Lollapalooza Brasil tentará repetir sucesso da edição nos EUA contra a Covid-19

Em entrevista à CNN, médica americana especialista em doenças infecciosas explica que a redução de danos após o evento pode evitar onda de casos da variante Ômicron: “Não envolva outras pessoas no risco que você assumiu"

Visão aérea do show de Jack Harlow, no Lollapalooza Chicago de 2021.
Visão aérea do show de Jack Harlow, no Lollapalooza Chicago de 2021. Charles Reagan / Reprodução

Léo Lopesda CNN

em São Paulo

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No final do mês que vem, o Lollapalooza marcará o retorno ao Brasil dos gigantes festivais de música desde que a Covid-19 apareceu. Enquanto São Paulo ainda convive com os efeitos da variante Ômicron, a realização do evento gera ansiedade pela possibilidade de disseminação desenfreada do coronavírus.

A matriz do Lolla – que acontece na cidade de Chicago, nos Estados Unidos – reuniu cerca de 385 mil pessoas em agosto do ano passado. As autoridades de saúde pública consideraram que o evento foi um “sucesso” em termos de não se tornar um “superdisseminador” da Covid-19.

Em entrevista à CNN Brasil, a médica especialista em doenças infecciosas e professora associada da Universidade de Chicago, Emily Landon, foi enfática sobre o que pode garantir que a experiência brasileira também seja bem-sucedida: redução de danos.

“Se você for ao Lollapalooza, apenas presuma que você foi exposto. Faça o teste na semana seguinte, não visite seus avós mais velhos ou qualquer amigo ou familiar com altos riscos [de casos graves]”, pontuou.

“Você não pode impedir o Lolla de acontecer. Mas você pode dizer: ‘Olha, claro que há a Covid, vocês são jovens, provavelmente não vão ficar muito doentes mesmo que se infectem, mas vamos nos esforçar para tentar proteger aqueles que têm maior risco.'”, acrescentou.

A expectativa para o Lollapalooza Chicago

Após ter a edição de 2020 cancelada pela pandemia, no ano passado, o Lollapalooza de Chicago voltou para a comemoração de seu aniversário de 30 anos nos EUA – com shows de Foo Fighters, Tyler, the Creator, Post Malone e Miley Cyrus.

O Grant Park, no centro comercial da cidade, foi ocupado por mais de 170 shows em oito palcos diferentes entre os dias 29 de julho e 1 de agosto. A expectativa era de 100 mil pessoas por dia na plateia, mas os números finais fecharam em 385 mil durante todo o evento.

Naquele momento, a cidade de Chicago estava passando por um crescimento na onda da variante Delta do coronavírus. Eram cerca de 130 casos diários, em contraste a um número de 40 infecções diárias duas semanas antes. O condado onde a cidade fica localizada tinha uma taxa de vacinação na casa dos 60%.

As autoridades não estavam completamente seguras com a realização do festival. A comissária de Saúde Pública de Chicago, Allison Arwardy, dizia que esperava passar de 200 casos diários “e se mover para risco moderado” nos dias seguintes ao evento.

“Não posso prometer que não haverá nenhum caso de Covid associado ao Lolla. Quando você tem tantas pessoas vindo, quase certamente haverá alguns casos”, disse Arwady.

Exemplos ruins já estavam disponíveis para comparação. Poucos dias antes, o festival Verknipt, na Holanda, recebeu 20 mil pessoas em dois dias. Todos que entraram no local mostraram que estavam vacinados contra a Covid-19, se recuperaram da doença recentemente ou testaram negativo nas últimas 40 horas.

Mesmo assim, mais de 1 mil infecções foram registradas em pessoas ligadas ao evento. Um porta-voz da autoridade de saúde local da cidade holandesa de Utrecht disse à época que os números eram “bastante impressionantes” e que talvez tivessem “segurado o gatilho com dedo leve”, demonstrando que a autorização do evento poderia ter sido impulsiva.

Outro exemplo, o festival Latitude, no condado britânico de Suffolk, também registrou mais de 1 mil casos de Covid-19 entre 37 mil participantes do evento entre os dias 21 e 24 de julho do ano passado.

“É importante que as pessoas permaneçam cautelosas ao se misturar em ambientes muito lotados”, disse o secretário de Cultura do Reino Unido, Oliver Dowden, naquele momento.

Em julho de 2021, festival Verknipt, na Holanda, registrou mais de 1 mil casos de Covid-19 entre público de 20 mil pessoas. Autoridades ficaram impressionadas com disseminação do vírus / Verknipt / jordybrada.com / Reprodução

Foi nesse contexto que o Lollapalooza aconteceu em Chicago em uma proporção quase 10 vezes maior que os outros exemplos.

Entre as medidas restritivas contra a Covid-19 estavam o comprovante de vacinação na entrada ou um teste negativo feito até 72 horas antes. No penúltimo dia de evento, os organizadores anunciaram que também seria obrigatório o uso de máscaras em locais fechados do Grant Park.

“[Um festival] tem o potencial de resultar em um grande surto. Às vezes você vai ter sorte e ‘voar fora do radar’. Você também tem as pessoas que compareceram com Covid-19, mas não transmitiram, ou estiveram em torno de pessoas já imunes”, comenta a doutora Landon.

