama de mão de vaca, e distribuía moedas e dinheiro curto de seus botins. As festas se tornaram comuns quando Lampião se estabeleceu na Bahia. Ajudava Lampião a reforçar o bando com novos cangaceiros e, depois de Maria Bonita, a encontrar mulheres que decidissem se incorporar ao bando. Um parêntese aqui: Maria Bonita e Mariquinha são exceções, a maioria das mulheres do bando de Lampião foi sequestrada. Dadá, companheira de Corisco, foi sequestrada e estuprada por ele quando tinha 13 anos.

7) Os cangaceiros na novela andam muito "aprumados" e Josué faz questão que o uniforme seja bem alinhado. Lampião também era um homem vaidoso a esse ponto?

O uniforme do cangaceiro, que o escritor e pesquisador Frederico Pernambucano de Mello compara aos trajes de samurais e às armaduras medievais em utilidade e beleza, deriva da roupa de couro dos vaqueiros. O próprio Lampião deixou-se filmar manejando uma máquina de costura Singer e, na juventude, era famoso por seu trabalho cuidadoso em couro. Lampião era muito vaidoso, e parte da estética do cangaço, como o uso de anéis, correntes e adereços deve-se a ele. Há um episódio em que o bando invade a cidade de Custódia (PE) e Lampião encomenda algumas roupas a um alfaiate (e pagou por elas), para ele e seus lugares-tenentes, desde que ficasse pronta no mesmo dia. O alfaiate, claro, entregou o serviço.

A roupa dos cangaceiros não era só cáqui. Na fase baiana do bando usava-se um uniforme azulado. Quando se encontrou com padre Cícero em 1926 e tornou-se capitão dos batalhões patrióticos que combatiam a Coluna Prestes, recebeu do governo brasileiro, além da patente, fuzis e uniformes do exército brasileiro (e uma soma em dinheiro).

Os bornais (bolsas de brim) bordados, estrelas e outros símbolos medievais que apareciam nos chapéus, moedas colocadas nos cintos das armas foram criações de Dadá, ao tempo em que o bando se refugiou no Raso da Catarina, sempre com aval de Lampião. Outro elemento da vaidade, esse invisível aos olhos, eram os perfumes, usados até nos cavalos. O problema é que perfumes, quando misturados ao suor dos cangaceiros, davam origem a uma catinga que era percebida à distância.

8) Josué também gostava de ver seu rosto estampado nos jornais e exigia que os cangaceiros estivessem na foto. Por diversas vezes, ele manda chamar um jornalista e um fotógrafo para dar entrevistas. Lampião queria ser famoso?

Sim, a entrevista mais célebre de Lampião foi ao médico Octacílio Macedo, publicada em O Ceará, em 1926, durante a visita a Juazeiro do Norte. Macedo o descreve como calmo e decidido, pesando bem as palavras. Lampião descreveu-se como um homem de negócios: “Se o senhor estiver em um negócio e for se dando bem com ele pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso”. E reclamou que suas despesas eram “vultuosas”. Em Juazeiro, ele conheceu um personagem curioso, o libanês Benjamin Abraão Calil Boto, secretário do padre Cícero. Dez anos depois, Benjamin Abraão, munido de uma filmadora, encontrou-se com o bando de Lampião e Maria Bonita na Bahia e fez um documentário curto, que não foi exibido por ordem do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo de Getúlio Vargas. O chefe do DIP, Lourival Fontes, proibiu a obra por “atentar contra os créditos da brasilidade”. Mas Boto publicou uma série de reportagens sobre o cangaceiro no Diário de Pernambuco. Lampião colecionava matérias a seu respeito e foi caso raríssimo de personagem que pode ler a própria biografia em vida, escrita e publicada pelo sergipano Ranulfo Prata em 1934.

9) Josué se autointitula "governador do sertão". Lampião também?

Lampião foi o “governador do sertão” em carne e osso. Em novembro de 1926, Lampião venceu sua maior batalha e desfilou seu gênio militar na batalha de Serra Grande. Organizou sua tropa soldado a soldado nos paredões da serra e trucidou uma força que reuniu seis comandantes da polícia e mais de 300 homens, quatro vezes mais que as forças do cangaceiro. Um dos militares, Arlindo Rocha, se recusou a interromper a marcha para almoçar. “Eu hoje quero é comer bala”, disse. O desejo foi atendido pouco depois, tomou um tiro que destroçou sua mandíbula e ganhou o apelido de Queixo de Prata. Foi um massacre, soldados apareciam desarmados e seminus em vilarejos a dezenas de quilômetros do local, totalmente desorientados. Dias depois, Lampião entregou uma carta junto com um refém libertado, dirigida ao governador de Pernambuco Julio de Melo, com uma proposta para “acabar de vez com as brigas”, em seus termos: “Eu, Governador do Sertão, fico governando essa zona de cá, por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor do seu lado, governa do Rio Branco até a pancada do mar. Isso mesmo. Fica cada um no que é seu”.

