Livros clássicos sobre mulheres inspiram gerações e seguem entre mais vendidos

Obras lançadas anos, décadas e até séculos atrás retratam luta por igualdade entre gêneros ao longo da história e encabeçam listas de vendas no Brasil

Livros lançados há anos fazem sucesso entre leitoras na atualidade
Livros lançados há anos fazem sucesso entre leitoras na atualidade Foto: Gettyimages

Anna Gabriela Costa, da CNN, em São Paulo

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Clarissa Pinkolá Estés, Margaret Atwood e Emily Bronte. O que une essas três mulheres?

Todas são autoras que escreveram livros feministas muitos anos atrás e hoje encontram-se no topo de livros mais vendidos no Brasil, com suas obras Mulheres que Correm com os Lobos (de 1989), O Conto da Aia (de 1985, que inspirou a série The Handmaid’s Tale) e O Morro dos Ventos Uivantes (de 1847. Sim, 1847).

Uma das razões que explicam o sucesso comercial de livros, filmes e séries mais antigos e com viés feminista é, segundo especialistas ouvidos pela CNN, é a sensação de conforto na identificação com as indignações que antigas gerações de mulheres já sentiam em relação às desigualdades entre os gêneros.

Mestranda em Literatura Inglesa na Universidade de São Paulo (USP), Luiza Provedel cita o clássico Segundo Sexo, publicado por Simone de Beauvoir em 1949, para dizer que “não se sabe historicamente onde começa a opressão da mulher, de tão distante na história”.

“Por mais que existam livros escritos por mulheres, como por exemplo, em 1792, Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, há dois séculos a mulher chama para a narrativa contra a opressão da mulher, mas a narrativa vigente continua sendo a do patriarcado. A cada nova geração de meninas que se encontram nesse mundo e começam a suspeitar que tem algo estranho, elas precisam fazer uma redescoberta”, diz.

Mulheres que Correm com os Lobos foi lançado em 1989, mas três décadas depois foi o segundo livro mais vendido pela Amazon brasileira em 2020, atrás apenas do sucesso Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

A escritora, jornalista e educadora Paula De Donato atribui o sucesso contemporâneo do clássico de Clarissa Pinkolá Estés à quebra do rótulo de que mulheres são frágeis e delicadas. 

“Nessa obra, a psicanalista Clarissa Pinkola Estés não apenas quebra esse mito, como nos coloca para pensar que a fonte de muitos problemas como a depressão, a ansiedade e a síndrome do pânico, entre outros, vem do fato de que as mulheres, há séculos, se deixaram aprisionar por uma cela invisível”, afirma a educadora.

“Renunciamos à nossa intuição inata, à nossa ligação com a natureza, com a nossa ancestralidade e renegamos uma sabedoria milenar para exercemos papéis que nos foram impostos. É um livro que nos ensina a resgatar essa ligação com o universo e o invisível, seja qual for a sua crença”, completa.

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Estés aborda 19 mitos, lendas e contos de fada para tratar da natureza instintiva da mulher, que ela diz ter sido “domesticada” ao longo dos tempos em um contínuo processo de censura.

Publicado em 1985, O Conto da Aia foi impulsionado enquanto literatura pelo sucesso da série The Handmaid’s Tale, que é inspirada na obra. Trata-se de uma distopia onde as mulheres perdem todos os seus direitos e são convertidas em escravas, destinadas apenas à reprodução.

“É para ser ficção, mas é alarmantemente parecido com coisas que acontecem na nossa realidade”, diz Luiza Provedel.

“O livro, adaptado em série, que é um estrondoso sucesso, mostra o que pode acontecer quando nós, mulheres, não ficamos atentas às conquistas e manutenção de nossos direitos”, complementa a escritora Paula De Donato.

Livros que retratam o feminismo são sucesso de vendas na atualidade
Livros que retratam o feminismo são sucesso de vendas na atualidade
Foto: Arquivo Pessoal / Paula De Donato

Já em Morro dos Ventos Uivantes, livro da época vitoriana na Inglaterra, também está entre os mais vendidos da Amazon em 2020. O romance mostra uma mulher disposta a quebrar os padrões de que a mulher deve ser perfeita.