“E se você tiver sorte, é apenas isso. Em alguma dessas vezes, você não terá sorte. Se você não fizer nada para tentar tornar o evento seguro, você não terá sorte todas as vezes”, completou.

O saldo final

De acordo com os organizadores, das 385 mil pessoas que participaram do Lolla Chicago no ano passado, mais de 90% estavam vacinadas contra a Covid-19, 8% apresentaram teste negativo na entrada e cerca de 600 pessoas foram impedidas de entrar por falta de documentação.

Cerca de 14 dias após o início do festival, a comissária de Saúde Pública de Chicago, Allison Arwardy, foi ao Twitter anunciar que não houve “descobertas inesperadas e, neste ponto, não há evidências de que este evento foi um ‘superdisseminador’ ou teve impacto substancial na epidemiologia da cidade”.

A médica afirmou que foram identificados 203 casos entre participantes do festival. Entre eles, 58 eram moradores de Chicago, 138 não moravam na cidade, mas moravam no estado de Illinois, e outros 7 eram de fora do estado. Não houve registro de mortes ou hospitalizações por Covid-19 entre os infectados do Lolla.

“Se fossemos ver um aumento, nós já o teríamos visto nesse ponto, pelas minhas estimativas”, disse Arwardy em uma coletiva de imprensa.

Já a professora Emily Landon avalia que há provavelmente entre 300 e 500 casos ligados ao evento, porque esses participantes do festival infectados passaram o vírus para outras pessoas.

“Muitas pessoas que vieram de outros lugares, foram embora e voltaram para suas próprias cidades. Não temos ideia do que aconteceu nessas cidades”, disse a especialista, que também pesquisa esforços de prevenção para doenças infecciosas.

Ela complementa que, no geral, o saldo final do festival foi “muito bom”, porque não resultou em uma grande disseminação do vírus para pessoas mais vulneráveis.

“Não é que haja algum tipo de mágica que acontece no Lollapalooza, que faz com que as pessoas não transmitam a Covid-19. É que as pessoas que pegaram a doença [nessa edição] não transmitiram para muitas outras pessoas em Chicago. Foi isso que aconteceu. Não sei se vocês terão a mesma sorte no Brasil”, ponderou.

Como impedir um desastre no Lollapalooza Brasil?

O Lollapalooza Brasil será o evento de maior público em São Paulo desde que a OMS decretou a pandemia em 11 de março de 2020.

O festival deve superar em muito o GP São Paulo de Fórmula 1, que reuniu 181.711 pessoas no Autódromo de Interlagos durante três dias de novembro do ano passado.

A assessoria do Lollapalooza informou à CNN que a expectativa é de que até 100 mil pessoas passem pelo Autódromo em cada dia do evento. Dos três dias do festival (25 a 27 de março), a sexta e o sábado já estão com ingressos esgotados.

Em nota, o festival afirmou que “tem uma equipe 100% dedicada em estabelecer os cuidados e em colocar em prática os protocolos necessários”. “O público precisará apresentar o comprovante de vacinação (físico ou virtual) com, no mínimo, duas doses da vacina contra a Covid-19”, disseram os organizadores.

“Também será obrigatório o uso de máscara dentro do Autódromo de Interlagos, sendo que a retirada só será permitida para o consumo de alimentos e de bebidas”, acrescentaram.

Para a médica de Chicago, a organização do evento deveria ter pensado em uma capacidade de público reduzida.

“Não acho que não deveria ter [o festival]. Eu acho que eles deveriam reduzir a ocupação, para ser honesta. Acho absurdo o número de pessoas que eles deixam entrar”, disse Emily Landon.

Ela pontua que a “boa notícia” é que o Brasil está em descenso na curva da Ômicron, e provavelmente a taxa de casos e mortes deve continuar a cair até o fim de março.

“Meu palpite é que, quando chegar o Lollapalooza, os casos serão poucos e as pessoas não estarão morrendo, e estará tudo bem em realizar o festival. Mas, quando você reúne todas essas pessoas, você precisa ter algum tipo de camada de proteção”, afirmou.

Festival de música Lollapalooza, em São Paulo
Festival de música Lollapalooza, em São Paulo, em 2014 / Foto: Divulgação/Lollapalooza (2014)

A médica pontua que “a coisa mais importante” é pregar a “mensagem da redução de danos”.

Por exemplo, faça um teste para Covid-19 na semana seguinte ao festival. Além disso, evite visitar seus parentes mais velhos ou conhecidos que sejam de grupos de risco para a doença.

Ela também recomenda que as pessoas peçam para trabalhar de casa, se possível, e evitem sair com os amigos ou frequentar lugares cheios na semana seguinte, como bares e baladas.

“Está tudo bem, você tomou sua decisão. Então, vá se divertir no Lollapalooza, mas proteja sua comunidade depois”, declarou.

Para Landon, a estratégia a ser seguida é um retrato da convivência na pandemia – na qual, em algum momento, as pessoas decidem assumir riscos, enquanto outras preferem não.

“O que devemos fazer é garantir que não vamos envolver outras pessoas, principalmente as mais vulneráveis, em riscos que nós assumimos. Isso significa que, se decidirmos ir ao festival, precisamos ser cuidadosos depois”, concluiu.

Esta matéria inaugura uma série de reportagens que serão produzidas pela CNN e envolvem a primeira edição pós-Covid do Lollapalooza Brasil. Todas as produções poderão ser encontradas clicando aqui.

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