10) Josué tinha contatos sigilosos com pessoas da política, como senadores ou deputados. Lampião tinha esses contatos com políticos?

Para ficar num exemplo, Lampião era amigo pessoal Erônides Carvalho, capitão-médico do exército e filho do fazendeiro Antônio Caixeiro. No primeiro encontro, Carvalho ofereceu ao cangaceiro uma garrafa térmica e queijos importados, luxos no sertão. Com a Revolução de 30, o jovem capitão se transformou em governador e mais tarde interventor em Sergipe. As tropas do estado nunca atacaram Lampião, que recebia do governador caixas de uísque White Horse e do perfume Fleurs d’Amour, seu preferido.

11) Rosa foi casada por conveniência com um fazendeiro, antes de se juntar a Josué. Como era a vida de Maria Bonita pré-Lampião?

Maria Bonita, à época Maria de Déa, o nome de sua mãe, tinha um casamento arranjado com seu primo Zé de Neném, sapateiro de profissão, boêmio e mulherengo. O casamento vivia em crise e a cada briga Maria voltava para a fazenda dos pais. Assim ela conheceu Lampião. Há relatos que, em uma separação anterior, ela teria se envolvido com um jovem fazendeiro e chefe político na região de Paulo Afonso (BA) chamado José Maria de Carvalho. A amizade entre os dois permaneceu até depois de sua união com Lampião.

12) Uma das mulheres que acompanham o bando tinha sido sequestrada, Adelzira, e queria fugir de lá. Ela é dominada por um dos cangaceiros chamado Gasolina. O nome dessa mulher na vida real era Lídia, conhecida por sua beleza, que era dominada pelo cangaceiro Zé Baiano, que a matou a pauladas por ela tê-lo traído. Confirma essa história?

Não sei se há uma correspondência com Lídia, companheira do cangaceiro Zé Baiano, famoso por marcar mulheres a ferro. Lídia era considerada a cangaceira mais bonita e teve um caso com um dos rapazes do bando, o cangaceiro Bem-Te-Vi. O affair teria durado dois ou três anos. Lídia, corajosamente, confirmou a traição. Zé Baiano amarrou a companheira a um tronco de árvore durante toda uma noite e a matou a pauladas nos braços, pernas e cabeça na manhã seguinte. Depois, a enterrou em uma cova rasa e chorou sobre a tumba.

13) Ainda sobre a história de Adelzira, Gasolina reclamou com Josué sobre a traição e o governador do sertão exigiu que a soltasse "porque no bando não se maltrata mulher". Existia esse respeito de Lampião, de algum modo, pelas mulheres?

Lídia foi dedurada por um cangaceiro, que teria pedido sexo em troca de silêncio. Ela negou e foi denunciada a Zé Baiano. Lampião mandou matar o dedo-duro. No bando não se maltratava as mulheres, mas há relatos de abusos a esposas de policiais. Como disse, Zé Baiano marcava mulheres a ferro e fez isso diante de Lampião.

14) Rosa quer muito sair da vida de cangaço e insiste com Josué para fugirem pelo mundo para ter paz. Lampião tinha planos de deixar o cangaço em algum momento?

Há quem defenda que sim, Lampião e Maria Bonita tinham planos de abandonar o cangaço e mudar-se para Minas Gerais. Essa história carece de confirmação. A hipótese sobre deixar o cangaço é tratada no livro Apagando o Lampião, de Frederico Pernambucano de Mello.

15) A morte de Josué acontece pela manhã, depois que todos passam a noite em uma grande festa de "despedida de Josué", que vai deixar o cangaço e viver a vida com Rosa e a filha, Maria. Maria Bonita sobrevive à chacina? Como a filha de Maria Bonita sobrevive, já que na época ela tinha apenas cinco anos?

Aqui, como diz a canção, a história carece de exatidão. Não houve festa em Angico na véspera da morte de Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros. Todos foram degolados e as cabeças seguiram de cidade em cidade até a capital de Alagoas. O casal teve uma filha, Expedita, nascida em 13 de setembro de 1932, que foi entregue recém-nascida ao vaqueiro Severo Mamede e sua mulher, Aurora. Seis anos, portanto, antes das mortes em Angico.

16) Com quem ficou a filha de Lampião e Maria Bonita? Como ela sobreviveu ao cangaço?

Ela passou a infância com a família do vaqueiro Mamede, longe do cangaço. Recebia visitas eventuais dos pais biológicos e dizia que sentia medo de Lampião. Aos oito anos, seu paradeiro foi descoberto e ela passou a viver com o tio, João Ferreira, o único homem da família a não aderir ao cangaço. Casou-se em 1947 e teve quatro filhos. Expedita só descobriu a verdade sobre seus pais em 1969 ao ser convidada para o lançamento de um livro em São Paulo e só agregou o sobrenome Ferreira aos documentos em 2016.

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