“O livro é de uma época que traz a ideia de mulher que perdura até hoje, daquela esposa perfeita, que cuida da casa, das crianças, do marido, nunca reclama, está sempre bonita e não tem interesses próprios. Esse livro é um romance incrível porque a gente tem uma heroína que desafia esses padrões, cheia de vontades, desejos e pensamentos, e não me espanta que a gente esteja querendo reler essas histórias”, diz Luiza.

E qual a importância em ter estas obras escritas por mulheres no topo de vendas? As especialistas acreditam no conforto em saber que não somos a primeira geração de mulheres a viver situações de opressão.

“Livros e séries que dão protagonismo ao gênero feminino mostram como as mulheres se enxergam e como enxergam o mundo. Como encaramos o assédio, a violência e a desigualdade. Quando isso é transportado para a tela ou para as páginas de livros, ganha forma, ganha notoriedade e é aí que as pessoas começam a pensar sobre isso. É dessa forma que os padrões começam a mudar. Dar voz é dar poder, visibilidade, é abrir espaço para que as nossas necessidades sejam vistas e sentidas como as necessidades de milhões de seres humanos”, comenta Paula.

Apesar do sucesso de vendas estas obras elaboradas por diferentes gerações de mulheres, ainda há um longo caminho a se percorrer, argumenta a mestranda da USP.

“A gente tem muitos séculos ainda para que a gente consiga de fato desestruturar o patriarcado capitalista, extremamente racista, homofóbico e preconceituoso. A luta é grande, a luta é contra muitos séculos de opressão, mas quanto mais a gente proporciona às mulheres a oportunidade de contar a sua história, mais passos a gente dá nessa direção”. 

Autoras brasileiras e contemporâneas

Temos hoje uma multiplicidade temática e estética na literatura brasileira de autoria feminina. “Nossas escritoras estão em alta produção, escrevendo sobre tudo, ganhando prêmios importantes dentro e fora do país. Vale ressaltar que não há uma escrita feminina, mas sim uma escrita de autoria feminina”, afirma a doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ, Cíntia Barreto, que destaca algumas escritoras. 

“Conceição Evaristo que influencia gerações com sua ‘escrevivência’; Eliana Alves Cruz, com textos de cunho históricos e memorialistas, Elisa Lucinda com sua poética visceral. Com narrativas que possuem o humor como forma de falar do universo das mulheres, destaco: Lívia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite e Claudia Tajes. Destaco ainda Maria Valéria Rezende, uma das idealizadoras do ‘Mulherio das Letras’ (coletivo literário feminista)”, diz Cíntia.

Ela destaca que as séries e filmes contribuem ainda mais para a visibilidade de escritoras, roteiristas, diretoras e atrizes, que encontram hoje espaços de produção e recepção de suas obras. “Há um público sedento por essas produções”. 

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Foto: Pixabay

Cíntia Barreto é coordenadora da pós-graduação Literatura Brasileira de Autoria Feminina e traz mais nomes de mulheres que contribuem com a literatura no país. 

“O aumento significativo de livros como o Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto (Bazar do tempo, 2019) organizado pela ensaísta, escritora e crítica literária, Heloisa Buarque de Hollanda contribui muitíssimo para a formação de jovens feministas”, prossegue Cíntia Barreto, que coordena uma pós-graduação em Literatura Brasileira de Autoria Feminina.

Dicas de livros, séries e filmes que retratam o feminismo 

“Acho que vale a pena resgatarmos, até mesmo como fonte histórica e para que entendamos que nossos direitos foram conquistados com muitas lutas, ao longo de séculos, obras como O Mito da Beleza, de Naomi Wolf; Um teto todo seu, de Virgínia Woolf e A Mística Feminina, de Betty Friedan. Há, também, Quem tem medo do feminismo negro, de Djamila Ribeiro e Para Educar Crianças Feministas, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie”, elenca a escritora e jornalista Paula De Donato.

Além dos livros, Paula também recomenda o filme Não sou um homem fácil (Netflix), as séries As Telefonistas (Netflix) e Ginny & Georgia (Netflix), bem como o documentário Feministas: O que elas estavam pensando? (Netflix) e o documentário que fala sobre a prisão e posterior libertação de Angela Davis, professora, filósofa e um dos principais nomes mundiais do feminismo negro, Libertem Angela Davis.

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